O parágrafo um: Grandes esperanças

 
Sendo o sobrenome de meu pai Pirrip, e meu nome de batismo Philip, quando menino minhas tentativas de pronunciar os dois nomes não resultavam em nada mais longo nem mais explícito do que Pip. Por isso passei a denominar-me Pip, e assim vim a ser chamado.
Este é o parágrafo um de Grandes esperanças, romanção do Charles Dickens.
Vejam só: o narrador – o próprio personagem Philip Pirrip – já inicia sua trajetória apresentando-se e anunciando-se incompleto, “errado”, por não conseguir pronunciar seu nome todo corretamente. Sua definição no mundo e na vida surge na primeira página como uma tentativa infantil e vã.
 
De um jeito simples, numa construção singela, é possível identificar o que nos aguarda nas centenas de páginas que virão: a história da formação de um ser humano, suas tentativas e erros e a construção de sua identidade e integridade.
Tradução de Paulo Henriques Britto, edição da Penguin/Companhia.

O parágrafo um: Palmeiras selvagens

Alguns anos atrás, fiz um blog chamado “O parágrafo um”, em que eu copiava os primeiros parágrafos de romances. Comecei a fazer isso porque tive um professor na faculdade que nos repetia exaustivamente: “leiam o primeiro parágrafo. Releiam o primeiro parágrafo. Está tudo lá”.

Desde então, sempre, ao começar um novo romance ou conto, leio e releio o primeiro parágrafo. É um ritual. Tento depreender o máximo dele, às vezes decorá-lo. E é impressionante como – em alguns casos mais, outros menos, outros nada mesmo, aí não é impressionante – o autor retoma elementos ao longo da narrativa que dialogam com o trecho inicial.

Esses dias, cheia de inspiração, resolvi retomar a coleção. Vou deixar um espaço para ela aqui no blog (categoria “o parágrafo um”), e na página do Micro lá no Facebook.

Para hoje, a nossa singela inauguração, escolhi o começo de um dos livros que mais me marcaram na vida e que preciso e quero reler em breve.

Com vocês, o parágrafo um de Palmeiras selvagens, do William Faulkner.

 

A batida soou outra vez, ao mesmo tempo discreta e peremptória, enquanto o médico descia as escadas, o facho de luz da lanterna projetando-se à sua frente pela escada, manchada de marrom, do vestíbulo. Era uma casa de praia, embora tivesse dois andares, iluminada por lampiões de querosene – ou por um lampião de querosene, que sua mulher tinha levado para cima quando subiram depois do jantar. E o médico usava um camisolão de dormir, não um pijama, pela mesma razão que fumava cachimbo, coisa de que nunca conseguira e, sabia, nunca conseguiria gostar, entremeado aos charutos ocasionais que os pacientes lhe presenteavam entre um domingo e outro, quando fumava os três charutos que achava que podia comprar por conta própria, embora fosse proprietário da casa da praia e também da casa vizinha e da outra, moradia com eletricidade e paredes revestidas de gesso, no povoado, a quatro milhas de distância. Porque ele agora estava com quarenta e oito anos e tinha dezesseis e dezoito e vinte na época em que seu pai lhe dizia (e ele acreditava) que cigarros e pijamas eram coisas de almofadinhas e mulheres.

Tradução de Newton Goldman e Rodrigo Lacerda. Edição da Cosac Naify.

Breve odisseia

Algum tempo atrás, dias de agosto, conversando com um amigo:

— Ju, estou achando você um pouco abatida. Está tudo bem?

— Está sim. Algumas coisinhas atrapalhando, só. Mas no geral tudo bem.

De fato, andava num mau-humor insuportável, não sabia por que. Chorando por nada, irritada com tudo, sem a mínima vontade de sair de casa ou levantar da cama. Foram alguns dias que passei arrastando o pijama pela casa, alternando a atenção entre meu próprio estado deplorável (sic), a tradução de um conto do Edgar Allan Poe (aqui) e a décima leitura e análise do conto da Flannery O’Connor (aqui).

— Está trabalhando muito?

— Sim, alguns trabalhos. E fazendo uma tradução do Poe. E analisando o conto da Flannery.

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