Sissy

Conheci Sissy, de Emma Donoghue, em um curso de leitura no meio do ano e não consegui tirar a história da minha cabeça.

Resolvi, então, traduzir o conto (leia a tradução aqui!) e fazer uma breve análise para apresentá-lo aos leitores.

Boa leitura!

*

O encontro dos rios – análise de Sissy, de Emma Donoghue

Na comovente narrativa da autora irlandesa o leitor é apresentado à passagem do tempo e à formação da cidade de uma maneira subjetiva e introspectiva iniciada por uma tragédia familiar. Ou então, a partir de outro ponto de vista, acompanhamos a história de uma vida em luto, de uma culpa que vaga pela cidade em expansão e não vive, apenas reage às transformações do tempo, até que obtenha a permissão para partir.

A narradora-personagem inicia a história apresentando sua irmãzinha, Sissy, então com dois anos de idade, e logo no início já descreve o triste fim da menininha: por distração sua, de irmã mais velha, ela corre em direção ao rio, “cheio e espesso, depois de derreter”. A família era formada pelo pai, a mãe e as duas meninas, e devido à falta de recursos a bebê falecida é enterrada perto da cabana onde moravam, na região do encontro dos rios. Esse fato marcou para sempre o destino da família e da narradora, que, por resignação, passaria a vida presa à região.

Não temos o nome desta personagem que nos conta a história, a irmã mais velha, e isso acontece pois sua identidade está absolutamente relacionada a Sissy e ao seu passado – é a história da morte da irmã que ela conta e reconta até expirar. Vemos a sua vida ser conduzida de maneira anestesiada, quase automática, marcada por elementos que denotam a passagem do tempo e da civilização, aos quais ela assiste e praticamente não reage. É como se a morte da irmãzinha a tivesse transformado desde a infância em um fantasma.

A passagem do tempo não é percebida na linguagem da narradora-personagem – a despeito de suas incontáveis décadas de vida – mas apenas na descrição das mudanças dos ambientes à sua volta. As orações, curtas e pontuais do início, quando ela é ainda menina, se mantêm ao longo do conto, demonstrando sua dificuldade de expressão e sua própria limitação de compreender e contar.  Também se nota como o fio condutor narrativo se alterna e varia – como a linearidade não é estritamente seguida e como são feitas digressões e mudanças bruscas de tópicos, típicas de crianças quando nos contam histórias. Falta encadeamento e fluidez nas orações truncadas, curtas e interrompidas, como pedras de gelo, troncos, galhos na correnteza. Falta a conclusão adiada de cada reflexão, como se a tragédia também a tivesse arrancado a voz.

Na região rural e ainda pouco povoada do início do conto – a cidade de London, Ontario, Canadá – são as estações do tempo e o voo e o som dos gansos que indicam o passar dos anos, os meses e as estações. Mais adiante, a narradora-personagem revela o incômodo que passou a ser viver cercada de objetos que zumbem, apitam e gritam o tempo todo sob as luzes “com cores muito mais cruéis que os antigos lampiões a gás”, e como os cedros deram lugar aos edifícios tradicionais, e estes, aos prédios cinzentos. É muito interessante e poética a observação do tempo através dos elementos externos e das mudanças da paisagem, o que nos faz pensar que, de certa forma, para a narradora-personagem, em seu íntimo, o tempo estava estancado, era apenas fora dela que ele corria; ela apenas observava. A transformação do céu também é curiosa na revelação da passagem do tempo: inicialmente os gansos; depois balões e fogos de artifício. Tudo em constante transformação, pessoas em trânsito, e ela sempre ali.

Nenhum evento que acontece na vida da narradora a impacta como o evento do início – do conto e de sua vida –, e assim ela vai à escola, trabalha, enterra pai e mãe, vê os trens e automóveis, casa-se e enterra o marido, observa o movimento dos soldados na época da guerra. Em cada novo evento, de alguma maneira Sissy surge como elemento de lembrança ou comparação. A narração aparentemente sem emoção estabelece o tom da história mergulhada na melancolia caracterizada por duas linhas do tempo paralelas e dissonantes: a linha do tempo da personagem e a linha do tempo do mundo.

A situação muda e se define, finalmente, quando a narradora lê no jornal abandonado na sarjeta sobre a descoberta do caixãozinho de sua irmã em meio a escavações para uma nova fundação. A notícia surge como gatilho, um sinal que faz a narradora acordar e interpretar como uma permissão para deixar a vida, a superfície, para juntar-se à Sissy. Era esse o acontecimento necessário para atar as pontas de um fio e encerrar um ciclo, uma história.

A história da narradora (com a morte de Sissy) começa no século dezenove e sua vida se estende, aparentemente, por mais de cem anos, como adverte o homem parado em torno da cena final. O confronto com a nova “vida” da irmã, com a sua descoberta, representa a libertação da narradora e faz que ela assuma, para si mesma (e para nós, leitores), a verdadeira história da morte de Sissy, o verdadeiro motivo pelo qual ela se impediu de viver e se agarrou à culpa durante todos os anos e momentos de sua vida. A partir dessa revelação, então, ela pode se livrar da culpa e retomar o seu lugar ao lado da irmãzinha – como se a abertura da cova de Sissy fosse ao mesmo tempo a abertura de seu coração em relação ao seu passado; ou como se tudo o que ela precisasse fosse ver a irmã novamente. Da mesma maneira, ao ter o reconhecimento de sua própria história, pela primeira vez na narrativa a narradora sabe o que fazer e age por si. Depois de contar tudo o que passou em sua vida com desinteresse, interrupções e falta de ação, deixando-se apenas levar pelos acontecimentos, ela finalmente compreende a sua história e toma o controle. Aqui, também, surge a ideia do ato de narrar como libertação.

Em mais uma de suas reflexões, anterior ao desfecho, a narradora revela a interpretação de sua própria história – “era como se nossas vidas tivessem bifurcado e a vida de Sissy tivesse afundado na terra como um córrego secreto, ao passo que a minha corria, às cegas, na luz do dia” – e confirma como passou a sua vida. Retomando a imagem da bifurcação, que foi o local em que Sissy de fato se perdera, ela vai chegando à compreensão total, que se conclui com a descoberta e a visão do caixãozinho.

Pode-se ler o conto também como representação da própria construção da narrativa, em seu sentido metalinguístico. Logo na primeira frase – “Eu chamava ela de Sissy, apesar de não ser o seu nome” – já é oferecida ao leitor a dúvida em relação à ideia de representação (quem era essa irmã?), que vai sendo explorada também ao longo do conto pelas duas linhas narrativas que dialogam e se entrelaçam.  Ao sabermos a origem da história revelada pela autora após o desfecho, isso faz ainda mais sentido, e uma nova narrativa vem se juntar ao encontro das águas para tentar dar conta de uma realidade difusa e inacessível.

*

Emma Donoghue (Dublin, 1969) é uma autora irlandesa. Seu romance mais famoso, Room (O quarto de Jack), foi finalista do Booker Prize e do Orange Prize e adaptado para o cinema em 2015 por ela mesma, vencendo vários prêmios.

Sissy faz parte do e-book Three and a half deaths, com mais três histórias.

Aqui, o original!

 

 

Cidades mortas

Capa da primeira edição.

Comecei a ler Cidades Mortas, livro de contos do Monteiro Lobato, por causa de uma obsessão com o Vale do Paraíba. Todas as vezes que visitei a região foi para subir/caminhar nas montanhas, e a visão de lá de cima é de tirar o fôlego: mares de morros ondulando e criando contrastes de tons de verde, luz e sombra, até onde não dá mais para ver. Descendo de lá do alto, os minúsculos centros das cidades encaixadas entre as montanhas, a névoa a partir de certo horário – um gelo, pouca gente na rua – e um silêncio difícil de encontrar nas cidades grandes.

Recentemente estava trabalhando em um livro sobre o Euclides da Cunha, contando da época em que ele viveu em Lorena, cidade do Vale do Paraíba, entre 1902 e 1903, e li uma menção ao livro de Lobato acompanhada de um trecho que me impressionou.

Continue lendo “Cidades mortas”

O parágrafo um: Reparação

A peça – para a qual Briony havia desenhado os cartazes, os programas e os ingressos, construído a bilheteria, a partir de um biombo dobrável deitado de lado, e forrado com papel crepom vermelho a caixa para guardar dinheiro – fora escrita por ela num furor criativo que durara dois dias e que a levara a perder um café da manhã e um almoço. Terminados todos os preparativos, só lhe restava contemplar o texto pronto e aguardar a vinda dos primos do Norte longínquo. Só haveria tempo para um dia de ensaios antes de seu irmão chegar. A peça, emocionante em alguns trechos, de uma tristeza desesperada em outros, era uma história do coração, cuja mensagem, expressa num prólogo rimado, era a de que todo amor que não fosse fundado no bom senso estava fadado ao fracasso. A paixão imprudente da heroína, Arabella, por um malvado conde estrangeiro é punida pelo infortúnio quando ela contrai cólera numa viagem impetuosa com seu amado a uma cidade costeira. Abandonada por ele e por praticamente todo mundo, acamada numa água-furtada, Arabella descobre que tem senso de humor. A fortuna lhe apresenta uma segunda oportunidade na pessoa de um médico sem dinheiro – o qual, na verdade, é um príncipe disfarçado, que optou por trabalhar para os pobres. Curada por ele, Arabella dessa vez faz uma escolha sensata e é recompensada pela reconciliação com a família e pelo casamento com o príncipe-médico ‘num dia primaveril de vento e sol.

Tradução de Paulo Henriques Britto, edição da Companhia das Letras.

O parágrafo um de “Reparação”, de Ian Mcewan, já apresenta a nós leitores a personalidade de Briony, uma das principais personagens do romance. Ao lermos sua dedicação e seu comando nos preparativos todos para a peça – que escreveu, produziu e fez todos os preparativos – encontramos sinais de sua personalidade imaginativa, mesquinha e manipuladora que fará a história toda acontecer.

No trecho “A peça…”, o narrador resume o seu próprio livro, revelando detalhes da história que virá a seguir e anunciando a importância da imaginação na concepção da trama. Também não tem como ignorar a doença de Arabella e o médico, já que as duas irmãs Tallis viram enfermeiras durante a Segunda Guerra Mundial.

Depois, na conclusão da história, é possível perceber o tom metalinguístico do romance, que se inicia falando de criação, com a peça, e termina nos surpreendendo com… Ok, sem spoilers.

The great case of Benjamin Gatsby

Recentemente, li “The curious case of Benjamin Button”, conto do F. Scott Fitzgerald publicado no livro Tales of the jazz era. O texto é uma beleza: o estranhamento dos leitores diante da ausência de questionamento dos personagens ao redor a respeito da situação de Benjamin traz uma aflição inexplicável misturando humor, melancolia e dúvida.

Durante a leitura, a primeira vez que nos deparamos com Benjamin é através dos olhos dos outros: do médico, que o trata como uma aberração, o ignora; da enfermeira, que o lamenta e de seu próprio pai, que de início o rejeita. Quando podemos ver o próprio recém-nascido old man agir e falar por si, surge um personagem formado, pronto para o mundo e até descontente por estar ali. Esse personagem vai se desconstruindo, pois Benjamin “nasce velho” e, com o passar dos anos, vai “growing younger”, ficando mais jovem. Seu tempo passa voltando, e o grande paradoxo do conto é, numa história de apresentação e formação de um personagem, ver esse personagem ficando mais fraco e mais difuso com seu desenvolvimento.

Benjamin Button não consegue apreender ou viver nada que dure, apenas momentos pontuais, cuja passagem do tempo ao revés impedem a sua permanência além do registro momentâneo. Vive o que o tempo lhe permite em breves intervalos, até que seja obrigado a seguir o seu caminho oposto.

*

O único texto de Fitzgerald que tinha lido antes – mais de uma vez, e gosto demais – é The Great Gatsby, e não pude deixar de relacionar o final do livro com toda a temática de “The curious case…”. Com uma das frases mais marcantes da literatura, Fitzgerald conclui seu romance, a história de Nick Carraway:

 “So we beat on, boats against the current, borne back ceaselessly into the past.”

“E assim prosseguimos, botes contra a corrente, impelidos incessantemente para o passado.”

“The curious case…” foi publicado em 1922, e The Great Gatsby, em 1925. Ao lermos os dois textos é impossível não notar o diálogo entre ambos – que é pano de fundo comum de toda a obra de Fitzgerald – o mesmo contexto, a ambientação, a alta sociedade, o figurino. Depois, as linhas finais do Gatsby, de uma melancolia profunda, funcionam como uma espécie de síntese do conto escrito anos antes, como se os temas do tempo, da busca e da formação perseguissem o autor – ou o autor os perseguisse – incansavelmente; como se seus personagens andassem todos atrás da essência, daquilo que nos define e explica-se.

 

O parágrafo um: Grandes esperanças

 
Sendo o sobrenome de meu pai Pirrip, e meu nome de batismo Philip, quando menino minhas tentativas de pronunciar os dois nomes não resultavam em nada mais longo nem mais explícito do que Pip. Por isso passei a denominar-me Pip, e assim vim a ser chamado.
Este é o parágrafo um de Grandes esperanças, romanção do Charles Dickens.
Vejam só: o narrador – o próprio personagem Philip Pirrip – já inicia sua trajetória apresentando-se e anunciando-se incompleto, “errado”, por não conseguir pronunciar seu nome todo corretamente. Sua definição no mundo e na vida surge na primeira página como uma tentativa infantil e vã.
 
De um jeito simples, numa construção singela, é possível identificar o que nos aguarda nas centenas de páginas que virão: a história da formação de um ser humano, suas tentativas e erros e a construção de sua identidade e integridade.
Tradução de Paulo Henriques Britto, edição da Penguin/Companhia.

O parágrafo um: Palmeiras selvagens

Alguns anos atrás, fiz um blog chamado “O parágrafo um”, em que eu copiava os primeiros parágrafos de romances. Comecei a fazer isso porque tive um professor na faculdade que nos repetia exaustivamente: “leiam o primeiro parágrafo. Releiam o primeiro parágrafo. Está tudo lá”.

Desde então, sempre, ao começar um novo romance ou conto, leio e releio o primeiro parágrafo. É um ritual. Tento depreender o máximo dele, às vezes decorá-lo. E é impressionante como – em alguns casos mais, outros menos, outros nada mesmo, aí não é impressionante – o autor retoma elementos ao longo da narrativa que dialogam com o trecho inicial.

Esses dias, cheia de inspiração, resolvi retomar a coleção. Vou deixar um espaço para ela aqui no blog (categoria “o parágrafo um”), e na página do Micro lá no Facebook.

Para hoje, a nossa singela inauguração, escolhi o começo de um dos livros que mais me marcaram na vida e que preciso e quero reler em breve.

Com vocês, o parágrafo um de Palmeiras selvagens, do William Faulkner.

 

A batida soou outra vez, ao mesmo tempo discreta e peremptória, enquanto o médico descia as escadas, o facho de luz da lanterna projetando-se à sua frente pela escada, manchada de marrom, do vestíbulo. Era uma casa de praia, embora tivesse dois andares, iluminada por lampiões de querosene – ou por um lampião de querosene, que sua mulher tinha levado para cima quando subiram depois do jantar. E o médico usava um camisolão de dormir, não um pijama, pela mesma razão que fumava cachimbo, coisa de que nunca conseguira e, sabia, nunca conseguiria gostar, entremeado aos charutos ocasionais que os pacientes lhe presenteavam entre um domingo e outro, quando fumava os três charutos que achava que podia comprar por conta própria, embora fosse proprietário da casa da praia e também da casa vizinha e da outra, moradia com eletricidade e paredes revestidas de gesso, no povoado, a quatro milhas de distância. Porque ele agora estava com quarenta e oito anos e tinha dezesseis e dezoito e vinte na época em que seu pai lhe dizia (e ele acreditava) que cigarros e pijamas eram coisas de almofadinhas e mulheres.

Tradução de Newton Goldman e Rodrigo Lacerda. Edição da Cosac Naify.

Breve odisseia

Algum tempo atrás, dias de agosto, conversando com um amigo:

— Ju, estou achando você um pouco abatida. Está tudo bem?

— Está sim. Algumas coisinhas atrapalhando, só. Mas no geral tudo bem.

De fato, andava num mau-humor insuportável, não sabia por que. Chorando por nada, irritada com tudo, sem a mínima vontade de sair de casa ou levantar da cama. Foram alguns dias que passei arrastando o pijama pela casa, alternando a atenção entre meu próprio estado deplorável (sic), a tradução de um conto do Edgar Allan Poe (aqui) e a décima leitura e análise do conto da Flannery O’Connor (aqui).

— Está trabalhando muito?

— Sim, alguns trabalhos. E fazendo uma tradução do Poe. E analisando o conto da Flannery.

Continue lendo “Breve odisseia”

Tradução: O enterro prematuro

Edgar Allan Poe dispensa apresentações, mas sobre O enterro prematuro (The premature burial), conto de 1844, vale fazer algumas observações.

Como o próprio título anuncia, o conto trata de enterros prematuros – da situação de pessoas serem, por engano, enterradas vivas. Logo nas primeiras linhas, depois de relembrar diversas tragédias coletivas que atraem a curiosidade humana, o narrador anuncia a tragédia pessoal do sepultamento vivo como a verdadeira e pior desgraça que pode ocorrer a alguém. Em contraponto àquelas, esta ocorre em silêncio, raramente é descoberta (e mais raramente ainda a tempo) e, talvez por isso, seja mais dolorosa, com toda a Desgraça (letra maiúscula mesmo, um recurso de Poe – hehe) abatendo-se sobre um único ser, solitário e impedido de correr.

Continue lendo “Tradução: O enterro prematuro”

A flecha

Quando tive certeza de que você não voltaria, percebi que era a hora de retirar a flecha – anos atrás cravei uma flecha em meu tronco, na altura do umbigo, um pouco acima, do lado direito, e dei a ela o seu nome. Cravei-a exatamente no ponto que mais doía, tremia e formigava sempre que eu pensava que poderíamos nos perder para sempre. Acreditei que a dor da flecha na carne me faria esquecer a dor da sua ausência. E lentamente, e lentamente, os olhos fechados, mordendo os lábios e pressionando num movimento de rotação, escavei o buraco, fibra a fibra.

Continue lendo “A flecha”

Os olhos de Rufus

Um dos aspectos que mais chamam a atenção em “Os aleijados entrarão primeiro” (The lame shall enter first), conto de Flannery O’Connor, são as descrições: precisas, afiadas. Em vários momentos de sua prosa a autora não poupa o leitor e lhe apresenta mesmo as palavras mais duras, se for preciso, para representar com exatidão o que ela quer dizer.

Em meio aos acontecimentos destaca-se a descrição e menção aos olhos dos personagens, dizendo mais que as palavras. Impressiona o modo como a autora conduz o jogo dos olhares entre o narrador onisciente (e o próprio leitor), a demonstração do ponto de vista de Sheppard, os objetos de cena (telescópio, microscópio) que invocam a visão, o ato de ver melhor, de explorar, de perscrutar.

Estas são algumas impressões que se impõem após a leitura, e a ideia que perdura é que não há como ser conivente com a tragédia que é a cegueira voluntária, ao mesmo tempo que a verdade brilha com vigor, como os (e nos) olhos de Rufus.

Continue lendo “Os olhos de Rufus”