O parágrafo um: Reparação

A peça – para a qual Briony havia desenhado os cartazes, os programas e os ingressos, construído a bilheteria, a partir de um biombo dobrável deitado de lado, e forrado com papel crepom vermelho a caixa para guardar dinheiro – fora escrita por ela num furor criativo que durara dois dias e que a levara a perder um café da manhã e um almoço. Terminados todos os preparativos, só lhe restava contemplar o texto pronto e aguardar a vinda dos primos do Norte longínquo. Só haveria tempo para um dia de ensaios antes de seu irmão chegar. A peça, emocionante em alguns trechos, de uma tristeza desesperada em outros, era uma história do coração, cuja mensagem, expressa num prólogo rimado, era a de que todo amor que não fosse fundado no bom senso estava fadado ao fracasso. A paixão imprudente da heroína, Arabella, por um malvado conde estrangeiro é punida pelo infortúnio quando ela contrai cólera numa viagem impetuosa com seu amado a uma cidade costeira. Abandonada por ele e por praticamente todo mundo, acamada numa água-furtada, Arabella descobre que tem senso de humor. A fortuna lhe apresenta uma segunda oportunidade na pessoa de um médico sem dinheiro – o qual, na verdade, é um príncipe disfarçado, que optou por trabalhar para os pobres. Curada por ele, Arabella dessa vez faz uma escolha sensata e é recompensada pela reconciliação com a família e pelo casamento com o príncipe-médico ‘num dia primaveril de vento e sol.

Tradução de Paulo Henriques Britto, edição da Companhia das Letras.

O parágrafo um de “Reparação”, de Ian Mcewan, já apresenta a nós leitores a personalidade de Briony, uma das principais personagens do romance. Ao lermos sua dedicação e seu comando nos preparativos todos para a peça – que escreveu, produziu e fez todos os preparativos – encontramos sinais de sua personalidade imaginativa, mesquinha e manipuladora que fará a história toda acontecer.

No trecho “A peça…”, o narrador resume o seu próprio livro, revelando detalhes da história que virá a seguir e anunciando a importância da imaginação na concepção da trama. Também não tem como ignorar a doença de Arabella e o médico, já que as duas irmãs Tallis viram enfermeiras durante a Segunda Guerra Mundial.

Depois, na conclusão da história, é possível perceber o tom metalinguístico do romance, que se inicia falando de criação, com a peça, e termina nos surpreendendo com… Ok, sem spoilers.

O parágrafo um: Grandes esperanças

 
Sendo o sobrenome de meu pai Pirrip, e meu nome de batismo Philip, quando menino minhas tentativas de pronunciar os dois nomes não resultavam em nada mais longo nem mais explícito do que Pip. Por isso passei a denominar-me Pip, e assim vim a ser chamado.
Este é o parágrafo um de Grandes esperanças, romanção do Charles Dickens.
Vejam só: o narrador – o próprio personagem Philip Pirrip – já inicia sua trajetória apresentando-se e anunciando-se incompleto, “errado”, por não conseguir pronunciar seu nome todo corretamente. Sua definição no mundo e na vida surge na primeira página como uma tentativa infantil e vã.
 
De um jeito simples, numa construção singela, é possível identificar o que nos aguarda nas centenas de páginas que virão: a história da formação de um ser humano, suas tentativas e erros e a construção de sua identidade e integridade.
Tradução de Paulo Henriques Britto, edição da Penguin/Companhia.

O parágrafo um: Palmeiras selvagens

Alguns anos atrás, fiz um blog chamado “O parágrafo um”, em que eu copiava os primeiros parágrafos de romances. Comecei a fazer isso porque tive um professor na faculdade que nos repetia exaustivamente: “leiam o primeiro parágrafo. Releiam o primeiro parágrafo. Está tudo lá”.

Desde então, sempre, ao começar um novo romance ou conto, leio e releio o primeiro parágrafo. É um ritual. Tento depreender o máximo dele, às vezes decorá-lo. E é impressionante como – em alguns casos mais, outros menos, outros nada mesmo, aí não é impressionante – o autor retoma elementos ao longo da narrativa que dialogam com o trecho inicial.

Esses dias, cheia de inspiração, resolvi retomar a coleção. Vou deixar um espaço para ela aqui no blog (categoria “o parágrafo um”), e na página do Micro lá no Facebook.

Para hoje, a nossa singela inauguração, escolhi o começo de um dos livros que mais me marcaram na vida e que preciso e quero reler em breve.

Com vocês, o parágrafo um de Palmeiras selvagens, do William Faulkner.

 

A batida soou outra vez, ao mesmo tempo discreta e peremptória, enquanto o médico descia as escadas, o facho de luz da lanterna projetando-se à sua frente pela escada, manchada de marrom, do vestíbulo. Era uma casa de praia, embora tivesse dois andares, iluminada por lampiões de querosene – ou por um lampião de querosene, que sua mulher tinha levado para cima quando subiram depois do jantar. E o médico usava um camisolão de dormir, não um pijama, pela mesma razão que fumava cachimbo, coisa de que nunca conseguira e, sabia, nunca conseguiria gostar, entremeado aos charutos ocasionais que os pacientes lhe presenteavam entre um domingo e outro, quando fumava os três charutos que achava que podia comprar por conta própria, embora fosse proprietário da casa da praia e também da casa vizinha e da outra, moradia com eletricidade e paredes revestidas de gesso, no povoado, a quatro milhas de distância. Porque ele agora estava com quarenta e oito anos e tinha dezesseis e dezoito e vinte na época em que seu pai lhe dizia (e ele acreditava) que cigarros e pijamas eram coisas de almofadinhas e mulheres.

Tradução de Newton Goldman e Rodrigo Lacerda. Edição da Cosac Naify.