Cidades mortas

Capa da primeira edição.

Comecei a ler Cidades Mortas, livro de contos do Monteiro Lobato, por causa de uma obsessão com o Vale do Paraíba. Todas as vezes que visitei a região foi para subir/caminhar nas montanhas, e a visão de lá de cima é de tirar o fôlego: mares de morros ondulando e criando contrastes de tons de verde, luz e sombra, até onde não dá mais para ver. Descendo de lá do alto, os minúsculos centros das cidades encaixadas entre as montanhas, a névoa a partir de certo horário – um gelo, pouca gente na rua – e um silêncio difícil de encontrar nas cidades grandes.

Recentemente estava trabalhando em um livro sobre o Euclides da Cunha, contando da época em que ele viveu em Lorena, cidade do Vale do Paraíba, entre 1902 e 1903, e li uma menção ao livro de Lobato acompanhada de um trecho que me impressionou.

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O parágrafo um: Reparação

A peça – para a qual Briony havia desenhado os cartazes, os programas e os ingressos, construído a bilheteria, a partir de um biombo dobrável deitado de lado, e forrado com papel crepom vermelho a caixa para guardar dinheiro – fora escrita por ela num furor criativo que durara dois dias e que a levara a perder um café da manhã e um almoço. Terminados todos os preparativos, só lhe restava contemplar o texto pronto e aguardar a vinda dos primos do Norte longínquo. Só haveria tempo para um dia de ensaios antes de seu irmão chegar. A peça, emocionante em alguns trechos, de uma tristeza desesperada em outros, era uma história do coração, cuja mensagem, expressa num prólogo rimado, era a de que todo amor que não fosse fundado no bom senso estava fadado ao fracasso. A paixão imprudente da heroína, Arabella, por um malvado conde estrangeiro é punida pelo infortúnio quando ela contrai cólera numa viagem impetuosa com seu amado a uma cidade costeira. Abandonada por ele e por praticamente todo mundo, acamada numa água-furtada, Arabella descobre que tem senso de humor. A fortuna lhe apresenta uma segunda oportunidade na pessoa de um médico sem dinheiro – o qual, na verdade, é um príncipe disfarçado, que optou por trabalhar para os pobres. Curada por ele, Arabella dessa vez faz uma escolha sensata e é recompensada pela reconciliação com a família e pelo casamento com o príncipe-médico ‘num dia primaveril de vento e sol.

Tradução de Paulo Henriques Britto, edição da Companhia das Letras.

O parágrafo um de “Reparação”, de Ian Mcewan, já apresenta a nós leitores a personalidade de Briony, uma das principais personagens do romance. Ao lermos sua dedicação e seu comando nos preparativos todos para a peça – que escreveu, produziu e fez todos os preparativos – encontramos sinais de sua personalidade imaginativa, mesquinha e manipuladora que fará a história toda acontecer.

No trecho “A peça…”, o narrador resume o seu próprio livro, revelando detalhes da história que virá a seguir e anunciando a importância da imaginação na concepção da trama. Também não tem como ignorar a doença de Arabella e o médico, já que as duas irmãs Tallis viram enfermeiras durante a Segunda Guerra Mundial.

Depois, na conclusão da história, é possível perceber o tom metalinguístico do romance, que se inicia falando de criação, com a peça, e termina nos surpreendendo com… Ok, sem spoilers.

The great case of Benjamin Gatsby

Recentemente, li “The curious case of Benjamin Button”, conto do F. Scott Fitzgerald publicado no livro Tales of the jazz era. O texto é uma beleza: o estranhamento dos leitores diante da ausência de questionamento dos personagens ao redor a respeito da situação de Benjamin traz uma aflição inexplicável misturando humor, melancolia e dúvida.

Durante a leitura, a primeira vez que nos deparamos com Benjamin é através dos olhos dos outros: do médico, que o trata como uma aberração, o ignora; da enfermeira, que o lamenta e de seu próprio pai, que de início o rejeita. Quando podemos ver o próprio recém-nascido old man agir e falar por si, surge um personagem formado, pronto para o mundo e até descontente por estar ali. Esse personagem vai se desconstruindo, pois Benjamin “nasce velho” e, com o passar dos anos, vai “growing younger”, ficando mais jovem. Seu tempo passa voltando, e o grande paradoxo do conto é, numa história de apresentação e formação de um personagem, ver esse personagem ficando mais fraco e mais difuso com seu desenvolvimento.

Benjamin Button não consegue apreender ou viver nada que dure, apenas momentos pontuais, cuja passagem do tempo ao revés impedem a sua permanência além do registro momentâneo. Vive o que o tempo lhe permite em breves intervalos, até que seja obrigado a seguir o seu caminho oposto.

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O único texto de Fitzgerald que tinha lido antes – mais de uma vez, e gosto demais – é The Great Gatsby, e não pude deixar de relacionar o final do livro com toda a temática de “The curious case…”. Com uma das frases mais marcantes da literatura, Fitzgerald conclui seu romance, a história de Nick Carraway:

 “So we beat on, boats against the current, borne back ceaselessly into the past.”

“E assim prosseguimos, botes contra a corrente, impelidos incessantemente para o passado.”

“The curious case…” foi publicado em 1922, e The Great Gatsby, em 1925. Ao lermos os dois textos é impossível não notar o diálogo entre ambos – que é pano de fundo comum de toda a obra de Fitzgerald – o mesmo contexto, a ambientação, a alta sociedade, o figurino. Depois, as linhas finais do Gatsby, de uma melancolia profunda, funcionam como uma espécie de síntese do conto escrito anos antes, como se os temas do tempo, da busca e da formação perseguissem o autor – ou o autor os perseguisse – incansavelmente; como se seus personagens andassem todos atrás da essência, daquilo que nos define e explica-se.