A hora do texto

Senti o texto chegando. Há uma semana, mais ou menos, não tenho outro pensamento: conversando com alguém, ou nadando, correndo ou em reuniões de trabalho, ou assistindo a qualquer coisa. O texto, o texto, o texto que precisa ser escrito. Escrevi mentalmente e com a voz diversas passagens do texto e tinha o texto anotado por todos os cantos da casa, frases do texto dispersas, espalhadas por todos os cadernos.

Marquei horário para o texto: hoje à noite. Depois de encerrar o trabalho, desligaria qualquer distração, seríamos eu e o texto que precisava ser escrito. Ontem, durante a tarde, contive o impulso de começar: esse momento já estava decidido e era preciso silêncio, um silêncio distante da minha tarde atribulada. Era preciso esperar o máximo possível. Senti esse freio fisicamente, assim como sentia já há uma semana esse texto, fisicamente, e toda a latência das palavras que estavam para nascer me carregaram por um estado de atenção, uma atenção física. Uma atenção predadora.

Ontem, deitei para dormir no horário habitual. Dormi bem, como sempre durmo bem: o vidro da varanda aberto em uma fresta, porta do quarto fechada, meu corpo quase imóvel sob cinco camadas de cobertas. Acordei assustada no meio da noite. Ventava demais e algo voou pela sala, algo caiu da parede, um barulho bem alto — “preciso ver o que caiu”, levantei, arrumei (nada grave), voltei a deitar.

Eram quatro e quinze da manhã e não era possível dormir. “Levante-se, comece já”, disse o texto que precisava ser escrito, “não há silêncio melhor”, e eu sabia que não. Eu sabia que era a melhor chance e que era o momento. Mas o momento marcado era esta noite, era mais tarde, e ainda eram quatro da manhã, dava para dormir. Não dava para dormir, fato, e levantei depois de uma breve negociação. O texto que queria ser escrito me acordou, ele precisava da minha atenção, da minha atenção àquela hora, e não depois, não da minha atenção hoje à noite.

Escovei os dentes (não se pode começar um texto grandioso com bafo matinal), preparei uma garrafa de café e sentei em frente ao computador. Ainda ventava, mas menos que antes, e o texto saiu. Com leveza, sem muito esforço, a união das palavras escritas em cada canto da casa com as ainda não escritas em cada canto da memória e as que repeti em voz alta dia após dia enquanto cozinhava, limpava a casa, ia ao mercado ou tomava banho. O texto existia, eu o escrevi.

O texto que precisava ser escrito, que seria escrito esta noite, já foi escrito. É ainda um começo, mas falta pouco: releituras, reedições e correções. O texto existe de novo, agora é uma unidade. Sei que terei um dia miserável de bocejos, mas o fato de o texto “estar existindo” faz de mim a mais feliz das criaturas. Vai ficar bonito, mas um pouco extenso, e quem tiver saco vai poder lê-lo daqui a alguns dias.

Leave a Comment

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *