Adoráveis desertoras

Mais uma amiga indo morar fora do país. Como ousam, meninas?! Como ousam partir e me largar aqui sozinha?

A primeira foi faz tempo, antes da epidemia. Foi estudar e começar uma nova carreira. Deu tudo certo, ela está feliz e hoje em dia conversamos mais do que quando ela vivia por aqui e quase nunca tínhamos tempo. Conseguimos nos contentar com longos áudios no Whatsapp, daqueles cheios de pausas, tagarelice e mudanças repentinas de assunto, em que nos atualizamos e nos ajudamos a ordenar o raciocínio. Algumas vezes as respostas tardam semanas, mas nunca nos deixamos desamparadas. Mesmo que esses monólogos intercruzados sejam constantes e sempre ótimos, dá uma fisgada no peito lembrar que não é tão fácil passar na casa dela para um café e que os filhos que ainda não temos não serão amiguinhos, como fomos quando pequenas.

A outra foi no fim do ano passado. Diz que talvez volte um dia, mas duvido. Eu jamais voltaria para o Brasil. Foi um caso curioso de resgate pós-deserção: já não nos falávamos enquanto ela ainda estava por aqui (ah, as últimas eleições!), mas agora, de longe, resgatamos nossa amizade com longos e-mails, áudios e Skypes (porque certos assuntos merecem, pedem, imploram Skypes). Foi como se, estando distantes, percebemos o quanto queríamos ser próximas novamente. Ela foi a primeira a ver meu cabelo novo. Fui a primeira a ver o cabelo novo dela. Trocamos fotos na saída dos nossos cabeleireiros.

Outra amiga também partiu de mala e cuia no fim do ano passado. Foi uma tremenda injustiça do destino: ela se mandou assim que, enfim, nos aproximamos. Eu queria ser amiga dela havia um tempão e nos víamos todos os dias, no trabalho. Um belo dia ela me contou que em breve mudaria de país. “Mas… e eu? E nós?”, foi a pergunta que me veio imediatamente à cabeça — que não verbalizei, há limites para a psicopatia. Sinto que nossa amizade é daquelas recentes que parecem duradouras. Fico sempre feliz ao ver algum sinal que confirma que a vida dela anda boa, e mais feliz ainda quando ela lembra de mim e escreve e-mails de atualização e me manda no instagram prints e mensagens sobre os nossos ídolos.

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Este texto nasceu porque hoje é um domingo chuvoso e fui atrás de uma amiga. Outra desertora. Planejava uma tarde de fofocas e bolo quando ela respondeu: “Juja, não consigo sair hoje. Preciso começar a arrumar a mudança, organizar as coisas que vou levar e calcular quantas malas vou precisar”. “Sem problemas”, é claro. E me dei conta da coincidência ao contrário: eu tinha passado a semana anterior guardando roupas e arrumando os armários novos aqui em casa, planejando a minha permanência. Às vezes tenho a impressão de que todo mundo vai morar fora do Brasil e só eu vou sobrar aqui. Ela vai no começo do ano que vem, e tenho certeza de que será muito feliz. Porém (atenção aqui, minha cara!), se arrumar outra parceira de karaokê, me atiro da varanda.

Acabo de lembrar de outra (pois é, não falei em epidemia?) que está de malas prontas e jura que vai passar três meses… Se ela me escrever para contar que “vai acabar ficando”, pego o primeiro avião para arrastá-la de volta pelos cabelos. Ela que não pague para ver!

Isso precisa acabar! Sei que o mundo lá fora está mais agradável que o nosso plácido pântano, mas o que custa ficarem por aqui para nos irritarmos, juntas, sem fuso? O-que-é-que-custa? Parem com essa ideia de mudar de país! Qual é a graça? Amiga que é amiga fica no Brasil! Fiquem aqui comigo, nessa zoninha espinhosa de conforto! Da minha parte, prometo nunca mais desmarcar nossos encontros em cima da hora por preguiça e nunca mais comemorar quando vocês fazem o mesmo. A minha indignação com as desertoras dura menos que um trem na estação. É claro que desejo o melhor para elas, e é claro que torço para que dê tudo certo e que fiquem bem onde escolherem. Só peço que não se esqueçam de mim, mas ao mesmo tempo sei que isso é impossível, pois volta-e-meia pululam áudios com a minha cara em seus zaps. Peço também que mantenham em suas novas casas um quartinho de hóspedes, ou um sofá-cama, ou saco de dormir… é bom saber que terei abrigo na América e no Velho Continente quando precisar fugir dos credores.

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