Amor e luzes

O conto “Crooner”, do livro Nocturnes – Five stories of music and nightfall, de Kazuo Ishiguro, passaria facilmente por um roteiro de Woody Allen – o papel de Tony Gardner (desculpem, leitores, pelo spoiler imagético) seria interpretado por Alec Baldwin. Pensei nisso ontem ao assistir Wonder Wheel, último longa do cineasta, e ficar dominada pela visão melancólica e pessimista do amor e do romance que ele apresenta. Em comum, o conto de Ishiguro e o filme têm a canção “I fall in love too easily”, eternizada pelas vozes de Frank Sinatra e Chet Baker.

Em Wonder Wheel, Mickey, personagem de Justin Timberlake, cita a canção estrategicamente durante uma conversa com Ginny para justificar seu temperamento romântico. Constatamos o sucesso da investida do personagem na consumação de seu caso com Ginny, e logo percebemos também que ele tinha razão ao citar a canção – é mesmo um romântico incurável – quando se encontra com Carolina.

Ginny ouvindo Mickey dizer que falls in love too fast.

No conto do “japoinglês” Ishiguro, Janeck, jovem músico polonês, conhece Tony Gardner, velho crooner americano, enquanto toca na piazza, em Veneza, para entreter os turistas. Tony está na cidade a passeio com Lindy, a esposa há vinte e sete anos, e deseja surpreendê-la com uma serenata no melhor estilo local. Janeck é convocado por Tony para ajudar, e teria de tocar em seu violão o repertório combinado enquanto o primeiro cantaria para a amada, com sua voz de estrela em queda.

Durante os preparativos para a serenata Tony assume o papel de narrador e através de um diálogo entre ele e Janeck, com o gondoleiro Vittorio de testemunha, conhecemos a história do casal, seu casamento e o real propósito da viagem, assim como a história das músicas escolhidas para a surpresa. Inevitavelmente, juntamo-nos aos dois como passageiros da gôndola, a noite caindo, e navegamos silenciosamente através do mesmo tom resignado e melancólico.

É interessante notar o anoitecer do título do livro e sua relação com o “anoitecer” do conto, da carreira de Tony Gardner e de seu casamento. O conto se passa durante um dia todo, o que nos faz imaginar a variação de luz e relacioná-la com o próprio ciclo das coisas e da vida: o texto começa exatamente com as palavras “The morning…” e termina à noite. Como estou influenciada pela roda-gigante de Woody Allen, não consigo evitar lembrar também de seus jogos de luz, as luzes quentes e frias, o sol, a cor.

A letra da canção retoma a mesma ideia de repetição de um comportamento, das situações, de sermos reféns e insistirmos diante do amor e do tempo. Tudo vai e volta no filme, no conto e na canção. Em “Crooner”, Janneck reencontra em Tony a sua infância; Tony revive a sua história de amor e sua carreira, preparando para um fim planejado e, ironicamente, promissor. Em Wonder Wheel, os personagens vivem a eterna repetição do carrossel de Humpty, transitando entre o êxtase e a queda, o sonho e a realidade, mimetizados na roda-gigante. Para nos consolar, então, fica a canção.

I Fall in Love too Easily

I fall in love too easily
I fall in love too fast
I fall in love too terribly hard
For love to ever last

My heart should be well-schooled
‘Cause I’ve been fooled in the past
But still I fall in love so easily
I fall in love too fast

My heart should be well-schooled
‘Cause I’ve been fooled in the past
But still I fall in love too easily
I fall in love too fast  

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