JEZEBEL

JEZEBEL

TABELA FEMININA

ÂNUS……………………………………………………… R$ 30,00

AXILAS……………………………………………………. R$ 12,00

BARRIGA COMPLETA……………………………….. R$ 20,00

BARRIGA………………………………………………… R$ 12,00

BRAÇOS…………………………………………………. R$ 30,00

BUÇO…………………………………………………….. R$ 10,00

COSTAS COMPLETAS……………………………….. R$ 20,00

COSTAS…………………………………………………. R$ 12,00

COXA…………………………………………………….. R$ 18,00

FAIXA…………………………………………………….. R$ 10,00

JOELHOS………………………………………………… R$ 6,00

MÃOS……………………………………………………. R$ 6,00

MEIA PERNA…………………………………………… R$ 17,00

NÁDEGAS……………………………………………….. R$ 20,00

NARIZ……………………………………………………. R$ 8,00

NUCA……………………………………………………. R$ 6,00

PERNA INTEIRA………………………………………. R$ 34,00

PÉS……………………………………………………….. R$ 5,00

QUEIXO…………………………………………………. R$ 10,00

ROSTO COMPLETO…………………………………. R$ 25,00

SEIOS……………………………………………………. R$ 8,00

SOBRANCELHAS…………………………………….. R$ 25,00

VIRILHAS CAVADAS………………………………… R$ 25,00

VIRILHAS COMPLETAS…………………………….R$ 30,00

 

UM BELO DIA

— Olá, Ivana. Bom dia.

— Bom dia…

­— Camila.

— Bom dia, Camila.

*

PLIM

Um silêncio de aproximadamente vinte segundos enquanto Camila, fidalga, pendura suas coisas nos ganchos da parede, a bolsa, o casaquinho.

— E então, o que vamos fazer hoje?

— Bem… Hoje vou fazer perna inteira e axila.

— Pode tirar a calça e a blusa, fica à vontade, vou ali pegar a cera.

Camila foi tirando a roupa em câmera lenta e pendurou cada peça nos ganchinhos. Depois deitou na maca com os braços pra cima, calcinha e sutiã, e ficou esperando. Ivana espionou a cliente pela porta entreaberta da cabine. Foi lá na sala dos fornos e pegou a cera.

— Desculpa a demora, a cera estava fria.

Ivana apoiou o panelão de cera na estante, ligou o ventilador e respirou fundo. Ivana tremia um pouco, assim, já.

— Primeira vez aqui? Ou fazia com outra depiladora?

— Pois é. Nunca tinha vindo antes, mas sempre passava na frente. Vim experimentar. Minha depiladora oficial mudou pra Guarulhos.

— Hammm. Muito bem.

O silêncio das recém-conversas. Na cabeça da Ivana começou a tocar Ana Carolina.

— E sempre que passava aqui na frente pensava “poxa, vou experimentar fazer depilação aqui um dia, parece uma graça de lugar”…

— Ah, aqui é mesmo uma graça. A proposta da dona era fazer um salão não-convencional. Acho que o barulho de secador incomoda muita gente.

— Nem fale, sempre odiei salões por isso. E pelo monte de mulher enxirida que fica olhando e comentando.

— Ai também detesto mulher enxirida. Tem várias.

— E aqui deve ter ainda mais, né? Não dá pra escapar… É muita mulher junta! Não sei como você aguenta…

— Eu gosto. Assim, entre nós, que trabalhamos aqui, não tem muita treta não… muita… fofoca. Todas se ajudam… O foda é as cliente.

— Muita cliente chata?

— Tem umas insuportáveis. Tem uma que todas nós fugimos dela. Quando ela liga pra marcar, todo mundo fala que não pode. Teve caso até de depiladora se esconder ali no quartinho de descanso quando ela chega…

— Hahahaha, por quê? Muito pelo?

— Antes fosse. Muita frescura, isso sim. A mulher vem aqui toda semana e não sai da cabine até ver que não sobrou nenhum pelinho. Coisa assim de tirar a pinça da nossa mão e sentar arreganhada na maca pra caçar pelo. Caçando pelo e a gente olhando, dizendo que não tem mais pelo aí, dona.

— HAHAHAHAHAHA, gente.

— É, minha filha. Nunca vi isso não. Assim, tirar pelo toda semana. A gente tira todo mês, né… ou quinze em quinze. Mas toda semana… os pelo nem cresce direito.

— Pois é! Aiaiaiai, essa é a parte que mais dói.

— Vou esperar a cera secar mais. Mas já estamos acabando. Não vai fazer virilha não?

— Hoje não… da próxima vez, faço.

— Faz sim, te deixo limpinha.

— Hoje estou um pouco corrida, mas volto logo!

— Ótimo, acabamos. Só vou passar o óleo calmante.

Ivana massageou as pernas de Camila. Ivana massageou as axilas de Camila. Pensou: axilas de Camila. Axila, Camila.

IVANA ACHOU QUE ESSE SERIA APENAS MAIS UM DIA COMUM DE TRABALHO. QUANDO DE REPENTE.

(toc toc toc)

— Oiê, voltei!

Ivana estava mexendo no celular, olhou pra porta e o celular da Ivana caiu no chão, instantaneamente, assim como seu queixo, e sua pressão.

— Aiiiii, te assustei, Ivana?! Desculpa.

— (ela lembrou meu nome) Nada não, estava distraída, aqui, mexendo. Tudo bem?

— Tudo! Nossa, você tá pálida. Quer uma água? Vou ali embaixo buscar pra você.

 (Ninguém nunca buscou uma água pra mim)

Ivana se recompôs e ajeitou o cabelo no espelho. Você está bonita, Ivana.

— Aqui ó. Beba.

— Obrigada, flor. To meia lesa hoje.

— Hahaha, to vendo.

— Vamos lá. Vai fazer o quê?

— Axila de novo, se der o comprimento. E virilha.

— Virilha cavada, completa ou faixa?

— Como é cada uma?

— Cavada é cavada, é só pra tipo… Não ficar saindo pelo pra fora do biquíni. Completa é tudo tudo, em cima e nos lábios, e dentro. Fica lisinha. De menina.

— Ai, eca. E faixa?

— Faixa é dos lados e embaixo, deixa aquele bigodinho Hitler na testinha.

— Hmmm. Vou de cavada, normal.

— Sem ousadias…

— Exato. Arroz-feijão.

— Papai-mamãe. Hahaha. Então deita aí e tira a roupa. Volto já.

— Tiro a calcinha?

— Não, pra fazer a cavada não precisa.

Ivana espionou – Ivana esperou mais de quinze dias para espionar alguém. Alguém tinha de ser Camila. Ela voltou com o panelão, mas tremia tanto. Apoiou na mesa o panelão, e na testa, sua mão.

Deitada na maca de barriga pra cima, os dois braços estendidos, as pernas levemente abertas, Camila. Sem sutiã hoje, só de calcinha.

— Ai, hoje é dia de sofrer muitão!

— Nossa, menina, quanto tempo faz que tu não te depilas?

— Hahaha, uns três meses. É que cresce muito, e eu não costumo ir à praia, então… não faço sempre.

— Ah, mas é bom fazer, né… Deixar limpinha, ficar gracinha. Ó. (beijinho)

— É, é bom mesmo, e meu noivo sempre pede…

Uma gota gorda de cera cai da espátula bem em cima da calcinha de Camila.

— Eita!

— Ai, Camila, pingou aqui, menina. Espera, não se mexe! Vou pegar uma toalhinha úmida para tirar essa cera.

Ivana sai correndo da cabine, no semichoro. Ela vai me odiar pra sempre. Ela não volta nunca mais.

Volta Ivana, e no semipranto começa a passar a toalhinha úmida em cima da calcinha de Camila, friccionando de leve, depois mais forte, sem perceber. Camila, constrangida.

— Tudo bem, Ivana, tudo bem – espantando as mãos de Ivana de sua calcinha – depois eu lavo a calcinha e fica tudo bem, isso aí sai.

Ivana não parou assim tão logo. “Tirar uma casquinha” – às vezes rola.

— Vai, pode terminar, deixa isso pra lá…

— Desculpa mesmo, Camila, foi sem querer. Caiu a gota aqui.

— Tudo bem, tudo bem. Vamo logo, Ivana, vamo logo que eu tenho que ir almoçar com minha sogra.

— Mas você… me odeia pra sempre?

— Claro que não! Tô aqui deitada sem roupa pra você, Ivana!

— Desculpa pela calcinha. Você vai voltar?

— Claro que sim!

— Ok, estamos terminando. Vou só passar o óleo calmante.

Ivana passa óleo calmante na virilha de Camila. Camila, virilha.

*

DEPOIS DE UM MÊS MUITO SOLITÁRIO

Toc toc toc

— Mas me deixa, Daiane, oxe mulher irritante.

— Ei, eu?

— Gata! Você voltou! Deita já aqui!

— Hahahaha, Ivana. Tudo bem? Faz um tempinho, né?!

— Mais de mês. Achei que você não vinha mais. Por causa da cera.

— Magina, Ivana. Você me deu sorte. A cera da sorte.

— Dei sorte, é?

— É! Sabe, eu estou noiva há algum tempo… Naquele dia fui almoçar com Richard, meu noivo, e a mãe dele, dona Célia, uma chique mulher.

— Ai, e aí?

— E aí que… MARCAMOS A DATA! Vamos nos casar na primavera! Logo, logo. Resolvemos fazer tudo rápido, sabe como é. Agora vai começar o corre-corre atrás de vestido, bifê…

— Muito bem. Parabéns, Camila.

Ivana de cara fechada e em silêncio.

— E o que você vai depilar hoje?

— Hm, vamos lá. Preciso fazer a perna toda, a axila e a virilha de novo. Como cresce rápido, né?

— Qual virilha?

— A básica. Cavada.

— Ok, vou pegar a cera. Se apronta aí.

— Sim senhora.

Olhar fulminante de Ivana enquanto saía da salinha. Desta vez não teve espionagem.

O de sempre, Ivana e o panelão, pronta para mandar ver. Mas desta vez não tinha amizade. O silêncio de Ivana era sepulcral.

— Ivana, tá tudo bem? Tô te achando tão muchiba.

— To bem sim. Uns problemas aí.

— Brigou com o maridão?

— Não sou casada.

— Nem tem namorado, Ivana?

— Não tenho, não gosto.

— Ah, então é por isso que você tá de mau-humor!

Olhar fumegante de Ivana.

— Ai, tá bom, desculpa.

— E seu noivo? Ele é rico?

— Muito rico.

— Hm.

— É um homem de negócios.

— Ótimo. E ele cuida bem de você?

— Ele é um príncipe.

— Então é hora de você cuidar direitinho dessa princesinha aí embaixo, né?

— Hahahaha. (Camila ri, Ivana fica séria.)

— Sério, Camila. Se seu noivo é um homem de negócios, ele não deve gostar de xeca peluda.

— Ah, ele já reclamou algumas vezes, mas eu não ligo. Ficar com xota de criança é que eu não vou.

— Fica uma graça.

— Ai, Ivana, pára.

— É sério. Fica maciazinha. (Beijinho)

— Eu acho de muito mau-gosto.

— Sabendo que seu noivo é um homem de negócios, posso te garantir que ele vai pirar quando ver sua xereca sem pelos.

— Você não sabe nada sobre meu noivo, Ivana! Ele é um homem bom e distinto. Não vai me forçar nunca. Ele gosta de mim como sou.

— Ai, Camila, tá bom. Ó tá feita aí sua depilação comum na sua vagina comum. Vista-te. Pega tua roupa e se manda.

— Nossa, Ivana. Que bicho te mordeu hoje, hein? Tá loco meu.

— Eu aqui te dando dicas. Você, me esnobando.

— Queridinha. Da minha xana cuido eu.

Camila pega a bolsa e a pendura no ombro. Camila calça o tamanquinho. E sai porta afora.

— Não nesta sala! – grita Ivana, e suspira, e senta no banquinho branco, quadrado, de plástico.

*

A RECONCILIAÇÃO

— Oiê!

— Ai, Camila, que bom que você voltou. Achei que nunca mais ia te ver. Vamos, deite-se aqui.

— Sua bobinha. Claro que eu voltei. Eu te escolhi, Ivana! E já faz mais de um mês. A pequenina lá embaixo está implorando pra te ver!

— Hahahaha besta. Vai, se apronta, deita. Vou buscar a cera.

Ivana flutuou até a sala da cera. Flutuou tanto que o croc rosa escapou do pé. Ela deu uma espiadinha de leve: o corpo branco de Camila na maca. Um corpo muito branco. As pintas. Calcinha, Camila. De renda branca.

— Veio vestida de noiva hoje, foi?

— Ai, que saudades!

— Camila, desculpa aquele dia. Eu estava muito chateada com um problema. E com dor de cabeça.

— Tudo bem. Sou mulher também, né? Eu sei como os problemas deixam a gente, vez ou outra. Mas olha. Se quiser conversar, estou aqui. Quer me contar o que aconteceu?

— Camila, você é boa.

— 🙂

— Sério, você é uma mulher boa. Tenho certeza que você nunca vai saber o que é um amor triste. Eu torço por isso. Que você seja feliz.

— Ô, Ivana. Sabia que era isso. Sempre o coração. Mas olha, você é especial. Com certeza vai encontrar um cara legal.

— Não vou não.

Camila olha nos olhos de Ivana. As duas em silêncio. Ivana pisca primeiro.

— O que vamos fazer hoje além da virilha?

— Perna e axila. Kit completo.

— Firmeza.

— … Ahm, Ivana…

— Fala, princess.

— Vou fazer uma virilha diferente hoje. Vou fazer a Hitler.

— Hm, muito bem. Vai ficar ótima na sua vagina.

— Tiro a calcinha?

— Tira… Quer dizer – não precisa…

— Ok.

— Preparada?

— Ai, mais ou menos. Vai com carinho.

— Relaxa, mulher. Vai ficar linda.

*

UMA VISITA RÁPIDA

— Oi, Ivaninha, meu bem-querer!

— Há! Camila, tava falando de você agorinha mesmo aqui pra Daiane. Tava falando do seu casamento, do seu noivo, do seu homem de negócios.

— Aiiiii! Nem me faleeeeeeeee! Hoje eu tô só de passagem pra tirar o suvaco. Meu noivo e minha sogra vêm me buscar em 20 minutos. Vamos provar os docinhos!

— Oxe, a sogra vai também?

— Vai, menina.

— Que coisa mais chata.

— Ela faz questão de pagar as coisas, então quer participar de tudo. Até do vestido.

— Ah, que lástima. Mas ela é chata?

— Não… Ela fala bastante, mas só quer ajudar, tadinha.

— Muito ajuda quem não atrapalha, né?

— Nossa, Ivana, que figuraça você é!

— Sou?

*

UMA VISITA DEPOIS

— Já voltou foi?

— Haha. Já. Como foi só a axila semana passada, vim cuidar do resto hoje.

— Tendi. Perna e virilha?

— Isso.

— Virilha completa?

— Não, Ivana, sua danadinha.

— Ai, cavada só? Arroz-feijão?

— SIM, IVANA. PAPAI-E-MAMÃE.

— Hahaha, você fica ótima de qualquer jeito. Vou lá buscar a cera. Deita-te.

Ivana passou uns 15 minutos buscando a cera.

— Volte-ei. Tá pelando isso aqui. Vou pôr. Se queimar, me avisa.

— Ai, tá quente mesmo.

— Vamos esperar um pouco mais.

— E aí? Escolheu os docinhos?

— Escolhi! Estavam todos muito bons. Amo docinhos.

— Quem não ama, não é mesmo? E foi tudo bem com a sogra?

— Foi, ela tava light.

— Que bom, que bom.

— E você? Como passou a semana?

— Menina, você não sabe o que me aconteceu!

— Ai! Conta!

— Engoli um pelo.

— Oi? Engoliu um pelo? Hahahaha, como assim, Iv?

— Engoli, menina. Tava depilando uma vagina e, de repente, o pelo entrou na minha boca e entalou na minha garganta. Pode isso?

— Não! Não pode!

— Pois foi. Fiquei sentindo o pelo ali arranhando que arranhando. Até comi maisena pra ver se ele saía. Mas não saiu… bebi água…

— Então você tem um pelo entalado na garganta neste exato momento?

— Não, né. Isso foi quarta. Ele já saiu.

— Uia! O que você fez pra sair?

— Não sei, ele saiu…

— Ah, Ivana! Como assim?

— Sério, menina, engoli o pelo e o pelo não saía. Daí Daiane falou preu comer maisena que a maisena tirava.

— Gente, mas como a maisena tira um pelo na garganta?

— Sei lá, gruda.

— Que nojo Ivana.

— Ah, normal engolir pelo. Quer dizer… sou depiladora… pode acontecer…

— Eca.

— Ai, Camila, pára de ser princesinha. Engoliu pelo engoliu pelo – vai fazer o quê?

*

O INVERNO SE APROXIMA

– OIÊÊÊ!

– QUE SUSTO, MULHER!

– HAHAHAHAHAHA.

– OXE, SEMPRE QUE VOCÊ CHEGAR VAI ME DAR SUSTO?

– JEITINHO.

– Tá bom… Camila. Você sabe que pode fazer o que quiser.

– Ain, Ivana. Você falou igual meu noivo agora.

– Haha – sabia. Você tem jeito de princesinha, Camila.

– Ahm, bem, hoje eu vou fazer a virilha e a axila. Se o comprimento do pelo der, vou fazer a perna também.

– Tomou coragem da virilha completa? Hm? Bora ficar peladinha?

– Hitlerzinho pode ser.

– Tá… que coisa, quando é que tu vai me ouvir?

– Não vou ouvir nada, Ivana. Não vou tirar todos os pelos da minha vagina, ok?

– Tá, tá bom. Mas seu noivo ia adorar.

– CLARO QUE IA, IVANA. TODO HOMEM ADORA.

– Ai, calma. Não tá mais aqui quem falou.

– Que coisa! Toda vez que eu venho aqui é essa mesma discussão! E nem vem que hoje eu to de ovo virado, hein.

– Xiiiii. Que aconteceu? Me conta, menina.

– Ah, não sei bem. É o Richard, meu noivo. Está esquisito. Distante, sabe? Parece que não me quer mais. Mal fala comigo.

– Mas por quê criatura?

– Não sei, meio sem razão. Eu acho que tem alguma coisa errada. Acho que ele não quer mais casar.

– Ô menina… Isso acontece direto, viu. A Daiane mesmo. O homem fugiu, fugiu com uma menina de 19 anos duas semanas antes deles casarem.

– Ai, Ivana, vira essa boca.

– Ai só to contando da Daiane. Não vai ser igual com você. Claro que não. Você é uma princesa – não vai ter um amor triste.

– Tenho medo, Ivana. Eu amo muito o Richard. (Lábios de Camila tremendo e olhos lacrimejando. Muitas mulheres já choraram para Ivana, e vice-versa.)

Ivana aproveitou o momento para lambuzar de cera, por dentro, as coxas de Camila. Camila ali deitada, sem roupa, com a calcinha enfiada entre os grandes lábios e as pernas abertas. Ivana babou enquanto Camila chorava.

– Pera, menina. Vou pegar um lenço pra você e uma água. Fica aí.

– Toma, Camila. Se enxuga e assoa esse nariz. Vai. Vai ficar tudo bem. (Ivana nunca tinha encostado a mão na testa de uma cliente antes. Fez carinho na testa de Camila.)

– Obrigada, Ivana. Obrigada. Eu não tenho ninguém com quem conversar, sabe? Minha mãe vive muito ocupada e minhas amigas sumiram… Eu só tenho o Richard.

– E eu. Você tem a mim.

– …

– Vamos terminar isso, então? Vai, me conta. Hoje vai ter algum preparativo do casamento?

– (fungando) … Acho que vamos mandar os convites…

– Já?! Tá vendo, Camila? Vai ficar tudo bem…

– Vai, né? Deve ser paranoia minha, sei lá.

– Às vezes os homens têm medo de se casar. Não são assim, destemidos como nós. Conversa com ele, conversa com calma, e pergunta o que está acontecendo.

– É! Vou preparar um jantar hoje!

– Isso. Vai ficar tudo bem.

– Ai Ivana, muito obrigada. Você é especial.

– Aiiiii! Sabe o que você pode fazer?

– O QUÊ?

– Depilação completa na virilha! Ele vai adorar! Vai querer casar na hora!

*

UM MÊS

– (pianinha) Oi, Ivaninha!

– Haha! Voltou!

– E desta vez não te dei susto.

– Fico mui satisfeita.

– Vamos acabar com esses pelos que hoje será um dia importante: vou provar meu vestido! É a última prova! Falta um mês, Ivana! Um puto dum mês!

– Que beleza, hein?!

– Nossa, nem fale.

– Então você resolveu os problemas com ele…

– Problemas?

– É… Da última vez que você veio aqui você disse que ele tava estranho e tal…

– Ah, sim! Bem, conversamos, né… Eu preparei um jantar e chamei ele pra conversar.

– E aí?

– Ah, eram problemas nos negócios. Ele estava nervoso com uns acionistas e clientes. Muito complicado esse mercado financeiro. Ele me explicou e disse que já estava resolvendo tudo. Ficou tudo bem. Jantamos e depois fizemos amor feito cães.

– Ai, Camila. Isso é jeito de falar?

– Ai nem vem ser princesinha você. Que hoje eu tô feliz pra cacete!

– Hahaha, perfeito. Então vamos cuidar da bonequinha.

– Vamos!

– Deita aí. Já venho.

Ivana espionava e chorava. Cães.

– Pronto, minha flor.

– Vai ser virilha, perna e axila. Tudo, de novo.

– Maravilha. (fungada)

– Que foi, Ivana?! Tava chorando?

– Não, um cisco acho.

– Hahaha. Um pelo no seu olho!

– (Funga-funga) Pois é, ossos do ofício.

– Camila, já que você está muito feliz, e eu muito triste, posso te pedir uma coisa?

– Claro, nêga. O que você quiser.

– Vamos depilar completa hoje?

– Oh, God.

– Por favor. Toda vez que eu faço isso nas clientes, elas amam. Resiste, resistem, mas amam. Eu estou muito chateada hoje, Camila. Eu queria ter a chance de fazer você feliz com essa depilação. Me faria muito bem. Eu prometo que você vai gostar. (Fungada da chantagem.)

– Posso pensar?

– Pode. Enquanto isso vou fazendo a axila e as pernas.

– Tá bom.

(3 minutos depois)

– Tá bom, eu disse tá bom.

– Tá bom o quê, gata?

– Pó depilar.

– Sério, Camila?

– Sério. Não tenho nada a perder, não é mesmo? Só os pelos.

– Rs.

– E, também, acho que o Richard vai gostar. Só falta decidir as flores, e quero orquídeas para o buquê.

– Sério mesmo, Camila, tem certeza?

– Sim, Ivana! Manda ver!

– Nossa, doeu menos do que eu imaginava.

(Ivana com um espelhinho)

– Viu só? Ficou show.

– Ivana, obrigada.

– Obrigada a você, flor. Pera, pera – não levanta ainda.

– O quê?

– Fica aí deitada. Vou passar o óleo calmante.

– Tá.

– Peraí que vou lá buscar.

Ivana foi até o banheiro rapidinho, conferir se estava com bafo. Soltou o cabelo, se arrumou. Ivana pegou um óleo adormecente que comprara em um sex shop. Camila, hora do bote, você é minha.

Ao entrar na sala, Camila não percebeu a mudança na fisionomia de Ivana pois estava mexendo em seu iPhone. Foi então que Ivana, quase em completo silêncio e com todo o carinho, começou a passar o óleo adormecente…

*

É PRIMAVERA!

– Alô?

– Ivana, sou eu!

– Oi, gata.

– Ivana, eu tive uma ideia. Quero saber se você topa.

– Topo, mas… fala.

– Meu casamento é semana que vem.

– …

– Vou passar o dia da noiva num hotel nos Jardins, pra me arrumar. Fazer cabelo, maquiagem… depilação.

– E?

– Bem… Pensei se você não quer ir comigo pro hotel, cuidar de mim.

FIM

 

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