Cidades mortas

Capa da primeira edição.

Comecei a ler Cidades Mortas, livro de contos do Monteiro Lobato, por causa de uma obsessão com o Vale do Paraíba. Todas as vezes que visitei a região foi para subir/caminhar nas montanhas, e a visão de lá de cima é de tirar o fôlego: mares de morros ondulando e criando contrastes de tons de verde, luz e sombra, até onde não dá mais para ver. Descendo de lá do alto, os minúsculos centros das cidades encaixadas entre as montanhas, a névoa a partir de certo horário – um gelo, pouca gente na rua – e um silêncio difícil de encontrar nas cidades grandes.

Recentemente estava trabalhando em um livro sobre o Euclides da Cunha, contando da época em que ele viveu em Lorena, cidade do Vale do Paraíba, entre 1902 e 1903, e li uma menção ao livro de Lobato acompanhada de um trecho que me impressionou.

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The great case of Benjamin Gatsby

Recentemente, li “The curious case of Benjamin Button”, conto do F. Scott Fitzgerald publicado no livro Tales of the jazz era. O texto é uma beleza: o estranhamento dos leitores diante da ausência de questionamento dos personagens ao redor a respeito da situação de Benjamin traz uma aflição inexplicável misturando humor, melancolia e dúvida.

Durante a leitura, a primeira vez que nos deparamos com Benjamin é através dos olhos dos outros: do médico, que o trata como uma aberração, o ignora; da enfermeira, que o lamenta e de seu próprio pai, que de início o rejeita. Quando podemos ver o próprio recém-nascido old man agir e falar por si, surge um personagem formado, pronto para o mundo e até descontente por estar ali. Esse personagem vai se desconstruindo, pois Benjamin “nasce velho” e, com o passar dos anos, vai “growing younger”, ficando mais jovem. Seu tempo passa voltando, e o grande paradoxo do conto é, numa história de apresentação e formação de um personagem, ver esse personagem ficando mais fraco e mais difuso com seu desenvolvimento.

Benjamin Button não consegue apreender ou viver nada que dure, apenas momentos pontuais, cuja passagem do tempo ao revés impedem a sua permanência além do registro momentâneo. Vive o que o tempo lhe permite em breves intervalos, até que seja obrigado a seguir o seu caminho oposto.

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O único texto de Fitzgerald que tinha lido antes – mais de uma vez, e gosto demais – é The Great Gatsby, e não pude deixar de relacionar o final do livro com toda a temática de “The curious case…”. Com uma das frases mais marcantes da literatura, Fitzgerald conclui seu romance, a história de Nick Carraway:

 “So we beat on, boats against the current, borne back ceaselessly into the past.”

“E assim prosseguimos, botes contra a corrente, impelidos incessantemente para o passado.”

“The curious case…” foi publicado em 1922, e The Great Gatsby, em 1925. Ao lermos os dois textos é impossível não notar o diálogo entre ambos – que é pano de fundo comum de toda a obra de Fitzgerald – o mesmo contexto, a ambientação, a alta sociedade, o figurino. Depois, as linhas finais do Gatsby, de uma melancolia profunda, funcionam como uma espécie de síntese do conto escrito anos antes, como se os temas do tempo, da busca e da formação perseguissem o autor – ou o autor os perseguisse – incansavelmente; como se seus personagens andassem todos atrás da essência, daquilo que nos define e explica-se.

 

Breve odisseia

Algum tempo atrás, dias de agosto, conversando com um amigo:

— Ju, estou achando você um pouco abatida. Está tudo bem?

— Está sim. Algumas coisinhas atrapalhando, só. Mas no geral tudo bem.

De fato, andava num mau-humor insuportável, não sabia por que. Chorando por nada, irritada com tudo, sem a mínima vontade de sair de casa ou levantar da cama. Foram alguns dias que passei arrastando o pijama pela casa, alternando a atenção entre meu próprio estado deplorável (sic), a tradução de um conto do Edgar Allan Poe (aqui) e a décima leitura e análise do conto da Flannery O’Connor (aqui).

— Está trabalhando muito?

— Sim, alguns trabalhos. E fazendo uma tradução do Poe. E analisando o conto da Flannery.

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Tradução: O enterro prematuro

Edgar Allan Poe dispensa apresentações, mas sobre O enterro prematuro (The premature burial), conto de 1844, vale fazer algumas observações.

Como o próprio título anuncia, o conto trata de enterros prematuros – da situação de pessoas serem, por engano, enterradas vivas. Logo nas primeiras linhas, depois de relembrar diversas tragédias coletivas que atraem a curiosidade humana, o narrador anuncia a tragédia pessoal do sepultamento vivo como a verdadeira e pior desgraça que pode ocorrer a alguém. Em contraponto àquelas, esta ocorre em silêncio, raramente é descoberta (e mais raramente ainda a tempo) e, talvez por isso, seja mais dolorosa, com toda a Desgraça (letra maiúscula mesmo, um recurso de Poe – hehe) abatendo-se sobre um único ser, solitário e impedido de correr.

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Os olhos de Rufus

Um dos aspectos que mais chamam a atenção em “Os aleijados entrarão primeiro” (The lame shall enter first), conto de Flannery O’Connor, são as descrições: precisas, afiadas. Em vários momentos de sua prosa a autora não poupa o leitor e lhe apresenta mesmo as palavras mais duras, se for preciso, para representar com exatidão o que ela quer dizer.

Em meio aos acontecimentos destaca-se a descrição e menção aos olhos dos personagens, dizendo mais que as palavras. Impressiona o modo como a autora conduz o jogo dos olhares entre o narrador onisciente (e o próprio leitor), a demonstração do ponto de vista de Sheppard, os objetos de cena (telescópio, microscópio) que invocam a visão, o ato de ver melhor, de explorar, de perscrutar.

Estas são algumas impressões que se impõem após a leitura, e a ideia que perdura é que não há como ser conivente com a tragédia que é a cegueira voluntária, ao mesmo tempo que a verdade brilha com vigor, como os (e nos) olhos de Rufus.

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As sensações físicas de Twin Peaks

Queria muito escrever um texto refletindo sobre como Twin Peaks marcou a história do cinema e da televisão. Ou relacionando os personagens a arquétipos de acordo com a sua atuação e caracterização ao longo da trama. Adoraria, também, saber de curiosidades dos bastidores, e atentar os leitores para detalhes de cena que passariam batido.

Mas não sou capaz, porque, além de não ser peakmaniac – sabendo datas e fatos e nomes dos atores e de todos os personagens de cor –, Twin Peaks me impressiona mais por cenas isoladas do que pela construção geral da trama.

Lembro de quando assisti à série pela primeira vez. Já gostava dos filmes do Lynch, e um amigo me emprestou os dvds da primeira e segunda temporadas. Assistia praticamente um episódio por dia, e fui sugada pela atmosfera: lembro bem da sensação (essa é a palavra) de andar na rua e encontrar em cada um que passava por mim algo estranho e peculiar, de tirar frases de contexto e acreditar que poderiam ser códigos cifrados, de ficar com medo de olhar no espelho, no meio da noite, ao levantar a contragosto para fazer xixi.

Nesta terceira temporada anda acontecendo o mesmo. Ainda que não seja possível assistir a um episódio por dia, tenho evitado assistir outras coisas para ficar só aguardando o próximo Twin. Já tenho meus personagens amados e os que me dão nos nervos, um milhão de hipóteses do que vai acontecer e tenho certeza que ontem vi a agente Tammy Preston na rua. Logo quando assisti ao oitavo episódio caí numa depressão leve, da qual estou saindo graças à esperança cega na recuperação de Dougie Jones e à doçura persistente de Hawk.

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A tradução prematura

Há algum tempo comecei a traduzir um conto do Edgar Alan Poe para as minhas aulas de inglês. Inicialmente seriam só alguns parágrafos, mas me empolguei – estava adorando o resultado e quis me aventurar a traduzi-lo inteiro. Tento recorrer a outras traduções o mínimo possível, e pretendo fazer uma leitura comparada entre traduções depois, quando tiver finalizado (o que provavelmente vai demorar, sou lenta e dispersa).

Nas últimas aulas, lendo a tradução em voz alta, fiquei muito contente com o resultado e quis compartilhar alguns desses trechos com os leitores daqui.

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Faintly falling – observações sobre “Os mortos”, de James Joyce

“Os mortos”, conto de James Joyce que faz parte do Dublinenses, nos conduz por um percurso excitante, alegre e cheio de expectativas que termina em um tom soturno de melancolia e escuridão. É bastante interessante observar os elementos selecionados pelo autor para atingir esse objetivo e entender, nesse contexto, a morte, inescapável, como o oposto do amor.

Os primeiros parágrafos constroem uma atmosfera animada: um baile repleto de convidados, organizado pelas irmãs Morkan – Julia, Kate e Mary Jane. Lá fora faz muito frio, é época de Natal e neva como há muito não nevava em toda a Irlanda, mas dentro do salão a luz é acolhedora, e as conversas, calorosas. Os personagens vão sendo apresentados conforme chegam ao evento e a partir de sua interação com as anfitriãs, e é assim que conhecemos Gabriel, figura que tomará logo o lugar de destaque e mediação do conto. Percebemos lentamente, a cada ação ou fala de Gabriel, seu temperamento carinhoso e solícito e sua postura cordial perante as tias, como homem instruído e acadêmico – o preferido delas. Gabriel é filho de Ellen, uma irmã das três, já falecida, e aí está uma das primeiras menções da morte no conto.

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Desvios de percurso – Verão

 

Em dezembro do ano passado havia decidido fazer uma lista mês a mês com as leituras para este ano de 2017. Organizei a lista pensando não apenas nos autores que queria ler, mas também em uma ordem lógica, em que a leitura de um romance favorecesse a leitura do livro de ensaios que viria em seguida, que dialogaria organicamente com um novo romance ou o diário do autor do mês.

Havia, na lista inicial – já vejam que a lista foi desobedecida –, grandes exemplares da literatura mundial, clássicos para reler prestando atenção nisto e anotando aquilo, ou para fazer uma leitura comparada com outro clássico.

Comecei janeiro animadíssima. Numa mão, Madame Bovary; na outra, A Orgia Perpétua, do Mario Vargas Llosa – livro em que o autor faz uma leitura e análise do clássico de Flaubert com um toque pessoal que nos aproxima e encanta logo na introdução, enquanto ele explica sua relação com Emma Bovary, seu primeiro contato e as diversas maneiras como se reaproximou da obra e de seus personagens emblemáticos.

Vargas Llosa é tão atraente em sua introdução que parei nestas duas páginas – e no primeiro capítulo – por duas semanas, lendo, relendo, grifando, copiando. Ao mesmo tempo, seguia com Madame Bovary achando muito enfadonha a apresentação de Charles, logo no início. Passei me arrastando e, ao mesmo tempo, fazendo um grande esforço para me manter atenta (nas páginas que gostaria de pular) e não perder nenhum traço de genialidade.

Dia sim, levava Flaubert na bolsa, dia não, era a vez de Vargas Llosa.

Mas janeiro passava, a leitura seguia lenta e fazia aquele calor insuportável que impede a gente de prestar atenção em uma mesma coisa por 15 minutos seguidos. Involuntariamente me afastei de Flaubert e Vargas Llosa, procurando algum sentido para esta vidinha, em que não era possível, para mim, contemplar um clássico da maneira como ele merece (sintam o drama).

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“What we talk about when we talk about love”, Raymond Carver

Adoro diálogos. Mesmo os mais vagos. Ou principalmente eles, capazes de mostrar, além das próprias palavras, as características e reações dos personagens. Gosto de imaginar os percursos da interação e o que fez cada palavra ser dita de determinada maneira, em determinada ordem, e não em outra.

Foi isso o que me atraiu imediatamente na escrita de Hemingway, nos filmes do Eric Rohmer, em David Lynch, Woody Allen e numa porção de séries. E também no conto “What we talk about when we talk about love”, de Raymond Carver, autor que não conhecia e leitura ­(e releitura) constante das últimas semanas, que vim recomendar.

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