A formação das ilhas

O arquipélago vol. 2, de Erico Verissimo, sexto livro da sequência O tempo e o vento, continua a narrar a história da família Terra-Cambará. A partir da volta de Rodrigo Cambará a Santa Fé por motivos de saúde, os filhos se reencontram e dividem novamente a mesma casa, como se esperassem apenas o momento da partida do patriarca.

A voz narrativa continua com Floriano Cambará — assim como no vol. 1 dO aquipélago —, que filosofa e investiga a sua família em silêncio, ao mesmo tempo que reflete sobre a sua própria vida e sobre a escrita. Às batalhas da revolução federalista de 1923, em que lutaram Rodrigo, Toríbio e o pai Licurgo, entremeiam-se cenas domésticas de décadas mais tarde.

É curioso lembrar, tantas páginas depois, como a passagem do tempo e a modernidade alteram a maneira como os personagens lidam com a morte, da mesma forma como vivem em família. No primeiro livro, vemos pequenos núcleos de pessoas em meio a uma terra infinita (a família Terra) — como se fossem esses próprios grupos as ilhas — criando uma unidade pontual, sólida. O tempo passou e é quase o oposto que se vê no arquipélago: grupos maiores, uma cidade ocupada, uma casa delimitada e seus membros, que, apesar de estarem sob o mesmo teto, vivem vidas particulares e separadas.

A morte também surge na história de maneira totalmente diversa: a dor que antes era contida e vivida de maneira resignada, passa a ser encarada com desespero e terror, mesmo no campo de batalha, onde se vai, em teoria, justamente para morrer. Essa oposição se caracteriza igualmente na maneira como o narrador anuncia as mortes. Não vemos de perto a agonia de Pedro Missioneiro, nem a dos irmãos e pai de Ana Terra, e tampouco a de Aurora Cambará, durante o cerco do Sobrado. Por outro lado, nos volumes dO arquipélago, vemos em detalhes as mortes e seus efeitos sobre os personagens, estabelecendo com ainda mais força o alheamento entre eles.

Ao mesmo tempo em que vemos a reação diante da morte se transformar com o tempo, vemos situações se repetindo de geração para geração. Neste volume é clara, através da alternância entre Rodrigo e Floriano, a comparação entre os dois — também em relação à sua semelhança física —, ao mesmo tempo que lemos a investigação de Rodrigo a respeito do pai, em que este pensa nas características daquele e revela suas conclusões. Avô, pai e filho, então, têm as suas histórias dissecadas, e vemos que o vento traz as mesmas ocasiões — os dramas se repetem. O que muda é o tempo.

Em reflexões sem fim a respeito da verdade, da escrita, de sua vida e sua infância, assim como de seus irmãos e família, Floriano confessa que o retorno ao sobrado é uma oportunidade de renascer, de descobrir quem é, para que possa encontrar sua expressão e vida genuínas. Seus diálogos com o sábio Roque Bandeira são momentos de síntese, emocionantes. Irônico que eles se deem enquanto o pai está no leito de morte. Irônico que a vida de seu pai, Rodrigo, também tomou outro rumo depois da morte de Licurgo, seu avô. A história de Floriano é semelhante à de Rodrigo. A de Rodrigo, é semelhante à de Licurgo. É como se a vida fosse a eterna repetição de acontecimentos, dos mesmos acontecimentos em ilhas diferentes, com suas características particulares e únicas condições.

*

— Antes de mais nada — torna a falar Bandeira — não podes, não deves julgar teu pai à luz de suas fornicações extramatrimoniais. O doutor Rodrigo, homem mais do espaço do que do tempo, agarrou a vida a unha com coragem e, certo ou errado (quem poderá dizer?), fez alguma coisa com ela. E aqui estás tu a simplificar o problema, a olhar apenas um de seus múltiplos aspectos. Pensa bem no que vou te dizer. É um erro subordinar a existência à função. O doutor Rodrigo não é apenas O Fornicador. Ou o Amigo do Ditador. Ou o Jogador de Roleta do Cassino da Urca. Ou o Mau Marido. É tudo isso e mais um milhão de outras coisas. O que foi ontem não é mais hoje. O que era há dois minutos não é mais agora e não será no minuto seguinte.

— Eu sei, eu sei…

— Cala a boca. Escuta. O que importa agora é isto: teu pai está condenado. Teu pai vai morrer. É questão de dias, semanas, talvez meses, quando muito. Eu sei, tu sabes e ele também sabe.

Roque estaca, volta-se para o amigo, segura-o fortemente pelos ombros e diz:

— Lá está o teu Velho sozinho no quarto, decerto pensando na Torta. Morrer é uma ideia medonha para qualquer um, especialmente para quam como ele ama tanto a vida. Agora eu te pergunto: que gesto fizeste ou vais fazer que esteja à altura deste grande, grave momento?

— Já te disse que estou pensando em ter uma conversa amiga mas também muito franca com ele?

— Eu sei. Tu disseste. Tu repetes. Mas já foste? Já foste?

— Não, mas…

— Olha que não tens muito tempo. Amanhã pode ser tarde demais. Se queres mesmo acabar de nascer, tens de ajustar as contas com teu pai no sentido mais cordial e mais legítimo da expressão, através da aceitação plena do que ele é. Não se trata de pedir-lhe perdão ou levar-lhe o teu perdão. O que tu tens de fazer, homem, é um gesto de amor, um gesto de amor!

O arquipélago vol. 2 – p. 111

O tempo e o vento – parte III

 

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