As sensações físicas de Twin Peaks

Queria muito escrever um texto refletindo sobre como Twin Peaks marcou a história do cinema e da televisão. Ou relacionando os personagens a arquétipos de acordo com a sua atuação e caracterização ao longo da trama. Adoraria, também, saber de curiosidades dos bastidores, e atentar os leitores para detalhes de cena que passariam batido.

Mas não sou capaz, porque, além de não ser peakmaniac – sabendo datas e fatos e nomes dos atores e de todos os personagens de cor –, Twin Peaks me impressiona mais por cenas isoladas do que pela construção geral da trama.

Lembro de quando assisti à série pela primeira vez. Já gostava dos filmes do Lynch, e um amigo me emprestou os dvds da primeira e segunda temporadas. Assistia praticamente um episódio por dia, e fui sugada pela atmosfera: lembro bem da sensação (essa é a palavra) de andar na rua e encontrar em cada um que passava por mim algo estranho e peculiar, de tirar frases de contexto e acreditar que poderiam ser códigos cifrados, de ficar com medo de olhar no espelho, no meio da noite, ao levantar a contragosto para fazer xixi.

Nesta terceira temporada anda acontecendo o mesmo. Ainda que não seja possível assistir a um episódio por dia, tenho evitado assistir outras coisas para ficar só aguardando o próximo Twin. Já tenho meus personagens amados e os que me dão nos nervos, um milhão de hipóteses do que vai acontecer e tenho certeza que ontem vi a agente Tammy Preston na rua. Logo quando assisti ao oitavo episódio caí numa depressão leve, da qual estou saindo graças à esperança cega na recuperação de Dougie Jones e à doçura persistente de Hawk.

Este é um texto sobre as sensações físicas que Twin Peaks desperta. É impressionante como Lynch tem explorado isso nesta temporada em alguns detalhes nas cenas, ou como ele constrói cenas inteiras só para alimentar a nossa agonia, em alguns casos, ou nos confortar, em outros. Não dá para esquecer, por exemplo, o momento em que Dougie Jones, vomita no carpete da casa em que está com a amante. Parece que podemos sentir até a temperatura daquela gosma. E quando o evil Cooper passa mal ao volante, o que sai da boca dele é mal-estar instantâneo nos espectadores. O que dizer do inseto-sapo do episódio 8? Fica entalado na nossa garganta também.

Logo no começo, na cena em que o garoto está com a garota que leva café naquela sala com o cubo de vidro (que apelidei de franquia do Black Lodge): os efeitos de som e a imagem aproximada até fazem com que nos afastemos da tela, temendo ser atingidos. Assim também na cena da “morte” do evil Cooper, no oitavo episódio, em que os seres das trevas fazem um banquete de seu corpo, no escuro – cena de gelar o sangue.

O episódio em que a história apresenta o perfil de Dougie (podemos sentir o gosto e a quentura dos cafés que ele toma com tanto vigor) é um teste de paciência que chega a fazer virar os olhos de saco cheio e quase gritar com a tela – reaja! Reaja! –, que nem as nossas avós nas novelas. Outras cenas também vieram especialmente para testar a nossa ansiedade, como a cena da escolha da poltrona entre Lucy e Andy (ai, dane-se a cor, escolham logo!); a cena de Gordon com a francesa do episódio 12 (o último que vi), em que sentimos no estômago a urgência de Albert; a cena em que os irmãos Mitchum pedem a Candy que busque alguém no salão, e acompanham-na pela câmera; e a cena da mesa no RR entre Shelly, Bobby e Becky, quando Shelly larga Bobby e a filha na mesa para ir beijar seu amante. Sentimos fisicamente o coração apertado de Bobby – dei uma chorada por ele, assim como comecei a chorar sem perceber na cena em que Dougie come a torta de cereja com os irmãos e encontra a senhora a quem “ajudou” no cassino – Mr. Jackpot! Ah! Voltando para as cenas de agonia acabo de lembrar a da reaparição de Audrey… Sentimos o desespero dela na demora em ter as notícias que deseja, com o marido ao telefone.

Teve aquela cena no Roadhouse, em que duas mulheres conversam sobre o emprego de uma delas – uma viciada doida – que tem uma coceira embaixo do braço, e a coça com tanta força e constância que tenho certeza que mais alguém, além de mim, deu uma coçadinha em algum lugar do braço. Lembrando dessa cena da viciada me veio à cabeça uma oposta, puro deleite: a cena de Becky com seu namorado no carro, quando a garota joga o pescoço para trás no conversível e aproveita a viagem da droga. Episódios mais tarde, Becky tem uma briga com a mãe, Shelly, e a arremessa do capô do carro. É possível sentir fisicamente o merthiolate ardendo nos arranhões do joelho e do cotovelo de Shelly enquanto ela está na van de Carl Rodd (e, ai, a cena da morte do menino atropelado, quando o mesmo Carl conforta a mãe – Carl é o anjo da série – e os corações dos telespectadores).

Quando comecei a escrever este texto não achei que lembraria de tantas cenas, e é claro que há muitas mais – quem lembrar, por favor, complemente aqui. Ainda há vários episódios pela frente e nossa ansiedade vai sendo alimentada dia a dia, semana a semana.

Aguardo a cada segunda novas cenas para a minha coleção, e novos detalhes por aparecer – como o som dos dedos impacientes de Diane digitando no iPhone (assisto à série com fones de ouvido, para não perder nada, e recomendo) –, torcendo para que o mistério seja revelado logo, para acabar com a curiosidade, mas não tão logo, porque transitar por Twin Peaks é um programa insolitamente belo.

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