A tradução prematura

Há algum tempo comecei a traduzir um conto do Edgar Alan Poe para as minhas aulas de inglês. Inicialmente seriam só alguns parágrafos, mas me empolguei – estava adorando o resultado e quis me aventurar a traduzi-lo inteiro. Tento recorrer a outras traduções o mínimo possível, e pretendo fazer uma leitura comparada entre traduções depois, quando tiver finalizado (o que provavelmente vai demorar, sou lenta e dispersa).

Nas últimas aulas, lendo a tradução em voz alta, fiquei muito contente com o resultado e quis compartilhar alguns desses trechos com os leitores daqui.

Nunca tinha lido muito atentamente o Poe – até começar o curso com o Rodrigo Gurgel e estudar “Os fatos do caso do Sr. Valdemar” (edição da Tordesilhas) – e fiquei surpresa ao pesquisar um pouco a vida dele e saber de seu medo e inquietações sobre a morte e como ele passa isso para seus textos, misturando dados médicos, termos técnicos, frios, meticulosos, com as sensações desmedidas, o desespero incontrolável – num paradoxo: se, quanto mais sabemos das coisas, mais as conhecemos (e, em teoria, menos elas deveriam nos assustar), por que o desespero de seus narradores é tão incontrolável, diante de fatos e casos e periódicos médicos?

Neste conto, cujo tema se conclui a partir do título, o narrador vai apresentando casos de enterros prematuros, histórias em que os enterrados conseguiram viver e histórias em que não conseguiram, até chegar à própria história, quando acontece uma mudança muito clara de tom.

Não vou fazer a análise do conto aqui, vim apenas apresentar uns trechos que achei muito bonitos, na minha própria tradução.

Espero que gostem, boa leitura!

 

“Suspeita realmente assustadora – e mais assustador o destino! Pode-se declarar, sem hesitações, que nenhum acontecimento seja tão terrivelmente preciso em inspirar a suprema angústia do corpo e da mente quanto o enterro antes da morte. A insuportável opressão dos pulmões – o vapor sufocante da terra úmida – a mortalha grudando no corpo – as paredes rígidas da estreita casa – a escuridão da noite absoluta – o silêncio como um oceano que esmaga – a invisível mas palpável presença do verme vitorioso – tudo isso, com pensamentos no ar e na grama acima, com a lembrança de amigos queridos que correriam em nosso socorro se soubessem de nossa situação, e com a consciência de que eles nunca serão informados sobre esse destino – que nossa porção menos esperançosa é a da morte real – essas considerações, digo, conduzem ao coração que ainda palpita um grau de espanto e intolerável terror diante do qual a mais ousada imaginação deve se recolher. Não sabemos de nada que possa ser tão aflitivo sobre a Terra – não podemos sonhar com nada tão horrendo nos domínios do mais profundo inferno.”

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“Assim como o dia morre para os indigentes solitários e sem lar, que vagam pelas ruas nas longas e desoladas noites de inverno – assim tão lenta – assim tão pesada – assim tão alegre a luz da Alma voltava a mim.”

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“Por tudo o que suportava não havia sofrimento físico, mas uma aflição moral infinita. Meus pensamentos se tornaram sombrios, falava sobre “vermes, tumbas e epitáfios”. Estava perdido em devaneios de morte, e a ideia de um enterro prematuro tomou posse de meu cérebro. O terrível perigo a que eu estava sujeito me assombrava dia e noite. No passado, a tortura da meditação era excessiva – recentemente, era absoluta. Quando a Escuridão assombrosa se espalhava sobre a Terra, então, com todo o horror do pensamento, eu tremia – tremia como as plumas agitadas sobre o carro funerário. Quando a Natureza não podia mais suportar a vigília, seria com esforço que me permitiria adormecer – pois me dava calafrios pensar que, ao acordar, pudesse me encontrar senhor de um túmulo. E quando, finalmente, conseguia dormir, era apenas para entrar em um mundo fantasmagórico sobre o qual, com amplas e dominantes asas negras, pairava, implacável, a ideia sepulcral.”

*

“Olhei; e a figura invisível, que ainda me segurava pelo pulso, havia aberto os túmulos de toda a humanidade, e de cada espaço emergiu a abafada radiância fosfórica da podridão, então pude ver os mais profundos abismos; e ali estavam os corpos envolvidos em seu descanso triste e solene com o verme. Mas ai de mim! Os verdadeiros mortos eram poucos, entre milhões, em relação àqueles que não pereceram; e havia um débil debater-se; e havia uma tristeza geral e sem descanso; e de fora das profundezas das incontáveis sepulturas vinha o sussurro das vestimentas dos sepultados. E entre aqueles que pareciam tranquilos em seu repouso, percebi que um grande número havia mudado, em maior ou menor grau, a rígida e incômoda posição em que foram originalmente enterrados.”

 

 

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