Camisas sujas e imaginação

Recentemente, li o conto “Número cinquenta e seis”, de Stephen Leacock, publicado na edição de agosto do jornal Rascunho. Adoro conhecer autores novos (nesse caso, um velho autor, novo para mim) e esse conto, em especial, me impressionou a ponto de ler algumas vezes com o caderninho na mão, para encher de notas. Compartilho-as com vocês.

Me encantou o seu tema, a imaginação, o fato de guardarmos dentro de nós mundos tão vastos, e de esses mundos também sustentarem as nossas vidas e as nossas ações. Graças às “altamente imaginativas projeções de nossas mentes”, parafraseando o autor, podemos criar histórias a partir dos elementos mais improváveis, mais prosaicos, mais aparentemente insignificantes — de um objeto de decoração — como é o caso do narrador —, ou de fardos e fardos de roupas sujas — como é o caso de Ah-Yen, seu amigo e interlocutor.

O narrador tinha alguns elementos à disposição na realidade ao seu redor, como a melancolia contemplativa que observava em Ah-Yen e os elementos de decoração da salinha obscura e modesta. Um desses elementos, em especial, fez que ele criasse em sua própria mente uma possibilidade de história de Ah-Yen. O fato de aquele elemento especial — o retrato “de um jovem rapaz — um rosto muito belo, mas de infinita tristeza” — ter chamado a sua atenção e despertado o seu interesse e imaginação é bastante curioso, pois, como se verá ao fim da narrativa, tratava-se de um retrato que era o seu próprio, fruto de um grande mal-entendido, possível somente graças à imaginação de  Ah-Yen.

Assim, o conto anuncia-se desde o início como a narrativa da narrativa, com o envolvimento de dois narradores, portanto. Quando o narrador dá a voz a Ah-Yen, descobre que atrás daquele retrato há uma história cheia de detalhes, uma narrativa riquíssima construída a partir de evidências reais — a sujeira estava ali, as roupas, também —, mas irreais, pois não eram nada daquilo que ele estava pensando.

No entanto, a narrativa de Ah-Yen passa a ser real a partir do momento em que ele a revela ao narrador e, apesar da tragicômica constatação do possível mal-entendido, não é desmentido. Também, nesse sentido, como pode ser irreal algo que fez alguém trabalhar tão duro e demonstrar todas as suas melhores habilidades? A preocupação de Ah-Yen com o Número Cinquenta e Seis era real e devota, seu trabalho e seu pensamento estavam sempre permeados por aquela existência. Nada mais real e verdadeiro, para ele.

A imaginação de Ah-Yen, nascida a partir de peças de roupas sujas, deu origem ao retrato em sua parede. A imaginação resultou em obra. O retrato na parede — o estranhamento diante dele —, por sua vez, despertou a imaginação do narrador, que originou o conto, outra obra. O que intrigava o narrador inicialmente era, portanto, a visão de si mesmo, de uma parte oculta de si. E não seria essa motivação e a busca da própria arte?

Profundo, não? Mas é assim que os bons textos são. Podemos mergulhar e tirar infinitas coisas deles, sob diversos aspectos… E chegar ao homem, às angústias, pequenas tragédias e comédias humanas, percebendo, por fim, que nenhum detalhe foi ali posto à toa. O cenário, por exemplo, não poderia mesmo ser outro além de uma salinha oculta do estabelecimento de Ah-Yen. O lugar secreto que ficava nos fundos, atrás do que todo mundo podia ver. A salinha de sua memória, enfumaçada pelo cachimbo, difusa, inexata, imprecisa. A salinha que temos em nossas cabeças e não nos damos conta, a salinha da imaginação.

Posts Relacionados

Comece a digitar sua pesquisa acima e pressione Enter para pesquisar. Pressione ESC para cancelar.

De volta ao topo