A batalha da madeira

Se Pedro Álvares Cabral precisasse contratar um marceneiro para fazer os navios de sua expedição, talvez o Brasil nunca tivesse sido descoberto. Esses curiosos e peculiares profissionais, parece, são os mais inacessíveis da cadeia alimentar. Você pode ligar, você pode insistir, você pode mandar longas sequências de mensagens e até ir bater na porta deles, não importa. Estará sempre à mercê de sua desalmada boa-vontade. Parece que, quanto mais simples é o trabalho, mais trabalhoso é o fornecedor, e nesse ritmo a minha biblioteca jaz, há meses, relegada a uma estante improvisada no escritório, em vez de mostrar-se exuberante na sala de estar.

No início foi a procrastinação. Demoramos para decidir a disposição das coisas: parede da sala vazia? Livros no escritório ou à vista? Estante? Prateleiras? Altas ou baixas? Depois de escolhermos, enrolamos para montar na parede a estrutura de trilhos e mãos-francesas, crentes de que a sua simples presença seria mais um empurrãozinho para resolver logo o pepino. Quarenta furos na parede depois, tragam os pepinos!

Oh, muito, muito simples! Seis prateleirinhas, três medidas diferentes, tudo anotado e organizado, vamos passar para o nosso marceneiro indicado e de confiança, e… Descobrir que ele só vai aceitar encomendas a partir do ano que vem. Tratando-se de marcenaria, se está fácil, está errado, e chegou a hora de rever a estratégia para, enfim, terminarmos de decorar o nosso apartamento.

Começamos por uma peregrinação aqui no bairro, numa agradável manhã de sábado, parando em todas as marcenarias que encontramos pelo caminho. Fechada, fechada, fechada. “Aqui no Google Maps está esse número”, mas… é um mercadinho. E esse outro número aqui não existe. Nas duas marcenarias que encontramos abertas estavam as esposas dos respectivos artesãos. Fomos atendidos com atenção, pegamos os respectivos zaps dos maridos, pedimos os orçamentos, tivemos certeza de que agora vai. No meio da semana, um deles retorna a nossa mensagem e, contrariando a esposa, diz que não trabalha com a madeira que queremos: “É mdf que vocês querem? Só trabalho com mdf!”; “Não, seu Xavier, é compensado naval”; “Compensado não trabalho não”.

E seu Manoel? Respondeu uma semana depois, dizendo que não tinha a madeira, que ia ter que comprar se a gente quisesse. Mas e o preço, e o prazo, e a simples resposta “sim, eu faço”? Tivemos essas informações em parcelas, não sem alguma insistência, com um intervalo entre dois e três dias cada.

Nesse meio-tempo, não sou boba nem nada (mas estava me sentindo uma boba e uma nada, coisa que só um bom marceneiro faz por você), entrei em contato com a empresa que fez a cozinha e os armários. Quem sabe eles pegam isso daí, rapidinho, fazem em uma horinha, com um restolho lá jogado. Levei dois dias para conseguir um orçamento bem político altíssimo e a terrível notícia de que “não conseguimos um bom prazo para esses projetos menores”. Considerando o atraso que tivemos com os projetos maiores, essas prateleiras só chegariam aqui em casa lá pra fevereiro. Chegariam lindas, chegariam impecáveis, mas chegariam em fevereiro.

Tiveram também duas marcenarias que cruzamos por acaso: uma delas, na Amaral Gurgel, que vimos enquanto estrebuchávamos sobre a dificuldade de conseguir um profissional que, ao menos, respondesse as nossas mensagens. Batemos o olho na placa, e só pode ser um sinal! Mas não vimos ninguém. Pescoçamos pra dentro do galpão, chamamos, batemos palmas e… Nada. Era uma marcenaria fantasma. Também concluímos que só podia ser um sinal, o sinal de que chegara a hora de desistir do projeto, tapar os quarenta furos e ter outra ideia. A outra marcenaria, na Alameda Nothmann, estava na mesma situação — vazia, ninguém atrás do balcão —, o que nos fez ter certeza de que, sim, é uma conspiração universal para não termos as nossas prateleiras. É claro que, ao nos enxergarem, os marceneiros estavam se escondendo.

Faltou falar da marcenaria da Rua Barra Funda, que vimos aberta uma vez, passando com pressa, mas nunca mais conseguimos pegar a maldita com o portão de ferro levantado (esses aí eram mais ligeiros, baixavam o portão rapidinho). Ontem, finalmente, consegui! “Oh, minha senhora, aqui é a marcenaria da Playarte, não fazemos projetos, não”. O marceneiro que me disse isso vestia um boné do Mad Max. Achei simbólico.

Sim, sim, já disseram para procurarmos na Rua do Gasômetro. Mas provavelmente, ao chegarmos lá, a “rua das marcenarias” terá mudado o foco e a fama para “rua das floriculturas”. Seria a próxima opção, a nossa última cartada, mas… Surpresa! Enquanto escrevia esta conclusão (e é verdade, uma crônica ao vivo!), seu Manoel teve misericórdia de nós e, depois de três dias de total abandono, acaba de responder.

Mulher de malandro que somos, vamos fechar! Torçam por nós. 

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