Desvios de percurso – Verão

 

Em dezembro do ano passado havia decidido fazer uma lista mês a mês com as leituras para este ano de 2017. Organizei a lista pensando não apenas nos autores que queria ler, mas também em uma ordem lógica, em que a leitura de um romance favorecesse a leitura do livro de ensaios que viria em seguida, que dialogaria organicamente com um novo romance ou o diário do autor do mês.

Havia, na lista inicial – já vejam que a lista foi desobedecida –, grandes exemplares da literatura mundial, clássicos para reler prestando atenção nisto e anotando aquilo, ou para fazer uma leitura comparada com outro clássico.

Comecei janeiro animadíssima. Numa mão, Madame Bovary; na outra, A Orgia Perpétua, do Mario Vargas Llosa – livro em que o autor faz uma leitura e análise do clássico de Flaubert com um toque pessoal que nos aproxima e encanta logo na introdução, enquanto ele explica sua relação com Emma Bovary, seu primeiro contato e as diversas maneiras como se reaproximou da obra e de seus personagens emblemáticos.

Vargas Llosa é tão atraente em sua introdução que parei nestas duas páginas – e no primeiro capítulo – por duas semanas, lendo, relendo, grifando, copiando. Ao mesmo tempo, seguia com Madame Bovary achando muito enfadonha a apresentação de Charles, logo no início. Passei me arrastando e, ao mesmo tempo, fazendo um grande esforço para me manter atenta (nas páginas que gostaria de pular) e não perder nenhum traço de genialidade.

Dia sim, levava Flaubert na bolsa, dia não, era a vez de Vargas Llosa.

Mas janeiro passava, a leitura seguia lenta e fazia aquele calor insuportável que impede a gente de prestar atenção em uma mesma coisa por 15 minutos seguidos. Involuntariamente me afastei de Flaubert e Vargas Llosa, procurando algum sentido para esta vidinha, em que não era possível, para mim, contemplar um clássico da maneira como ele merece (sintam o drama).

*

Girando o dedo no mouse certo dia, facebook a todo vapor, li um texto doce e sincero de uma amiga sobre Sleepless in Seatle (Sintonia de Amor, aqui), comédia romântica de Nora Ephron com Meg Ryan e Tom Hanks. “Preciso assistir esse filme”, pensei, lembrando que é também de Nora o roteiro de When Harry met Sally (Harry e Sally – Feitos um para o outro), com a mesma Meg Ryan e Billy Cristal.

Nesse dia assisti Harry e Sally, e passei um tempão amando o filme e me perguntando por que não havia assistido antes – já que em praticamente todos os cursos e oficinas de roteiro que fiz nesta vida os professores comentavam. Simplesmente adorei. Adorei o filme, Meg Ryan, o drama, tudo. Anotei trechos de diálogos, fiz uma pastinha das cenas que mais gostei, publiquei uma delas no facebook e nessa postagem outra amiga me trouxe o que posso chamar de obsessão de verão, ou I Feel Bad About my Neck – and other thoughts on being a woman.

Este é o título de um dos livros de Nora Ephron (traduzido como Meu pescoço é um horror, publicado pela Rocco), que comecei a ler (e terminei) no começo de fevereiro – para desespero do meu “eu intelectual”, que estava aflito em busca dos Grandes Mestres.

Com alguma dor no coração, deixei Flaubert de lado para que descansássemos um pouco de nós, e em cima do exemplar de Madame Bovary ficou o de Vargas Llosa, também resignado, ao ver que não seriam ele ou o francês, mas Nora, que me acompanharia naquele dia, e no outro, e no outro, e no seguinte.

Simplesmente colei os olhos em I Feel Bad…. Não conseguia largar o livro ou fechá-lo antes de terminar uma crônica ou um parágrafo que fosse. Perdi o ponto do ônibus certa vez, e outra vez assustei o cobrador com uma gargalhada histérica.

O livro de Nora Ephron é gracioso e encantador. Ao longo de 140 páginas e 15 crônicas a autora passeia por particularidades do universo feminino com um olhar peculiar e humor agridoce. Nora fala sobre os serviços femininos de manutenção e sobre receitas culinárias do coração. Fala da relação de amor que podemos construir com lugares ao longo do tempo e da dificuldade de manter uma bolsa em ordem.

As leitoras (duvido que algum leitor passe da página 10), ao avançarem nas páginas, sentem-se cada vez mais próximas de Nora e a tomam como uma velha amiga, sentada numa mesa ao ar livre com uma taça de vinho branco para uma tarde sem compromissos, lembrando apenas de detalhes totalmente esquecíveis do nosso cotidiano e encontrando neles, exatamente, as faíscas de beleza e de graça da vida.

Rapidinho terminei o livro de Nora. Pesquisei com determinação sua bibliografia, fui rever Harry e Sally, assisti Sleepless in Seatle (que coisa mais linda, ri e chorei demais) e me dediquei a uma nova lista, a Obsessão Nora, com tudo o que ainda tenho para ver e ler dela.

*

Fevereiro acabou. O calor, que mexe com a concentração de qualquer ser humano sob o sol, persiste. Neste exato momento Vargas Llosa me encara da estante. Sei que ele pôde ler o que acabo de escrever aqui. Porém, só pelo primeiro capítulo dA Orgia Perpétua, estou certa de que ele entende perfeitamente o que é uma obsessão.

Ontem tirei Madame Bovary da estante. Eu havia interrompido a leitura justo no final da primeira parte, quando Emma e Charles estão de mudança para Yonville-l’Abbaye. Não lembrava desse momento e fiquei impressionada: reli, reli e anotei a cena em que Emma atira no fogo seu buquê de casamento. Começo a segunda parte junto com o mês de março.

Como Vargas Llosa, já tenho uma história pessoal sobre a minha reaproximação do clássico francês, sobre como me apaixonei por Emma depois de me apaixonar perdidamente por uma jovem senhora nova-iorquina angustiada com as marcas do tempo em seu pescoço. Depois desse breve desvio de percurso, creio que é possível voltar ao clássico com um novo ânimo. Em caso de fracasso eminente, Obsessão Nora está esperando por mim.

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