Pausa para a Odisseia

Pausa para a Odisseia

Algum tempo atrás, dias de agosto, conversando com um amigo:

— Ju, estou achando você um pouco abatida. Está tudo bem?
— Está sim. Pequenos incômodos, só. Mas no geral tudo bem.

De fato, andava num mau-humor insuportável, não sabia por que. Chorando por nada, irritada com tudo, sem a mínima vontade de sair de casa ou levantar da cama. Foram alguns dias arrastando o pijama pela casa, alternando a atenção entre meu próprio estado deplorável (sic), a tradução de um conto do Edgar Allan Poe e a décima leitura e análise do conto da Flannery O’Connor.

— Está trabalhando muito?
— Sim, bastante. E fazendo uma tradução do Poe. E analisando o conto da Flannery.

Entendi na hora o motivo do meu humor sanguinário: Poe estava me contagiando com seu pavor de ser enterrado vivo e com as descrições minuciosas de seu universo macabro; e Flannery, objeto de minha adoração, me jogava a cada parágrafo, releitura e conclusão, um balde de desilusão. Meu amigo também entendeu tudo:

— Você vai se acabar, desse jeito!
— Não é? Preciso terminar esses trabalhos logo e pedir arrego a Jane Austen
— Melhor: leia o Canto IX da Odisseia. Quando Ulisses volta e conta como venceu o Ciclope. Leia, uma vez, duas, três vezes. Leia em voz alta, caminhando pela casa. Declame. Vai funcionar — e, sim, conclua a tradução e a análise logo, quero ler as duas.

Nunca havia lido a Odisseia (ainda não li o livro inteiro) e achei que não entenderia nada. Mesmo assim, cheguei à livraria como quem chega à farmácia e fui direto no exemplar, direto no Canto IX.

Não consigo copiar todo o canto aqui, mas destaquei um belo trecho, a morte do Ciclope, para animar quem também acha que a Odisseia é uma leitura impossível e encorajar os corações e mentes a dar a volta por cima de uma vez por todas.

Boa leitura!

CANTO IX

“Falou e logo em seguida caiu para trás, e ali ficou deitado
com o grosso pescoço de banda; e dominou-o o sono,
que tudo conquista. Vinhos e bocados de carne humana
saíram-lhe como vômito da boca. Arrotou, embriagado.
Então fui eu quem enfiou o tronco debaixo das brasas,
para que ficasse quente; e todos os companheiros
incitei, para que nenhum perdesse a coragem.
Quando o tronco de oliveira estava prestes a pegar fogo
(apesar de verde), começou a refulgir de modo terrível.
Então fui eu que o tirei do fogo; estavam os companheiros
à minha volta e um deus insuflou-nos uma grande coragem.
Tomaram o tronco de oliveira, aguçado na ponta,
e enterraram-no no olho do Ciclope, enquanto eu apoiava
contra o tronco o meu peso e fazia com que girasse,
como o homem que fura com a broca a viga da nau,
enquanto os que estão embaixo o fazem dar voltas
sem cessar com uma correia que giram de ambos os lados:
assim nós tomamos o tronco em brasa e o giramos
no seu olho e o sangue correu quente em toda a volta.
As pálpebras por cima e as sobrancelhas estavam queimadas
pela pupila em chamas, cujas raízes crepitavam enquanto ardiam.
Tal como quando o ferreiro mergulha um grande machado
ou picareta em água fria para beneficiar o ferro de ambos os lados –
era assim que fervilhava o olho com o tronco de oliveira.”

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