A flecha

Quando tive certeza de que você não voltaria, percebi que era a hora de retirar a flecha – anos atrás cravei uma flecha em meu tronco, na altura do umbigo, um pouco acima, do lado direito, e dei a ela o seu nome. Cravei-a exatamente no ponto que mais doía, tremia e formigava sempre que eu pensava que poderíamos nos perder para sempre. Acreditei que a dor da flecha na carne me faria esquecer a dor da sua ausência. E lentamente, e lentamente, os olhos fechados, mordendo os lábios e pressionando num movimento de rotação, escavei o buraco, fibra a fibra.

A flecha ia comigo aonde quer que eu fosse. No começo, brincava com ela: segurava a haste entre o polegar e o indicador e rolava suavemente, sentia cócegas lá na ponta. Às vezes a sentia mais dolorida, sensível, outras, até esquecia que estava aqui. Às vezes a extremidade de fora encostava em algum objeto pelo caminho, ou sem querer enroscava em alguma peça de roupa e eu sentia fisgar leve, mas não me importava; porém, havia dias em que eu precisava sentir algo, reforçar a sua ausência, e então respirava fundo e eu mesma agarrava a haste com força para lembrar, sentir como era.

Assim a flecha, a sua ausência, nunca mais se afastou de mim, e aprendi a viver os diferentes tipos de dor com o seu nome até que o sangue em volta secasse por completo, até que se formasse um calo, um tipo de pele dura, uma casca insensível ao toque. Com o tempo, a cada dia, a cada semana que passava, a flecha incomodava menos – e ao perceber que a esquecia era hora de agarrar a haste mais uma vez, era hora de tremer as mãos e fazer sentir a ponta, a lança, lá no fundo. Como se precisasse sentir a sua ausência, alimentar-me dela, lembrar, lamentá-la. Lamber o sangue novo em volta.

E a cada lembrança era preciso ir mais fundo e girar a haste com mais força, sentir rasgar a carne. Não conseguia mais deixar a flecha ali, quieta, e a repetição do gesto, a sua rotina, tornou-se insuportável – meu corpo por dentro inchava e quando olhei com atenção, quando olhei com atenção, a pele em volta da região perfurada era uma mistura de pretos, roxos, verdes e varizes, um mapa sensível, intocável. Você não voltaria, eu já não podia viver com a sua ausência encravada.

Seria fácil, só puxar de uma vez, like a band-aid. Mas não. Não sei que raízes ela criou aqui, em mim – a flecha não saiu. Puxei com mais força. Não moveu um centímetro, engoli a dor e o grito, o esforço era inútil.

A intensidade e os movimentos grosseiros repetidos me faziam sentir cada centímetro da flecha atravessada, e a ponta, lá no centro do meu tronco, um choque, ponto absolutamente quente, reverberando, e fiquei sem respirar imaginando que sentiria isso, a sua ausência, para sempre. O alvo da flecha, o raio, a superfície de pele em volta em febre. Não havia sangue, era puro calor, nervos agitados, partículas furiosas, o desespero. A urgência de arrancar a flecha tomou conta de tudo, era impossível tê-la em mim por mais um segundo e de todas as maneiras tentei puxá-la para fora, trancos, alavancas, até quebrar furiosa a haste rente à pele. Gelei.

Era aquilo, então, o máximo possível: aquela a sentença. A ponta da flecha ficaria ali e eu teria de viver com ela, ali, exatamente ali. Não seria possível arrancá-la, tampouco penetrá-la ainda mais. Aos poucos a ferida secaria, a pele retomaria a sua cor de pele e ela, a flecha, apenas ficaria ali. A sua ausência, irremediavelmente ali.

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