As quedas de Marianne – breve observação sobre Razão e sensibilidade

Na leitura de um romance longo é mais difícil fazer uma análise do texto total do que na leitura de contos, já que seus elementos notáveis estão dispostos de maneira dispersa, disfarçados no meio de tantos capítulos e parágrafos. Tem aquela afirmação de que o romance ganha o leitor por pontos, que diz Cortázar, enquanto os contos ganham por nocaute. Recentemente passei por um romanção, Razão e sensibilidade, de Jane Austen, e notei algo bem interessante fazendo o que costumo fazer quando leio romances: destacar as primeiras vezes, anotá-las, marcá-las e guardá-las na memória para mais tarde.

A primeira vez que um personagem é nomeado. Foi ele quem disse o próprio nome? Algum personagem de seu convívio? O narrador? A primeira vez que o personagem chega a algum lugar. Qual foi a primeira frase que disse ao chegar? O que disse quando foi embora? E no romance em geral? A primeira cena, onde se passa? O primeiro parágrafo. O primeiro encontro de um personagem com outro. (É interessante observar isso nas pessoas também: qual foi a primeira coisa que aquela pessoa lhe disse? Como ela se despediu de você na primeira vez que se encontraram, etc., etc.)

Em Razão e sensibilidade, o primeiro encontro de Marianne e Willoughby acontece graças a uma queda: acompanhada pela irmã Margaret, a jovem corre pelas montanhas que rodeiam a nova residência, cai, e é socorrida pelo rapaz, que passava por ali. Marianne não consegue ficar em pé, e ele a toma nos braços e a leva para casa em segurança:

Subiram alegremente as encostas, exultantes com a própria perspicácia a cada lampejo de céu azul; quando sentiram na pele as revigorantes rajadas de um forte vento sudoeste, lamentaram os receios que impediram a mãe e Elinor de compartilhar aquelas sensações deliciosas.

“Será que existe no mundo”, disse Marianne, “felicidade maior que esta? – Margaret, vamos caminhar pelo menos duas horas por aqui.”

Margaret concordou, e elas seguiram seu caminho contra o vento, resistindo à corrente de ar com um prazer risonho, por mais uns vinte minutos, quando de repente as nuvens se juntaram sobre suas cabeças e uma chuva forte molhou em cheio seus rostos. Decepcionadas e surpresas, foram obrigadas, ainda que a contragosto, a voltar, pois o abrigo mais próximo era sua própria casa. Restou-lhes ao menos um consolo, ao qual a exigência do momento conferiu ainda mais propriedade; correr na maior velocidade possível colina abaixo até o portão da horta. Elas correram. Marianne começou na frente, mas um passo em falso levou-a subitamente ao chão, e Margaret, não conseguindo parar para ajudá-la, continuou correndo e chegou ao seu destino em segurança.

Um cavalheiro com uma espingarda e dois cães de caça passava pela colina a poucos metros de Marianne quando o acidente aconteceu. Ele baixou a arma e correu para ampará-la. Ela já havia se levantado do chão, mas torcera o tornozelo na queda e mal conseguia se manter em pé. O cavalheiro ofereceu seus préstimos e, notando que a modéstia da moça recusaria o que sua situação tornava necessário, ergueu-a nos braços sem mais delongas e desceu a colina com ela no colo. Passando então pelo portão da horta, que Margaret deixara aberto, ele a carregou diretamente para a casa, onde a irmã mais nova havia acabado de chegar, e só soltou Marianne para sentá-la em uma poltrona da saleta.

A primeira queda de Marianne trouxe a ela o seu grande conflito amoroso, que é desenvolvido ao longo do romance e que acompanhamos com aflição. Willoughby chegou até a garota por causa de um passo em falso e representou ele mesmo, não por acaso, o grande passo em falso da vida de Marianne. No entanto, nessa cena inicial Willoughby a amparou, caminhou com ela e “só soltou Marianne para sentá-la em uma poltrona da saleta”.

Foi também sentada numa poltrona que Marianne foi parar na cena em que ela e Willoughby são colocados frente a frente pela última vez. Porém, diferentemente da cena do primeiro encontro, o último encontro dos dois confirma o prenúncio da queda anterior: depois de semanas sem notícias de seu amado, que a deixara com juras e promessas de amor, Marianne e Elinor, sua outra irmã, o veem durante um baile:

Não fazia muito que estavam ali sentadas quando Elinor viu Willoughby, de pé a alguns metros delas, entretido em uma conversa com uma moça de aparência muito elegante. Logo cruzaram olhares, e ele imediatamente fez uma mesura, mas sem esboçar tentativa de falar com ela ou de se aproximar de Marianne, embora fosse impossível que não a tivesse visto; e então retomou a conversa com a mesma dama. Elinor virou-se involuntariamente para Marianne, para ver se ele havia passado despercebido. Nesse momento, ela o viu pela primeira vez, e toda a sua expressão iluminou-se de súbito deleite; ela teria ido até ele naquele mesmo instante, caso a irmã não a tivesse detido.

“Santo Deus!”, Marianne exclamou, “ele está ali – ele está ali. – Oh! Por que ele não olha para mim? Por que não posso falar com ele?”

“Eu lhe imploro, por favor, comporte-se”, exclamou Elinor, “e não traia seus sentimentos diante de todos aqui presentes. Talvez ele não a tenha visto ainda.”

Isso, no entanto, era mais do que ela mesma poderia acreditar, e comportar-se naquele momento não estava além do alcance de Marianne: estava além de seus desejos. Ela sentou-se agoniada de impaciência, o que lhe afetou toda a aparência.

Por fim, ele se virou novamente e olhou para as duas; ela se levantou, pronunciou o nome dele em tom afetuoso, estendeu-lhe a mão. Ele se aproximou, e, dirigindo-se antes a Elinor que a Marianne, como se tentasse evitar seu olhar, e decidido a não notar a sua atitude, perguntou apressadamente pela sra. Dashwood e quanto tempo havia que elas estavam na cidade. Elinor se viu privada de toda presença de espírito com aquela abordagem, e foi incapaz de dizer palavra. Mas os sentimentos da irmã foram expressos no mesmo instante. Seu rosto enrubesceu intensamente, e ela exclamou com a voz muito emocionada: “Santo Deus, Willougbhy! O que significa isto? Você não recebeu as minhas cartas? Não vai me dar a mão?”.

Ele, então, não pôde mais evitá-la, mas o toque pareceu doloroso para ele, que reteve sua mão apenas por um momento. Durante todo esse tempo, Willoughby evidentemente se esforçava para manter o controle. Elinor observou sua expressão e viu seu rosto ficar mais tranquilo. Após uma breve pausa, ele falou serenamente.

“Tive a honra de visitá-las em Berkeley-street terça-feira passada e lamentei muito não ter a sorte de encontrá-las, nem a senhora Jennings, em casa. Espero que meu cartão não tenha se perdido.”

“Mas você não recebeu meus recados?”, exclamou Marianne na mais incontrolável ansiedade. “Tenho certeza de que houve algum mal-entendido – algum terrível engano. O que significa tudo isto? Diga-me, Willoughby; por tudo o que é mais sagrado, diga-me, qual é o problema?”

Ele nada respondeu; sua expressão se alterou e todo o constrangimento reapareceu; mas como se, ao cruzar o olhar da jovem dama com quem estivera conversando anteriormente, ele sentisse necessidade de reagir, recompôs-se de imediato, e depois de dizer: “Sim, tive o prazer de receber informações de sua chegada à cidade, e foi muita bondade sua enviá-las”, virou-se rapidamente com uma breve mesura e juntou-se à amiga.

Marianne, então assustadoramente pálida e incapaz de manter-se de pé, afundou na poltrona, e Elinor, esperando vê-la desmaiar a qualquer momento, tentou protegê-la dos olhos alheios, enquanto a reanimava com água de lavanda.

Se no primeiro encontro dos dois já temos o prenúncio da queda de Marianne, no último encontro, que está no trecho acima, há a sua confirmação. Marianne afundou na poltrona, “incapaz de manter-se em pé” (como na cena do primeiro encontro, em que “mal conseguia de manter em pé”). Não foi ali colocada carinhosamente por Willoughby, mas abandonada à queda livre. Na cena do primeiro encontro dos dois, Willoughby é como que forçado a ajudar Marianne, na de sua despedida, no entanto, é ela quem pede a sua ajuda, que recorre a ele impacientemente. Ele, contrariando seu retrato da primeira cena, deixa-a desamparada, “assustadoramente pálida”. A hesitação inicial de Marianne, no fim, transforma-se em ação, e o oposto acontece com Willoughby, que inicialmente age em seu socorro e, no fim, hesita.

Pronta para socorrê-la estava apenas a irmã, Elinor, a razão do romance, em contraposição à sensibilidade, representada por Marianne. Ao longo de todo o enredo vemos manifestações dessas oposições nelas e nos personagens coadjuvantes, mas também somos o tempo todo lembrados que razão e sensibilidade são irmãs: completam-se, ajudam-se, enriquecem-se mutuamente.

É interessante observar a simetria das cenas: Marianne corria na relva fugindo da chuva antes de pisar em falso e cair, quando encontrou Willoughby. Ao vê-lo pela última vez, na festa, e chorar o seu triste destino por dias, saiu durante uma tarde e passou horas caminhando na chuva, sozinha, o que a fez adoecer e ficar à beira da morte. Essa segunda queda de Marianne foi o que a fez olhar para si mesma de maneira racional, e a chuva de que ela fugira no início foi mais tarde a sua possibilidade de amadurecimento.

O diálogo entre as duas cenas não parece coincidência: são muitos elementos comuns e movimentos semelhantes. Porém, no fim, os resultados são opostos, já que num primeiro momento age a sensibilidade e, no segundo, a razão entra em cena. É como se a segunda fosse a evolução da primeira, que, por sua vez, é também imprescindível, pois representa a nossa primeira impressão e interação com o mundo.

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