Efeito Soprano

Tenho falado muito palavrão. Assaltado a geladeira com certa frequência, batendo a porta em seguida, e segurado meus impulsos para não quebrar objetos na cabeça das pessoas. Tenho usado as palavras fuck e Jesus (leia em inglês) dezenas de vezes por dia para manifestar a minha surpresa, susto, raiva, indignação. Nos últimos meses, graças a circunstâncias que fugiram do meu controle, tive o privilégio de passar alguma (boa) parte dos meus dias enfurnada para assistir à série que me fez ver o mundo de uma maneira totalmente nova. E permitiu o meu aperfeiçoamento na arte de negociar.

Não vejo mais os açougues e lavanderias do meu bairro com os mesmos olhos. Com certeza, nos fundos de alguns deles há escritórios onde os membros da famiglia fazem seus acertos e reuniões de negócios. Também não acredito que homens dentro de carros estacionados esperem de fato por alguém, inocentemente. Estão, é claro, aguardando pagamentos, as suas partes — tenho ficado atenta a esses tipos nos estacionamentos de shoppings, supermercados e afins — , ou seguindo algum devedor, que em breve encontrará seu triste fim. Direcionei a minha mania de observação aos homens de anéis no mindinho e me escondo atrás do livro, ou das prateleiras, para espionar se um deles passa um envelope branco ao outro, por cima ou por baixo da mesa dos cafés, entre os corredores. Ainda mais se é segunda ou quinta-feira, dia seguinte dos grandes jogos de futebol. Todos os caminhões de lixo levam armas no porta-luvas. E atrás dos tapumes dos empreendimentos imobiliários por subir posso ver um grupo de homens bem-vestidos sentados em roda, destoando dos demais trabalhadores, a descansar e matar o tempo fiscalizando o mínimo movimento, fazendo maldosas piadas entre si.

Estou convencida de que treino na mesma academia da versão tupiniquim de Carmela Soprano, Rosalie Aprile e Gabriella Dante. As três não se desgrudam nem durante os treinos, conversam o tempo todo, às vezes sussurram e certamente saem de lá diretamente para um bufê rico de café da manhã ou para um dia da beleza no spa. Têm unhas imensas.

Ando pelas ruas procurando lugares adequados para se desovar cadáveres. Imagino se alguém enterrou as partes no pântano que fica no meio da pista de cooper do Museu do Ipiranga, no meio da noite, ou mesmo se já houve casos de corpos lançados em sacos pretos cheios de pedras no rio Tamanduateí — é certo que sim, mas esses devem ser locais já em desuso, visados e tão óbvios. Fico à espreita nas entradas de restaurantes para ver qual seria o Vesuviodaqui das redondezas e já encontrei uma fachada que, incontestavelmente, abriga um Bada Bing! paulistano.

Estou na contagem regressiva de episódios para terminar de assistir à série. Sofro. Quero, mas não quero saber o final. Sei que assistirei novamente, no futuro, porque sei que não vai ser fácil gostar de nada que eu assistir depois. Não consigo, mesmo já nesse presente, avançar a leitura de livro algum: todo o meu tempo livre é dedicado a Tony Soprano — sua rotunda onipresença, sua exclusividade exigente. Tenho certeza que vi um Tony Soprano no meu bairro, dia desses, saindo do Fran’s Café em seu Cherokee blindado. Noutra noite, sonhei que fui ao chá de bebê de um conhecido acompanhada de Silvio Dante e Paul Gualtieri. Todos olharam, assustados, sabendo que fora eu que colocara aqueles senhores esquisitos na festinha azul-bebê. Paulie, envergonhando-me imensamente, saiu do banheiro com o rosto molhado e o secou na toalha de mesa. Nota mental: não esquecer de contar esse sonho à Dra. Melfi na próxima sessão.

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