3 COISAS QUE PENSEI AO ASSISTIR JULIETA ***CONTÉM SPOILER***

PRECISA HAVER MORTE, PARA HAVER NASCIMENTO

O que fiquei pensando depois de assistir ao filme foi que nada aconteceu às personagens de maneira indolor. Tudo foi fruto de uma morte: precisou haver a morte, real ou simbólica, para que as situações se desenrolassem.

Não fosse a morte do suicida do trem, a relação entre Xoan e Julieta talvez não tivesse se iniciado; e se não fosse a morte da esposa de Xoan, talvez essa mesma relação não tivesse se consumado, com o nascimento de Antía.

Penso no que pode ter nascido com a morte de Xoan, fora a relação próxima e dependente de Antía e Julieta, mãe e filha, relação que precisou morrer para que Antía nascesse e fosse “em busca de si”.

E foi necessária essa morte simbólica, a partida de Antía, para que Julieta pudesse recuperar-se – renascer – da morte de Xoan.

Julieta finalmente conseguiu reconstruir a sua vida, aos trancos, mas a dor da ausência de Antía, guardada, veio à tona a partir do encontro casual entre Julieta e Bea, a amiga de infância da filha, levando Julieta mais uma vez ao abismo. A morte do filho de Antía foi o que possibilitou a reaproximação entre ela e a mãe, que buscava em vão a filha distante, sumida, morta.

Angústia é uma palavra adequada para definir o filme, que amplifica a dor de Julieta em sua busca. Ficamos, deste lado, apenas esperando a próxima tragédia acontecer, imersos na atmosfera dramática esquematizada pelo diretor.

Qual será a próxima morte, e o próximo nascimento? Então fiquei pensando se essa pode ser uma definição de melancolia, viver à espera de algo sem solução, para viver para remediar, e novamente esperar, num ciclo.

O MAR E O TREM

Pontos, explica Julieta a seus alunos em uma aula de Literatura Clássica, é o termo grego para designar a palavra mar como um lugar de aventuras, o lugar do desconhecido. Ela exemplifica o uso do termo através do trecho da Odisseia em que a embarcação de Ulisses naufraga perto da ilha da ninfa Calipso, que lhe oferece abrigo e apaixona-se por ele.

Calipso sabe que seu amado pretende partir em breve e tenta convencê-lo a ficar de diversas maneiras: oferece-lhe seu corpo, oferece-lhe a juventude e a imortalidade. Ulisses, no entanto, ignora as ofertas, imune aos encantos da ninfa e determinado a enfrentar o oceano e a longa viagem de volta para casa, para Penélope e seu filho, através do mar desconhecido e de seus perigos.

“O mar” é uma das primeiras frases ditas por Julieta ao entrar na casa de Xoan. O mar é onde Xoan vive e trabalha – é também onde acontece a sua morte (há algo mais desconhecido do que a morte?). Xoan é o mar. Ao avistar aquele mar, mesmo por trás dos vidros, Julieta preferiu-o, preferiu a aventura do desconhecido a ficar onde estava. Xoan, por sua vez, confrontou-se com o desconhecido após sair para pescar.

(Lembrei agora também que quando Julieta pronuncia “o mar”, Marian, a “governanta” de Xoan responde algo como “à primeira vista é mesmo impressionante, depois acostuma” – acho que ela diz algo assim. Com essa frase, demonstrando tal familiaridade com o desconhecido, não me sai da cabeça essa personagem como a própria Moira, também da mitologia grega – tétrica, o destino já tecido, o irremediável).

Fui reassistir ao filme para lembrar qual era o mito que Julieta falou na sua aula, e reparei também que muitas das cenas – não sei se a maioria, mas as mais marcantes – são internas, em casa. A casa, não importa de quem seja, o núcleo, a família, são os principais espaços do filme, como se as personagens vivessem presas – assim também são os planos escolhidos por Almodóvar. Julieta muda-se para diversas casas ao longo de sua busca, para esquecer a conhecida casa anterior. Quando vemos a primeira e deslumbrante cena externa, o plano aberto, ela está na estrada, com Lorenzo, a caminho da casa de sua filha e de um reencontro esperado por 13 anos. Rumo a mais um mundo desconhecido, (o mundo de) Antía.

Me empolguei com o lance do mar/casa e esqueci do trem. Mais uma vez em movimento, rumo a. Do trem, de onde tudo começou entre Julieta e Xoan, vemos a imagem selvagem de um cervo acompanhando o vagão. É uma imagem linda, silenciosa, e uma googlada breve trouxe o cervo como representação da fecundidade, dos ciclos de crescimento e renascimento.

Na mitologia grega o cervo também está relacionado à deusa Ártemis, deusa da caça, da vida selvagem – mais uma vez a busca, como todos os deslocamentos ao longo do filme.

FOCO NARRATIVO

Sabemos muito pouco sobre Antía, assim como Julieta sabia muito pouco sobre Antía (e quão doloroso é, para ela, descobrir isso). Nas vezes em que assisti ao filme vi vários espectadores frustradíssimos por não reencontrarem a menina – também fiquei frustrada, pensando “poxa, merecíamos uma explicação, hein, dona Antía!?” – e escutarem a sua versão da história.

Mas o nome do filme é Julieta. Sabemos toda a história por meio da narração de Julieta, é o seu ponto de vista que temos, um ponto de vista que não é onipresente ou onisciente. Sabemos de Antía o que ela nos impõe – a sua ausência. Com isso, é a dor e a depressão de Julieta que sentimos em nós, e até Bea (a amiga de infância) dar a entender o tipo de relação das duas, sequer o imaginamos, porque enxergamos apenas o – pouco – que Julieta vê (eu pelo menos não imaginei, sei de nada, inocente).

Julieta vive tão imersa em sua dor (e nós, na dor dela) que não olha para a filha com a mesma atenção.

E depois de certo tempo, quando Julieta começa a conseguir ignorar essa dor, ela volta com tudo, como a recaída de um vício que muda o rumo de sua vida e se estende até a chegada de uma carta, em que Antía revela um endereço e conta do sofrimento de sua vida atual. A carta da filha, assim como a de Xoan, no início, não continha um pedido explícito para que a mãe fosse encontrá-la. Porém, para Julieta, ficar onde estava não era uma opção.

*

Gosto muito do filme. Gostei de ele ser mais contido e mais silencioso que o “Almodóvar tradicional”, como li em várias crtíticas. À medida que (assim como Julieta) recebemos informações de terceiros sobre fatos do passado das personagens percebemos a dor e a culpa como parceiras permanentes, e isso me fez achar o filme triste de doer – assim como pensar no sofrimento, e apenas nele, como forma de redenção e de movimentação do mundo.

Mas também tem a beleza, surgindo aqui e ali, quando nos esforçamos para olhar ao redor mesmo dali, do fundo do poço – oceano indicado para bravos exploradores.

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