A amiga do novo sobrenome

ferranteElena Ferrante me fez aprender a andar e subir escadas sem precisar olhar para o chão, porque eu não queria fechar e guardar o livro na bolsa, no caminho do metrô até em casa. Me fez sair mais cedo e chegar mais tarde, estendendo as viagens nos vagões. Mesmo em casa, me fez perder horas de sono porque, já deitada, preparada para dormir, era impossível fechar os olhos.

A leitura é recente e será inesquecível, Elena, nos conduz pelas ruas de Nápoles, Lenuccia e Lila como se fossem nós mesmos. Sento-me com as duas, entre as duas na escadaria e digo-lhes: “entendo”. Elas me olham e se olham entre si e desconfiam. Lila revira os olhos. Lenu aquiesce. Sinto seu toque na minha mão, Lenu sorri e olha à frente.

Elena Ferrante me fez desejar andar pela Itália, sua luz marrom na minha imaginação. Falar italiano – na tradução dá pra sentir o sotaque de quem veio de lá há gerações, o jeito de falar da minha avó, que é o jeito de falar da avó dela –, escrever um romance. Começar um romance e vivê-lo. Me fez desejar conhecer um romance. Correr por ruas de pedra, ou melhor andar, andar olhando para tudo pelas ruas de pedra e de braços dados, tempos atrás, andar cadenciado.

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