Breve odisseia

Algum tempo atrás, dias de agosto, conversando com um amigo:

— Ju, estou achando você um pouco abatida. Está tudo bem?

— Está sim. Algumas coisinhas atrapalhando, só. Mas no geral tudo bem.

De fato, andava num mau-humor insuportável, não sabia por que. Chorando por nada, irritada com tudo, sem a mínima vontade de sair de casa ou levantar da cama. Foram alguns dias que passei arrastando o pijama pela casa, alternando a atenção entre meu próprio estado deplorável (sic), a tradução de um conto do Edgar Allan Poe (aqui) e a décima leitura e análise do conto da Flannery O’Connor (aqui).

— Está trabalhando muito?

— Sim, alguns trabalhos. E fazendo uma tradução do Poe. E analisando o conto da Flannery.

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Dica Microclima de bem-viver

Francesco Petrarca – santo padroeiro dos sonetistas.

Sabemos – e se tem alguma coisa com que todos concordemos é – que não está fácil. Como se já não bastasse a zona da “vida pública” temos nossas questões pessoais, aquelas que nos tiram o sono e as únicas que têm o poder de dominar todos os espaços do nosso pensamento, até os mais escondidos espaços.Nas mais improváveis sinapses – tcharam – lá está aquela insistente questão pessoal, uma lombadinha, um buraco.

Semana passada foi assim sem muita paz (porque, se posso dizer que tenho um dom, é o de fazer pequenas questões se tornarem monstros indomáveis). Estava diante de questões aparentemente sem solução, dessas que dependem de outras pessoas e não há muita coisa que possamos fazer.

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Desvios de percurso – Verão

 

Em dezembro do ano passado havia decidido fazer uma lista mês a mês com as leituras para este ano de 2017. Organizei a lista pensando não apenas nos autores que queria ler, mas também em uma ordem lógica, em que a leitura de um romance favorecesse a leitura do livro de ensaios que viria em seguida, que dialogaria organicamente com um novo romance ou o diário do autor do mês.

Havia, na lista inicial – já vejam que a lista foi desobedecida –, grandes exemplares da literatura mundial, clássicos para reler prestando atenção nisto e anotando aquilo, ou para fazer uma leitura comparada com outro clássico.

Comecei janeiro animadíssima. Numa mão, Madame Bovary; na outra, A Orgia Perpétua, do Mario Vargas Llosa – livro em que o autor faz uma leitura e análise do clássico de Flaubert com um toque pessoal que nos aproxima e encanta logo na introdução, enquanto ele explica sua relação com Emma Bovary, seu primeiro contato e as diversas maneiras como se reaproximou da obra e de seus personagens emblemáticos.

Vargas Llosa é tão atraente em sua introdução que parei nestas duas páginas – e no primeiro capítulo – por duas semanas, lendo, relendo, grifando, copiando. Ao mesmo tempo, seguia com Madame Bovary achando muito enfadonha a apresentação de Charles, logo no início. Passei me arrastando e, ao mesmo tempo, fazendo um grande esforço para me manter atenta (nas páginas que gostaria de pular) e não perder nenhum traço de genialidade.

Dia sim, levava Flaubert na bolsa, dia não, era a vez de Vargas Llosa.

Mas janeiro passava, a leitura seguia lenta e fazia aquele calor insuportável que impede a gente de prestar atenção em uma mesma coisa por 15 minutos seguidos. Involuntariamente me afastei de Flaubert e Vargas Llosa, procurando algum sentido para esta vidinha, em que não era possível, para mim, contemplar um clássico da maneira como ele merece (sintam o drama).

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Forte poroso

Sei que pude entender o que era Salvador quando desavisada, turista, decidi sair do Mercado Modelo para caminhar até o Solar do Unhão, pois – Você precisa ver o pôr do sol daquele lugar, disseram.

Também disseram para não fazer esse trajeto a pé, “de jeito nenhum”. E mesmo sendo cautelosa em todas as horas, naquela hora decidi fazer o contrário.

Não lembro quantos passos havia avançado. Estava concentrada em olhar à frente e prever a distância, o quanto ainda faltava do caminho, e olhar em volta. Por algum motivo parei e minha cabeça girou para a esquerda, distraidamente, ou era mesmo a força de uma mão enorme, um polegar/indicador invisíveis segurando o que existe entre as minhas orelhas, para que eu visse.

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Casa

casa

Faz algum tempo que sinto um amor inexplicável pelas quintas-feiras. O dia está muito lindo e penso “mas minha nossa, por que hoje está tão lindo? Como pode um dia tão lindo?”, logo respondo “ora, ora, ora: é quinta-feira”. Sempre é. A pessoa que inventou o #tbt (nota mental: pesquisar) deve achar o mesmo.

Vinha descendo o ladeirão a caminho de casa, saindo do trabalho mais cedo que o normal, pensando no dia, agradecendo, cantando. Lembrei de como o dia começou, e esse – o como ele começou – é o tema deste texto, cuja intenção é indicar aos leitores um dos meus discos preferidos da vida.

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Porto amoroso

Redenção em março. Poa pré-outonal.
Redenção em março. Poa pré-outonal.

Andar por Porto Alegre com um gaúcho é passar por inúmeros lugares tradicionais. “Aqui, essa doceria é bem tradicional”, “esse sebo é famoso”, “essa livraria”, “foi aqui que…”.

“Tu já foi na lancheria do parque?”

Ouvi a pergunta de praticamente todos os colegas locais. Já! E já provei o sucão misto, servido na jarra. “Ah, bom, porque tu não pode dizer que esteve em Porto Alegre se não foi na Lancheria.”

Há tempos queria escrever sobre a cidade onde passei dois meses do meu 2016. Tentei, tentei e nada saía, e também não sabia muito o que dizer. Mas ontem, aqui na minha véia São Paulo, depois de gastar horas de locomoção, para lá e para cá, trem apertado e metrô lotado – e hoje, depois de precisar cancelar um compromisso em cima da hora porque o ônibus não passou, me dei conta do que me encantou em Poa. E resolvi registrar para não esquecer.

Na minha rotina diária porto-alegrense eu não costumava sair muito. Se tinha de fazer algo era coisa rápida – uma passadinha no Záffari do Shopping Total, um café ali na padariazita da Gonçalo, almoçar no vegano da Redenção, cinema na Casa de Cultura Mario Quintana, andar pelo centro, porque centros são os melhores passeios. E sempre era coisa rápida rápida mesmo. Dava para fazer quase tudo a pé, meia horinha de caminhada, no máximo, resolvia.

Fim de semana era para andar até cansar pelas ruas. Na companhia da guria mais querida, cheia de disposição e paciência (capaz!) era um sobe e desce lomba que só, com a térmica debaixo do braço, lojinhas lindas, alternativas e charmosas. Aí depois parávamos em algum lugar, qualquer lugar – Gasômetro, Redença (rsrs), Moinhos –, sentávamos e dá-lhe assunto até o céu mudar de cor.

Porto Alegre tem cores incríveis de céu. E gaúchos são ótimos proseadores.

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Desafio número 1 para abrir mão do controle

Este é um desafio para você aprender, devagar, a abrir mão do controle. Para algumas pessoas isso é muito difícil, mas breves exercícios diários podem fazer que consigamos deixar de lado a necessidade de controlar tudo – essa necessidade que deixa a gente meio ansioso, que mexe com as nossas cabeças e nos deixa assim.

O exercício deve ser feito enquanto você estiver andando na rua, ou no parque. É melhor que não esteja com pressa. Se você estiver com pressa e mesmo assim conseguir fazer o exercício, parabéns, já é um avanço enooooorme – mas, se estiver com pressa e não conseguir fazer, tudo bem, não se aflija e não se cobre. É um passo muito largo. Melhor recomeçar outro dia, sem pressa desta vez. Porém, mesmo assim, é importante que você esteja indo a algum lugar, que tenha um objetivo, e não tenha saído de casa apenas para fazer o exercício.

O exercício consiste em entregar os seus passos a outra pessoa.

Sim, os seus passos.

A um desconhecido.

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Como estar perdido

“A culpa é sua, Thiago. Se você não tivesse caído, a gente não tinha se perdido!”

“A culpa é do meu patinete!”

“Thiago, agora nós estamos perdidos… Não, não, não, eu não lembro de termos passado por aqui! E agora, Thiago?”

“Não sei!”

Os dois irmãos, um de uns 8 anos, outro de uns 6, chegaram com seus patinetes em volta da nossa base, lá na Usp, em uma manhã de sábado. Muito assustado, o mais velho não parava de gritar com o menor.

“Se você não tivesse caído, a gente ainda ia estar junto com a Bel! Thiago, o que a gente vai fazer agora? Eu não sei onde a gente está! Perdidos, perdidos! Nós estamos perdidos!”

“Calma, a gente vai achar eles…”

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Surpresa

Saindo do metrô Alto do Ipiranga, onze da manhã, um homem se aproxima. Ele segura uma rosa vermelha enrolada no celofane e duas mochilas que pareciam bem pesadas e cheias de coisas.

Ele de aproxima de mim e pergunta:

“O Museu do Ipiranga está longe?”

Respondo que está.

“Você vai andando até lá?”

“Andando, de ônibus, voando. Eu vou encontrar o amor da minha vida! Vou fazer uma surpresa e levar ela para almoçar”, ele respondeu, e tinha um brilho tão contagiante nos olhos, que quase pedi pra ir junto.

Ele ia falando enquanto procurava algo nos bolsos e em uma das mochilas. A rosa, protegidíssima, na mão. Achei que ainda diria algo e não me afastei até ele desdobrar um papelzinho, ler e me mostrar o endereço.

“Vixe, essa rua é um pouco mais longe, é melhor você pegar um ônibus. Pega ali naquele ponto, ó.” – Respondi, apontando.

“Você tem horas aí? Que horas são?”

“São onze.”

“Ela sai onze e meia… Vou de táxi para chegar rápido e conseguir fazer a surpresa a tempo!”

Disse o homem, num êxtase que também me fez aumentar o tom de voz.

“Isso! De táxi vai rapidinho! Não dá nem dez minutos!”

“Mas antes vou ali fazer xixi, que estou muito nervoso!”

“Vá, boa sorte!”

“Obrigada”, apertando a minha mão, “obrigada, boa sorte pra você também!”

São cenas como esta que me fazem desistir de me locomover dentro de um carro, e mais ainda, que me deixam cheia de fé na vida.

<3