A medalha que não peguei

queima
eu insisti por uma saideira nesse bar, mas meu irmão disse que não.

Logo quando voltei da Meia do Rio, em agosto, tinha pensado nos 10 km sub-50 como meta seguinte, mas aí resolvi colocar mais uma meia maratona no meio, a Meia Internacional de Florianópolis.Resolvi assim, meio sem pensar, porque meu irmão mora lá. Liguei no aniversário dele para dar parabéns e morri de saudade, daí vi que teria a meia dali a um tempo, daí me inscrevi e tudo mais. “Ótimo você vir nessa época, daí já está mais calorzinho!”, disse a minha cunha querida.

Então dia 8, quinta-feira, peguei quinze horas de semi-leito – as passagens de avião para esse feriado chegavam aos 4 dígitos e um caminhão de diesel tombou na estrada – e cheguei cheia de saudades debaixo de uma garoa fina. O tempo ruim não foi surpresa, pois tinha começado a monitorar o Climatempo/Accuweather duas semanas antes. Sabia, portanto, que estaria friozinho, mas não contava com tanta chuva.

Chuva em cidade de praia, haja baralho e Netflix, e apesar da empolgação do encontro, estávamos superentediados com as pouquíssimas opções do que fazer. Até que: “Ah, a gente podia tomar uma cerveja, mas sei que você está aí, toda certinha pra sua corrida”, disse o mano.

Sim, eu estava toda certinha. Estava há um mês sem nada de álcool, treinando religiosamente, comendo bem e bonito. Queria chegar disposta e preparadíssima na Avenida Beira-mar Norte no domingo, dia 11, e fazer o meu melhor tempo, a minha melhor corrida, voando mesmo. Estava confiante e preparada, doida pra correr.

Mas estava aquela chuva, aquele frio e eu tinha aquele irmão me chamando pra tomar uma cerveja, depois de 8 meses sem ver.

“Podemos tomar só uminha”, eu disse, e nós dois rimos, porque isso simplesmente non ecziste para nós. Se é para sentar e tomar cerveja, é para SENTAR E TOMAR CERVEJA. Sem essa de tomar uma. E, obviamente, se eu tomasse cerveja, a prova ficaria de fora, porque iria dormir tarde e acordaria daquele jeito.

Pensei que aquela hora seria ótima, e seria nossa, para sentarmos e conversarmos sobre a vida, os sonhos, os planos para o futuro e essas coisas todas que desejamos saber a respeito de quem amamos. Pensei que fazia oito meses que não sentava na frente do meu irmão, sem hora pra ir embora, para ficar dando risada de um monte de bobagens.

Então eu disse “vamos”, e fomos. Escolhemos um barzinho na Lagoa e começamos uma daquelas conversas longas que vão de um assunto a outro, a outro e outro, e de uma Heineken a outra, e mais uma Heineken, e mais uma.

Logo a minha cunhadita juntou-se a nós, e já alegres demais para ser verdade fomos a um bar que tinha uma jukebox, onde gastamos todas as nossas moedas para escutar Alanis, Iron Maiden, Tears for Fears e outras músicas que a gente cantava no caminho da escola.

*

No domingo cedinho – até acordei para ver como estaria o tempo – chovia e ventava muito gelado. Levantei, fiz um café e fiquei olhando a chuva lá fora, da janela da casa do meu irmão. Sempre detestei correr na chuva e no frio e resolvi ficar de pijama, curtindo a visão bodeada para a restinga, respondendo whats dos amigos que mandavam boa sorte – todos ficaram surpresos com a minha desistência, é claro.

Também fiquei surpresa por ter mudado de ideia. Por ter deixado de lado algo que me acompanhou e guiou minha rotina por meses. Mas eu amo surpresas, e essa breve ida à Floripa me encheu delas.

Fiquei surpresa de ver meu irmão mais novo e sua vida de adulto. Fiquei surpresa com o projeto de Mestrado dele e com o feijão que ele aprendeu a fazer. Fiquei surpresa de ver a doçura da minha cunhada com as coisas todas, com as coisas da casa, com meu irmão, comigo. Fiquei surpresa com um reencontro inesperado e com o livro que levei para ler (aguardem uma resenha massa!).

Não voltei para São Paulo com uma medalha ou com um recorde pessoal, mas voltei com histórias engraçadas para lembrar quando eu sentir muita saudade do meu irmão – o que acontece com certa frequência.

Li num livro sobre psicologia infantil que uma das coisas que determinam a união entre irmãos na vida adulta é o quanto eles se divertiram juntos na infância. Quanto a isso não temos o que reclamar. Eu e meu irmão rimos juntos até da nossa própria sombra. Com certeza ninguém no bar entendeu nada quando a jukebox começou a tocar Renato Russo em italiano. E nós dois ainda sabíamos “cantar” a letra inteirinha, e o fizemos de olhos fechados, mãos para o alto e rindo, é claro.

PONTAL

1

A praia tem outro desenho e outras cores nesse sonho. Caminhávamos por um lado do pontal, era um pontal, e o dia estava muito bonito, agradável, a água estava clara e também o sol. Havia pouca gente ali e caminhávamos. A paisagem nos deixou silenciosos e concentrados, escolhemos com o olhar um espaço na areia para deixar as nossas coisas, deixamos as mochilas e sacolas ali, para caminhar ao longo do pontal, ao seu redor.

2

Podíamos deixar as coisas ali sem problemas – disso eu me lembro – e saímos despreocupados, mas solenes. Sorridentes e atentos. Passo a passo, até a ponta da praia, a ponta do pontal, eu disse sem pretensões e me arrependi, e a piada, palavra e palavra, fez sair um sorriso bobo, sem mais reações pois estávamos mesmo silenciosos, inebriados de sal. Ventava, o vento arrastava areia e calor e as poucas nuvens que estavam no céu. Andávamos e o vento em nossos corpos, em nossos cabelos, conduzindo a direção dos nossos passos para que fôssemos contra.

3

Nós somos duas pessoas: eu e você.

Eu sou uma mulher, você é um homem.

Nós temos uma relação de cumplicidade que parece muito longa.

É a primeira vez que caminhamos tanto.

Nosso silêncio não incomoda.

4

Começamos a curva para chegar ao outro lado do pontal. Eu andava um pouco à frente e você seguia. Às vezes eu virava o corpo, eu esticava o braço direito para tocar você um pouco. Você segurava a minha mão por alguns segundos e eu olhava para trás e sorria com timidez, sabendo que não deveria dizer ou fazer nada mais. Como se qualquer ruído fosse nos assustar, espantar a nossa concentração. Nós tínhamos de estar ali. Nós tínhamos de dar a volta pela praia para chegar ao outro lado do pontal, não era possível vê-lo, havia muitas rochas e vegetação fechada no centro, não era possível cortar caminho ou jamais ousaríamos. A paisagem daqui era exuberante, do outro lado também seria. Ainda mais. Vamos, até o outro lado.

5

Era exatamente como eu imaginei a Libéria quando você me contou sobre lá, sobre aquele país, com exceção dos montes de lixo queimando aqui na nossa praia, a fumaça espessa em alguns pontos. Chegamos ao outro lado do pontal e ali também tinha vento. Mais vento do que antes, o céu estava cinzento e era uma tempestade. A areia era extensa e dura, e em algumas partes parecia que havia chovido, a areia era molhada e batida, era escura. Tinha uma vegetação rasteira, insuficiente, gravetos, pequenos galhos e vidro, algas muito secas. Nós dois nos olhávamos sem entender ali fora, entendendo o olhar do outro. Você se aproximou e abraçou meus ombros, fui abraçada por você em silêncio.

Havia urubus e carniça na praia, dividindo a areia extensa, plana, rasa, com muitos banhistas em guarda-sóis diagonais, vozes. Tinha mais banhistas deste lado do pontal, muitos mais. Pessoas molhadas deitadas na areia molhada, trajes de banho pretos, cabelos pretos muito grossos, longos, estendidos, outra borda. As ondas deste lado eram finas linhas espumosas no chumbo, o mar era cinzento e seu movimento. O mar tinha um recuo enorme, como se tivéssemos de andar muito até molhar os pés ou como uma tragédia. O cheiro era metálico.

Era tudo muito feio, mas nós não dissemos “feio”. As pessoas pareciam escandalosamente felizes. As pessoas pareciam felizes e não compreendíamos – você me abraçou. Fui abraçada por você.

6

Havia uma mulher acompanhada de uma família grande, com muitos pertences, sacos plásticos e mochilas, pessoas deitadas na areia comiam biscoitos, e outras, as crianças – havia crianças – estavam agachadas brincando com utensílios de plástico coloridos, fôrmas, que acumulavam areia cinzenta nas dobras intocáveis e formavam pequenos montes disformes. Construíam figuras tortas. A mulher estava em pé, olhando fixo o horizonte com as mãos na parte de trás da cintura, quando o vento arrancou o guarda-sol da família do chão. Corri muito rápido e segurei o guarda-sol antes que ele atingisse uma criança, foi por muito pouco. Caminhei até a mulher, que agradeceu muitas vezes e sorriu aliviada, e a ensinei a colocar o guarda-sol bem preso na areia. Cavei um buraco fundo para ela, com as pontas dos dedos. Ela agradeceu novamente e respondi “imagina, agora está bem preso”.

(Urubus pretos sobrevoando guarda-sóis pretos, a areia muito escura, o cheiro de metal, pessoas satisfeitas.)

7

Você me abraçou de novo enquanto eu sorria meio boba, me afastando daquela mulher, daquela família. Você disse “muito bem”, e apontou algo, “olha ali o que eu encontrei”.

Você se afastou em passos largos, ainda não entendi. Você disse “deixa eu ver se a minha carteira ainda está aqui”.

Ali estavam as nossas coisas, exatamente como havíamos deixado. Do lado de lá. Lembro de ter achado estranho aquilo aqui. Aqui estava muito feio, carniça, urubus, vegetação rasteira, seca. Mas nossas coisas estavam ali e não questionamos, assim seria.

Resolvemos então sentar um pouco, para descansar e olhar o mar.

Surpresa

Saindo do metrô Alto do Ipiranga, onze da manhã, um homem se aproxima. Ele segura uma rosa vermelha enrolada no celofane e duas mochilas que pareciam bem pesadas e cheias de coisas.

Ele de aproxima de mim e pergunta:

“O Museu do Ipiranga está longe?”

Respondo que está.

“Você vai andando até lá?”

“Andando, de ônibus, voando. Eu vou encontrar o amor da minha vida! Vou fazer uma surpresa e levar ela para almoçar”, ele respondeu, e tinha um brilho tão contagiante nos olhos, que quase pedi pra ir junto.

Ele ia falando enquanto procurava algo nos bolsos e em uma das mochilas. A rosa, protegidíssima, na mão. Achei que ainda diria algo e não me afastei até ele desdobrar um papelzinho, ler e me mostrar o endereço.

“Vixe, essa rua é um pouco mais longe, é melhor você pegar um ônibus. Pega ali naquele ponto, ó.” – Respondi, apontando.

“Você tem horas aí? Que horas são?”

“São onze.”

“Ela sai onze e meia… Vou de táxi para chegar rápido e conseguir fazer a surpresa a tempo!”

Disse o homem, num êxtase que também me fez aumentar o tom de voz.

“Isso! De táxi vai rapidinho! Não dá nem dez minutos!”

“Mas antes vou ali fazer xixi, que estou muito nervoso!”

“Vá, boa sorte!”

“Obrigada”, apertando a minha mão, “obrigada, boa sorte pra você também!”

São cenas como esta que me fazem desistir de me locomover dentro de um carro, e mais ainda, que me deixam cheia de fé na vida.

<3