Como estar perdido

“A culpa é sua, Thiago. Se você não tivesse caído, a gente não tinha se perdido!”

“A culpa é do meu patinete!”

“Thiago, agora nós estamos perdidos… Não, não, não, eu não lembro de termos passado por aqui! E agora, Thiago?”

“Não sei!”

Os dois irmãos, um de uns 8 anos, outro de uns 6, chegaram com seus patinetes em volta da nossa base, lá na Usp, em uma manhã de sábado. Muito assustado, o mais velho não parava de gritar com o menor.

“Se você não tivesse caído, a gente ainda ia estar junto com a Bel! Thiago, o que a gente vai fazer agora? Eu não sei onde a gente está! Perdidos, perdidos! Nós estamos perdidos!”

“Calma, a gente vai achar eles…”

“Thiago, a gente não passou por aqui, eu sei que não! Eu não lembro daqui!”

Eu estava observando de longe e ficando aflita, e resolvi ir ajudar os meninos. O mais velho estava impaciente, andando em passinhos curtos de um lado pro outro, virando a cabeça para tentar descobrir de onde veio ou para onde devia ir. Thiago começou a subir numa árvore. Me aproximei.

“Oi, tudo bem? Vocês precisam de ajuda?”

“Foi o Thiago. A gente estava andando tudo junto, com a Bel. Daí o Thiago caiu e eu esperei ele. Daí a Bel sumiu, todo mundo sumiu, e agora nós estamos perdidos!”

“Ainda bem que você esperou ele! Imagina se você não tivesse esperado, ele teria ficado perdido ali, sozinho.”

“…”

“Pelo menos vocês estão perdidos juntos!”

“Mas agora a gente precisa achar todo mundo!”

“Eu posso ajudar vocês. A gente pode ir procurar seu pai juntos, que tal?”

“Tá… tá bom. Mas quando a gente encontrar meu pai, você vai ter que sair correndo!”

“Por que sair correndo? Ele disse para vocês não falarem com ninguém estranho?”

O menino ficou parado, me olhando. Muitas crianças me olham assustadas, acho que por causa dos meus braços tatuados – muitos adultos também, na verdade. Não sei se ele achou estranho demais, se ele não queria que o pai soubesse que estiveram perdidos ou que falaram com estranhos. Thiago já brincava de subir e descer nos galhos das árvores, bem despreocupado. Depois de pensar um pouco, ele respondeu:

“Não, não precisa. Deixa pra lá.”

“Olha, então deixa eu te explicar. Ali no meio tem uma praça com várias ruazinhas iguais a essa. Vocês devem ter entrado na rua errada. Podem tentar voltar ali para o meio e ver de onde saíram.”

“Tá, boa ideia! Vamos por ali.”

Thiago estava trepado na árvore, subindo e explorando os galhos. De vez em quando passava as costas da mão na testa, para limpar o suor. Parecia achar muito divertido estar perdido. Com a mãozinha fazia sombra nos olhos, como se estivesse olhando lá longe, para achar o caminho.

“Thiago, vamos. Já sei o que podemos fazer”, ordenou o irmão, com voz grave e firme.

O mais novo obedeceu quietinho, desceu da árvore, bateu as mãos nas pernas pra limpar, levantou o patinete do chão e se preparou para partir.

“Você tem certeza que não quer que eu vá junto?”

“Sim, eu já sei, eu já sei. Nós vamos por ali.”

“Olha… Se vocês forem pra lá e não acharem, voltem pra cá que eu vou junto com vocês. Tá bom?”

“Tá bom. Vamos, Thiago.”

*

Nas horas seguintes, fiquei pensando que foi meio irresponsável deixar aqueles dois soltos por ali. Mas logo fiquei sabendo que eles haviam encontrado o pai, que estava bem perto, e me tranquilizei.

Fiquei pensando na sensação dos dois, soltos na Cidade Universitária – um mundo, se você tem 8 anos –, sem adultos responsáveis por perto. Tentei lembrar de como era sentir isso, quando criança. Pensei no susto do irmão mais velho e na calma do Thiago, que nem chorou quando caiu ou quando se perdeu, e nem bateu de frente com o outro, mesmo com as provocações dele.

Observando a reação dos dois, pensei que existem dois tipos de pessoas nesse mundo: as que ficam desesperadas e as que se afastam, sobem numa árvore e ficam quietas para tentar enxergar melhor.

Eu jamais pensaria em subir numa árvore.

😉

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