Igatu-Paranapiacaba

Horas de estrada depois e mais de caminhada chegamos a Igatu. Entre as montanhas a cidade é mais vazia do que parece ao longe, cada canto um ninho escrostado na montanha e suas paredes, subidas, fazem o silêncio das pedras. Casario. ​Era ainda começo mas parecia fim da tarde, e pensamos que era melhor nos mantermos unidos. Diminuímos a velocidade dos passos espontaneamente, em coro, para observar tudo e encontrar o que buscávamos no fim do labirinto.

Entre os blocos de pedra dos muros, olhos invisíveis perguntavam-se o que fazíamos ali àquela hora; talvez perguntassem quem éramos, se pudessem. Algo observava, observamos. Só era possível fazer silêncio, em silêncio permanecíamos: era imposto e voluntário, nossas mãos se esbarravam suavemente enquanto apertavam-se cada uma em si.

A neblina parecia suave ao longe, estávamos no meio dela e de seu peso.

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Laranja do céu

“É o senhor que está ouvindo Roberto, seu Vilson?”

“Sou eu, você gosta?”

Depois de um mês e meio ouvindo mantras, kirtans e bhajans, Roberto Carlos foi totalmente bem-vindo.

“Eu amo Roberto, seu Vilson!”

“Então eu vou aumentar. Eu gosto muito também, todo sábado eu escuto.”

As Curvas da estrada de Santos começou a tocar mais alta, e eu também aumentei a voz e comecei a cantar, concentradíssima, enquanto varria as folhas secas do pátio.

Seu Vilson mora na pensão que fica parede com parede de onde estou morando. Ele vende frutas nas ruas de Porto Alegre, já me deu um monte de laranja do céu e duas bananas. “Ei, vou te dar dois celulares, quer?”, e estendeu as bananas pra mim. Depois, sorrindo sem os dentes da frente, bateu a ponta do dedo indicador na bochecha, pedindo um beijo. Dei.

“Ô menina, bom dia!”, eu ouço toda vez que saio pra rua, e “bom dia pro senhor também, seu Vilson”.

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PONTAL

1

A praia tem outro desenho e outras cores nesse sonho. Caminhávamos por um lado do pontal, era um pontal, e o dia estava muito bonito, agradável, a água estava clara e também o sol. Havia pouca gente ali e caminhávamos. A paisagem nos deixou silenciosos e concentrados, escolhemos com o olhar um espaço na areia para deixar as nossas coisas, deixamos as mochilas e sacolas ali, para caminhar ao longo do pontal, ao seu redor.

2

Podíamos deixar as coisas ali sem problemas – disso eu me lembro – e saímos despreocupados, mas solenes. Sorridentes e atentos. Passo a passo, até a ponta da praia, a ponta do pontal, eu disse sem pretensões e me arrependi, e a piada, palavra e palavra, fez sair um sorriso bobo, sem mais reações pois estávamos mesmo silenciosos, inebriados de sal. Ventava, o vento arrastava areia e calor e as poucas nuvens que estavam no céu. Andávamos e o vento em nossos corpos, em nossos cabelos, conduzindo a direção dos nossos passos para que fôssemos contra.

3

Nós somos duas pessoas: eu e você.

Eu sou uma mulher, você é um homem.

Nós temos uma relação de cumplicidade que parece muito longa.

É a primeira vez que caminhamos tanto.

Nosso silêncio não incomoda.

4

Começamos a curva para chegar ao outro lado do pontal. Eu andava um pouco à frente e você seguia. Às vezes eu virava o corpo, eu esticava o braço direito para tocar você um pouco. Você segurava a minha mão por alguns segundos e eu olhava para trás e sorria com timidez, sabendo que não deveria dizer ou fazer nada mais. Como se qualquer ruído fosse nos assustar, espantar a nossa concentração. Nós tínhamos de estar ali. Nós tínhamos de dar a volta pela praia para chegar ao outro lado do pontal, não era possível vê-lo, havia muitas rochas e vegetação fechada no centro, não era possível cortar caminho ou jamais ousaríamos. A paisagem daqui era exuberante, do outro lado também seria. Ainda mais. Vamos, até o outro lado.

5

Era exatamente como eu imaginei a Libéria quando você me contou sobre lá, sobre aquele país, com exceção dos montes de lixo queimando aqui na nossa praia, a fumaça espessa em alguns pontos. Chegamos ao outro lado do pontal e ali também tinha vento. Mais vento do que antes, o céu estava cinzento e era uma tempestade. A areia era extensa e dura, e em algumas partes parecia que havia chovido, a areia era molhada e batida, era escura. Tinha uma vegetação rasteira, insuficiente, gravetos, pequenos galhos e vidro, algas muito secas. Nós dois nos olhávamos sem entender ali fora, entendendo o olhar do outro. Você se aproximou e abraçou meus ombros, fui abraçada por você em silêncio.

Havia urubus e carniça na praia, dividindo a areia extensa, plana, rasa, com muitos banhistas em guarda-sóis diagonais, vozes. Tinha mais banhistas deste lado do pontal, muitos mais. Pessoas molhadas deitadas na areia molhada, trajes de banho pretos, cabelos pretos muito grossos, longos, estendidos, outra borda. As ondas deste lado eram finas linhas espumosas no chumbo, o mar era cinzento e seu movimento. O mar tinha um recuo enorme, como se tivéssemos de andar muito até molhar os pés ou como uma tragédia. O cheiro era metálico.

Era tudo muito feio, mas nós não dissemos “feio”. As pessoas pareciam escandalosamente felizes. As pessoas pareciam felizes e não compreendíamos – você me abraçou. Fui abraçada por você.

6

Havia uma mulher acompanhada de uma família grande, com muitos pertences, sacos plásticos e mochilas, pessoas deitadas na areia comiam biscoitos, e outras, as crianças – havia crianças – estavam agachadas brincando com utensílios de plástico coloridos, fôrmas, que acumulavam areia cinzenta nas dobras intocáveis e formavam pequenos montes disformes. Construíam figuras tortas. A mulher estava em pé, olhando fixo o horizonte com as mãos na parte de trás da cintura, quando o vento arrancou o guarda-sol da família do chão. Corri muito rápido e segurei o guarda-sol antes que ele atingisse uma criança, foi por muito pouco. Caminhei até a mulher, que agradeceu muitas vezes e sorriu aliviada, e a ensinei a colocar o guarda-sol bem preso na areia. Cavei um buraco fundo para ela, com as pontas dos dedos. Ela agradeceu novamente e respondi “imagina, agora está bem preso”.

(Urubus pretos sobrevoando guarda-sóis pretos, a areia muito escura, o cheiro de metal, pessoas satisfeitas.)

7

Você me abraçou de novo enquanto eu sorria meio boba, me afastando daquela mulher, daquela família. Você disse “muito bem”, e apontou algo, “olha ali o que eu encontrei”.

Você se afastou em passos largos, ainda não entendi. Você disse “deixa eu ver se a minha carteira ainda está aqui”.

Ali estavam as nossas coisas, exatamente como havíamos deixado. Do lado de lá. Lembro de ter achado estranho aquilo aqui. Aqui estava muito feio, carniça, urubus, vegetação rasteira, seca. Mas nossas coisas estavam ali e não questionamos, assim seria.

Resolvemos então sentar um pouco, para descansar e olhar o mar.