A amiga do novo sobrenome

ferranteElena Ferrante me fez aprender a andar e subir escadas sem precisar olhar para o chão, porque eu não queria fechar e guardar o livro na bolsa, no caminho do metrô até em casa. Me fez sair mais cedo e chegar mais tarde, estendendo as viagens nos vagões. Mesmo em casa, me fez perder horas de sono porque, já deitada, preparada para dormir, era impossível fechar os olhos.

A leitura é recente e será inesquecível, Elena, nos conduz pelas ruas de Nápoles, Lenuccia e Lila como se fossem nós mesmos. Sento-me com as duas, entre as duas na escadaria e digo-lhes: “entendo”. Elas me olham e se olham entre si e desconfiam. Lila revira os olhos. Lenu aquiesce. Sinto seu toque na minha mão, Lenu sorri e olha à frente.

Elena Ferrante me fez desejar andar pela Itália, sua luz marrom na minha imaginação. Falar italiano – na tradução dá pra sentir o sotaque de quem veio de lá há gerações, o jeito de falar da minha avó, que é o jeito de falar da avó dela –, escrever um romance. Começar um romance e vivê-lo. Me fez desejar conhecer um romance. Correr por ruas de pedra, ou melhor andar, andar olhando para tudo pelas ruas de pedra e de braços dados, tempos atrás, andar cadenciado.

Me fez entender de onde eu vim, família toda no mesmo pátio, a ordem ritual das coisas simples dos dias, o permitido, os vizinhos, todo mundo sabendo de tudo de todo mundo e apostando palpites. Me fez sentir incomodada durante um café cortez com um rapaz muito rico, certa vez, e entender por que me senti assim, e também por que me senti assim na universidade, no final da escola, e num milhão de ambientes.

Tenho vontade de usar a frase “não importa, isto é uma estupidez” com mais frequência, ou empregar com ironia a ordem “afaste-se”, rindo em seguida, apertando os olhos para enxergar melhor quem me fala. De enxergar bem todas as pessoas. Passar o verão em Ischia. Passar o verão em Forio. Em Barano. Deixar um bilhete com o endereço e sair, pronta para esperar as visitas.

Com um olhar austero, contrariada, examinando de cima a baixo, Elena joga a corda para eu segurar e cá estou, neste exato momento, esperando que ela puxe de volta. Seguro firme sem soltar. Controlo a respiração imóvel enquanto decido voltar às páginas dobradas das últimas semanas.

As próximas páginas estão por vir. Ainda faltam dois volumes.

Reflexão ocasional a partir de A amiga genial e História do novo sobrenome, de Elena Ferrante.

Um pensamento em “A amiga do novo sobrenome”

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *