Cidades mortas

Capa da primeira edição.

Comecei a ler Cidades Mortas, livro de contos do Monteiro Lobato, por causa de uma obsessão com o Vale do Paraíba. Todas as vezes que visitei a região foi para subir/caminhar nas montanhas, e a visão de lá de cima é de tirar o fôlego: mares de morros ondulando e criando contrastes de tons de verde, luz e sombra, até onde não dá mais para ver. Descendo de lá do alto, os minúsculos centros das cidades encaixadas entre as montanhas, a névoa a partir de certo horário – um gelo, pouca gente na rua – e um silêncio difícil de encontrar nas cidades grandes.

Recentemente estava trabalhando em um livro sobre o Euclides da Cunha, contando da época em que ele viveu em Lorena, cidade do Vale do Paraíba, entre 1902 e 1903, e li uma menção ao livro de Lobato acompanhada de um trecho que me impressionou.

Cidades mortas é uma coleção de retratos. O autor vai apresentando, de conto em conto, curiosidades, costumes e características do lugar e da gente caipira do início do século 20, época de decadência da cultura cafeeira, que fez as cidades crescerem e prosperarem nas décadas anteriores. Às vezes em tom afetuoso, outras, indignado – em todas elas melancólico –, Monteiro Lobato critica o marasmo intelectual da época, o isolamento e a “falta de diálogo” das cidadezinhas com as grandes capitais.

Eu adoro descrições nos livros: de lugares, de pessoas, de objetos – ainda mais quando essas descrições trazem elementos surpreendentes, associações inusitadas e comparações bastante poéticas. Este livro é cheio delas. Separei alguns trechos para copiar aqui e convidar os leitores à viagem. Mas atenção, urbanoides: insistam. A leitura pode parecer sonolenta e repetitiva, porém esse é um ótimo lugar para se acomodar um pouco e observar a vista.

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“Pelas ruas ermas, onde o transeunte é raro, não matracoleja sequer uma carroça; de há muito, em matéria de rodas, se voltou aos rodízios desse rechinante símbolo do viver colonial – o carro de boi. Erguem-se por ali soberbos casarões apalaçados, de dois e três andares, sólidos como fortalezas, tudo pedra, cal e cabiúna; casarões que lembram ossaturas de megatérios donde as carnes, o sangue, a vida para sempre refugiram.” – Cidades mortas, 1906

“Não há na cidade exangue nem pedreiros, nem carapinas; fizeram-se estes remendões; aqueles, meros demolidores – tanto vai da última construção. A tarefa se lhes resume em especar muros que deitam ventres, escorar paredes rachadas e remenda-las mal e mal. Um dia metem abaixo as telhas: sempre vale trinta mil-réis o milheiro – e fica à inclemência do tempo o encargo de aluir o resto.” – Cidades mortas, 1906

“Os ricos são dois ou três forretas, coronéis da Briosa, com cem apólices a render no Rio; e os sinecuristas acarrapatados ao orçamento: juiz, coletor, delegado. O resto é a ‘mob’: velhos mestiços de miserável descendência, roídos de opilação e álcool; famílias decaídas, a viverem misteriosamente umas, outras à custa do parco auxílio enviado de fora por um filho mais audacioso que emigrou. ‘Boa gente’, que vive de aparas.” – Cidades mortas, 1906

“Toda a ligação com o mundo se resume no cordão umbilical do correio – magro estafeta bifurcado em pontiagudas éguas pisadas, em eterno ir-e-vir com duas malas postais à garupa, murchas como figos secos.” – Cidades mortas, 1906

“As fazendas são Escoriais de soberbo aspecto vistas de longe, entristecedoras quando se lhes chega ao pé. Ladeando a Casa-Grande, senzalas vazias e terreiros de pedra com viçosas guanxumas nos interstícios. O dono está ausente. Mora no Rio, em São Paulo, na Europa. Cafezais extintos. Agregados dispersos. Subsistem unicamente, como lagartixas na pedra, um pugilo de caboclos opilados, de esclerótica biliosa, inermes, incapazes de fecundar a terra, incapazes de abandonar a querência, verdadeiros vegetais de carne que não florescem nem frutificam – a fauna cadavérica de última fase a roer os derradeiros capões de café escondidos nos grotões.” – Cidades mortas, 1906

“Atraídos pelas terras novas, de feracidade sedutora, abandonaram-na seus filhos; só permaneceram os de vontade anemiada, débeis, faquiranos. ‘Mesmeiros’, que todos os dias fazem as mesmas coisas, dormem o mesmo sono, sonham os mesmos sonhos, comem as mesmas comidas, comentam os mesmos assuntos, esperam o mesmo correio, gabam a passada prosperidade, lamuriam do presente e pitam – pitam longos cigarrões de palha, matadores do tempo.” – A vida em Oblivion, 1908

“Um coronel inglês suicidou-se ‘tired of buttoning and unbuttoning’ – cansado de abotoar e desabotoar a farda.

A vida em Oblivion é um perpétuo ‘buttoning and unbuttoning’ que não desfecha no suicídio.

Salvam-na a botica e o jogo. A botica, porque nela há uma sessão permanente de mexerico, e o mexerico é a ambrosia dos lugarejos pobres. E o jogo, porque quem perdeu não pode suicidar-se antes da desforra, e quem ganhou vai alegre, a cantarolar que afinal de contas a vida é boa. Dessa forma escapam todos ao cansaço da mesmice.” – Vidinha ociosa, 1908

“O encanto de tudo aquilo, porém, estava morto, tanto é certo que a beleza das coisas reside nelas senão na gente.” – Cavalinhos, 1900

“Quem dobra o morro da Samambaia, com a vista saturada pela verdura monótona, espairece na Grota Funda ao dar de chapa com uma sitioca pitoresca. E passa levando nos olhos a impressão daquela sépia afogada em campo verde: casebre de palha, terreirinho de chão limpo, mastro de Santo Antônio com os desenhos já escorridos pela chuva e a bandeira rota e trapejante ao vento. Dois mamoeiros no quintal apinhados de frutos; canteiros de esporinhas com periquito em redor e manjericões entreverados. Um pé de girassol, magro e desenxabido, a sopesar no alto a rodela cor de canário; laranjeiras semimortas sob o toucado da erva-de-passarinho.” – Pedro Pichorra, 1910

“A grande preocupação de todos é matar o tempo. Matam-no os homens, pitando cigarrões de palha, e as mulheres, gestando a prole enfermiça. E assim escorregam-se para o Nirvana os dias, os meses, os anos, como lesmas de Cronos, deixando nas memórias um rastilho dúbio que rapidamente se extingue.” – Júri na roça, 1909

 

 

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