Tradução: O enterro prematuro

Edgar Allan Poe dispensa apresentações, mas sobre O enterro prematuro (The premature burial), conto de 1844, vale fazer algumas observações.

Como o próprio título anuncia, o conto trata de enterros prematuros – da situação de pessoas serem, por engano, enterradas vivas. Logo nas primeiras linhas, depois de relembrar diversas tragédias coletivas que atraem a curiosidade humana, o narrador anuncia a tragédia pessoal do sepultamento vivo como a verdadeira e pior desgraça que pode ocorrer a alguém. Em contraponto àquelas, esta ocorre em silêncio, raramente é descoberta (e mais raramente ainda a tempo) e, talvez por isso, seja mais dolorosa, com toda a Desgraça (letra maiúscula mesmo, um recurso de Poe – hehe) abatendo-se sobre um único ser, solitário e impedido de correr.

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A flecha

Quando tive certeza de que você não voltaria, percebi que era a hora de retirar a flecha – anos atrás cravei uma flecha em meu tronco, na altura do umbigo, um pouco acima, do lado direito, e dei a ela o seu nome. Cravei-a exatamente no ponto que mais doía, tremia e formigava sempre que eu pensava que poderíamos nos perder para sempre. Acreditei que a dor da flecha na carne me faria esquecer a dor da sua ausência. E lentamente, e lentamente, os olhos fechados, mordendo os lábios e pressionando num movimento de rotação, escavei o buraco, fibra a fibra.

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Os olhos de Rufus

Um dos aspectos que mais chamam a atenção em “Os aleijados entrarão primeiro” (The lame shall enter first), conto de Flannery O’Connor, são as descrições: precisas, afiadas. Em vários momentos de sua prosa a autora não poupa o leitor e lhe apresenta mesmo as palavras mais duras, se for preciso, para representar com exatidão o que ela quer dizer.

Em meio aos acontecimentos destaca-se a descrição e menção aos olhos dos personagens, dizendo mais que as palavras. Impressiona o modo como a autora conduz o jogo dos olhares entre o narrador onisciente (e o próprio leitor), a demonstração do ponto de vista de Sheppard, os objetos de cena (telescópio, microscópio) que invocam a visão, o ato de ver melhor, de explorar, de perscrutar.

Estas são algumas impressões que se impõem após a leitura, e a ideia que perdura é que não há como ser conivente com a tragédia que é a cegueira voluntária, ao mesmo tempo que a verdade brilha com vigor, como os (e nos) olhos de Rufus.

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As sensações físicas de Twin Peaks

Queria muito escrever um texto refletindo sobre como Twin Peaks marcou a história do cinema e da televisão. Ou relacionando os personagens a arquétipos de acordo com a sua atuação e caracterização ao longo da trama. Adoraria, também, saber de curiosidades dos bastidores, e atentar os leitores para detalhes de cena que passariam batido.

Mas não sou capaz, porque, além de não ser peakmaniac – sabendo datas e fatos e nomes dos atores e de todos os personagens de cor –, Twin Peaks me impressiona mais por cenas isoladas do que pela construção geral da trama.

Lembro de quando assisti à série pela primeira vez. Já gostava dos filmes do Lynch, e um amigo me emprestou os dvds da primeira e segunda temporadas. Assistia praticamente um episódio por dia, e fui sugada pela atmosfera: lembro bem da sensação (essa é a palavra) de andar na rua e encontrar em cada um que passava por mim algo estranho e peculiar, de tirar frases de contexto e acreditar que poderiam ser códigos cifrados, de ficar com medo de olhar no espelho, no meio da noite, ao levantar a contragosto para fazer xixi.

Nesta terceira temporada anda acontecendo o mesmo. Ainda que não seja possível assistir a um episódio por dia, tenho evitado assistir outras coisas para ficar só aguardando o próximo Twin. Já tenho meus personagens amados e os que me dão nos nervos, um milhão de hipóteses do que vai acontecer e tenho certeza que ontem vi a agente Tammy Preston na rua. Logo quando assisti ao oitavo episódio caí numa depressão leve, da qual estou saindo graças à esperança cega na recuperação de Dougie Jones e à doçura persistente de Hawk.

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