O amor e a guerra: comentários sobre O Retrato, vol. 2, de Erico Verissimo

Acabei na semana passada a leitura de O Retrato, vol.2, da série O tempo e o vento, de Erico Verissimo. Neste volume, o foco é a vida de Rodrigo Cambará após o seu retorno a Santa Fé – seu casamento com Flora Matos, o início de sua vida pública, a prosperidade de seu consultório, sua adaptação à provinciana cidade desejando, ao mesmo tempo, uma vida cosmopolita.

O Sobrado continua de pé, agora como um novo patriarca. O vento traz resquícios das gerações anteriores nos novos personagens e na vida da cidade e do mundo. Santa Fé recebe novos forasteiros, a Primeira Guerra Mundial é assunto nos serões regados a champanha e caviar, onde se discutia também política e costumes (com excelentes diálogos). O retrato de Rodrigo, antes tão imponente e admirado, torna-se, no fim do volume, objeto da hostilidade de Eduardo, um de seus filhos, que também segue a carreira política, mas do lado oposto.

No personagem de Rodrigo Cambará persistem as características do primeiro Cambará, e o médico vive seu drama interior entre o casamento e a liberdade, a afeição à esposa e o incontrolável desejo extraconjugal. A própria consciência de Rodrigo vive em combate, numa relação metonímica com as batalhas da Primeira Guerra (e depois à Segunda, anunciada como recém-terminada no fim do livro), e passa por momentos de agonia e derrota, que representam a sua queda – nos dois volumes sob o mesmo título notamos, assim, a ascensão e a queda do retratado, de sua concepção à destruição.

O suicídio agonizante de Toni Weber, primeira situação da qual Rodrigo não tem controle e nada pode fazer, soa como o início de sua queda, de sua miséria, narrada no longo e impressionante delírio sob a noite gelada do Angico, e possibilita a reaproximação e identificação com Licurgo, seu pai. Páginas adiante, descobrimos através de Floriano, outro filho de Rodrigo, que chega a Santa Fé e se detém diante do mausoléu da alemã, que a memória de Toni ainda habita o imaginário da cidade.

Floriano é escritor, e a partir da observação da lápide começa a raciocinar sobre seu próximo romance. Romance falando de romance; escrita sobre a escrita; Verissimo aproveita as linhas finais de seu volume para divagar sobre o ato de escrever utilizando a voz de seu personagem, e nos faz imaginar, com ele, quais foram os passos, os caminhos percorridos até chegar à composição de sua obra.

Lemos a cena da agonia de Toni, sua agonia de amor, com descrição aproximada (inclusive nos termos, na escolha das palavras) do Horror Moderno e do Horror Atômico que surgem nos pensamentos de Floriano logo adiante, quando ele reflete sobre seus escritos. Em certo momento, ele contrapõe a primeira situação (indiretamente) à segunda, afirmando que “qualquer drama individual, por mais terrível que fosse, empalideceria quando comparado com a tragédia coletiva que o mundo acabava de presenciar. A humanidade emergia da mais sangrenta e cruel das guerras”. No entanto, como o próprio livro nos mostra, e propõe, o amor, o martírio individual, e a guerra, são apenas dimensões diferentes da mesma substância.