Contatos tardios de primeiro grau

Além de me fazer comer pizza toda semana e dormir até mais tarde, meu namorado conseguiu despertar o meu interesse em ficção científica. Não foi tão difícil, já que ele adora o assunto e sabe tudo sobre alienígenas, armas, robôs, teorias da conspiração, viagens no tempo e inteligência artificial. É encantador ouvi-lo falar, e ele responde a todas as minhas perguntas. Esse foi um dos motivos por que me apaixonei: desde os nossos primeiros encontros soube que, no caso de um apocalipse zumbi ou de uma invasão alienígena, só ele poderia me defender.

Ele também tem toda a paciência do mundo para me ajudar a tapar a minha vala cinematográfica. Foi só neste 2019 que assisti Matrix pela primeira vez, Exterminador do Futuro (1 e 2), Star Wars — ainda não completei a sequência —, e vários outros, que ele já está lá pela décima assistida. Faltam muitos filmes para completar a lista, mas estou me empenhando. Preciso saber ao menos parte do que ele sabe para não ser um peso morto e poder ajudá-lo se a situação ficar crítica.

Depois de assistir aos filmes comigo, ele passa por um questionário impressionado e precisa, ainda, lidar com o meu medo do futuro, pois me convenço plenamente de que tudo o que assistimos na tela irá acontecer muito em breve — se já não acontece longe de nossos olhos ordinários. Não tenho a menor dúvida quanto à existência da Matrix e tenho muitas dúvidas sobre maternidade, pois não quero que meus filhos sejam escravos de robôs ou que virem contrabandistas para tentarem sobreviver sem mim, uma reles humana sem habilidades siderúrgicas que, imprestável, irá para a masmorra assim que as máquinas dominarem o mundo.

Ao assistir aos Contatos Imediatos de Terceiro Grau entendi que Steven Spielberg só pode ser um enviado com a missão de preparar a humanidade para que o choque não seja tão intenso, que o contato seja o mais amigável possível e não fiquemos em pânico quando nossos eletrodomésticos começarem a falhar e apitar convulsivamente, quando nossos pets e crianças forem capturados por raios incandescentes durante as férias no acampamento ou quando os robôs começarem a trazer as nossas encomendas. Daí até nos expulsarem de casa… são dois palitos. Quem duvidar que acesse o canal da Boston Dynamics no YouTube e assista ao vídeo “More Parkour Atlas”. Aquilo lá pode, sim senhores, invadir a sua casa e se apossar do seu controle remoto, prilcipalmente se você chamá-lo de “aquilo”.

Precisamos rever a nossa lista de prioridades. Deixar de lado o blablablá das redes sociais, as mensagens motivacionais e iniciar já, agora, pra ontem a construção de abrigos subterrâneos. Resolvi começar a ler ficção científica para entender o que irá acontecer e o que devo fazer… Comecei lá no Jules Verne e espero que dê tempo de chegar ao Asimov. Também acabo de me inscrever num curso básico de mecânica e elétrica e há semanas estou treinando para fazer barra fixa como a Sarah Connor. Quando os robôs investirem contra nós para nos escravizar, preciso ser útil em alguma coisa ou estar treinada para a fuga. Não sei se gostarão de ler ou não, mas os tradutores certamente serão descartados sem dó. Outra certeza é que teremos de lutar com as nossas próprias forças, ainda é cedo para saber se poderemos contar com a compaixão alienígena para nos libertar.

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