plano baixo fotos

Capítulo 1 | Capítulo 2 | Capítulo 3 | Capítulo 4 | Capítulo 5 | Capítulo 6 | Capítulo 7 | Capítulo 8 | Capítulo 9 | Capítulo 10 | Capítulo 11 | Capítulo 12 | Capítulo 13 | Capítulo 14

CAPÍTULO 1 : ERAMIR

Depois de caminhar com passinhos apressados por muitos quarteirões, tropeçando na caixa de engraxate presa sob o braço esquerdo – os objetos batendo ruidosamente ali dentro –, e de passar na lanchonete vizinha para engolir um salgado e um suco, Eramir chegou à porta do Ed. Acapulco, na Avenida Amaral Gurgel, perto do metrô Marechal. Afobado, esbaforido, subiu os degraus debatendo-se nas paredes e apressou-se para o fim do corredor, onde, na penúltima porta, ficava o seu quartinho.

Chutou anarquicamente os sapatos pelo chão do cubículo e saltou sobre a cama com alívio, os pezinhos baloiçando, quase tocando o chão. Eramir trazia na mochila um tesouro: o envelope com as trinta e seis fotografias de seu primeiro filme. As primeiras fotos pelas ruas do Centro de São Paulo feitas com a câmera nova.

*

Eramir passou três meses economizando com diligência para comprar a câmera usada que vira no estúdio de Alaor, seu vizinho no Acapulco. Alaor tinha uma pequena loja na Praça da Sé, com uma sala nos fundos para atender transeuntes que precisavam de 3×4 para seus documentos. Foi ali que Eramir descobriu sua paixão tardia pela fotografia.

“Tem foto minha rodando o mundo, Êra!”, Alaor costumava dizer, dando tapinhas nas costas de um maravilhado Eramir. “É CNH, é passaporte, é RG…”

Todas as manhãs, Eramir montava sua caixinha na Praça Dom José Gaspar para pegar os trabalhadores no horário de entrada. Passava as primeiras horas do dia a engraxar e engraxar. Tinha certa fama por ali, uma clientela fiel, e a fila constante com grupinhos de espera à sua volta também atraía novos negócios. Quando o movimento acalmava, normalmente um pouco depois do almoço, saía da Dom José e corria para ajudar Alaor entregando panfletos da loja e conduzindo o povo até o balcão de vidro do amigo. 

Foi nesse balcão que ficou frente a frente, olhos nos olhos, com a sua belezura.

“Chegou hoje de manhã. Fiz um rolo com um conhecido. Vamos ver se vende… É uma boa analógica”, explicou Alaor com a voz de sempre.

“Eita linda! Essa é porreta! Ala, vou comprar essa câmera aí, você não me venda ela pra ninguém.”

Alaor sorriu condescendente e conduziu mais um cliente ao fundo da loja.

*

As mãozinhas cuidadosas de Eramir (mindinhos elevados) abriram o envelope com todo o cuidado e tiraram de dentro, como uma joia, o maço de fotografias. Uma a uma, o fotógrafo contemplava suas criações e observava impressionado seu próprio olhar sobre o Centro de São Paulo. 

Raízes que rompiam calçadas; objetos abandonados no meio-fio; a vasta fauna e flora dos canteiros; os passos decididos dos pombos; pneus de ônibus em close; cinzeiros abandonados; a profundidade das maçanetas; o silêncio dos bueiros; cinturas-para-baixo de pedestres que aguardavam o sinal para atravessar — e tudo mais que pôde capturar do topo de seu metro e quarenta.

Colocando as imagens lado a lado no piso frio, admirava e analisava como um crítico, indicador no queixo, a sua primeira coleção. Foi quando algo em uma das fotografias atraiu a sua atenção. Dois pontos vermelhos escarlates, em destaque num cantinho direito. Debruçou-se e segurou a fotografia, identificando um par de sapatos vermelhos sob panturrilhas redondinhas, as pernas meio cruzadas como se acabassem de decidir o passo. Não era possível enxergar os joelhos, cobertos por um tecido cor-de-rosa claro, e foi isso mesmo — a sugestão, o mistério — que não o deixou respirar por alguns segundos. 

Correu o olhar ofegante entre as outras fotos para ver se havia capturado algo mais daqueles sapatos, daquelas pernas, daqueles joelhos — daquela criatura. Nada. Eramir pendurou a foto ao lado de sua cama e perdeu o sono.


CAPÍTULO 2: NOITE EM CLARO

Mesmo já tendo visto tantos e tantos sapatos, tendo abraçado tantas canelas e apertado lá umas quantas panturrilhas em marcha pela praça, jamais vira aquele par antes. A fotografia estava borrada — a única certeza eram os saltos vermelhos. Era como se o mundo tivesse acelerado de repente, uma guinada, e os pés tivessem conseguido se manter intactos. Eramir tentou se lembrar de semanas atrás, do dia em que se dera folga (era o seu próprio patrão) e saíra para fotografar aquele primeiro filme, presente do Alaor — sua primeira caixinha, brinde que veio com a câmera. Noite adentro, ardendo em febre, tentou refazer seus passos mentalmente por aquele ambiente que conhecia tão bem. Caminhava ao redor de seu quarto, olhos ora abertos, ora fechados, tentando lembrar se já havia tido qualquer visão parecida.

“A câmera me atrapalhou de ver”, pensava, e logo corrigia-se, pois, não fosse a câmera, ele jamais teria capturado aquele passo misterioso em meio à multidão.

De casa na Amaral Gurgel saiu primeiro na direção do Arouche. Era bem cedo de manhã. Essa princesa jamais estaria no Arouche naquela hora. Ou estaria? O que estaria fazendo ali? Não estaria ali. Pegou a Vieira de Carvalho reto até a Praça da República. “Foi isso. Queria tirar foto da República. Fiquei lá um tempão. Quase o dia todo. Encontrei o Vitrola. Mostrei a câmera. Ele achou da hora e pediu para eu tirar uma foto dele. Expliquei que não dava. Depois encontrei o Ostrinha e escondi a câmera. Complicado o Ostrinha” (ia lembrando e se atrapalhando nos passinhos no escuro, os braços em movimento como se orientassem o trânsito). Saiu da Praça da República e foi até a Dom José Gaspar, a sua praça, porque queria vê-la de perto. “De lentes, de lentes na minha Dom José.” Gastou algumas poses por lá, pés das cadeiras na cachaçaria do Rancho, o caminho cimentado entre as árvores, o parapeito dos canteiros. A entrada da biblioteca.

“Só pode ter sido na Dom José. Mas onde, na Dom José? Que horas, na Dom José? Quando, na Dom José? Será que era mesmo a Dom José? Quem foi Dom José?” Eramir lembrou então que passou também pelo Municipal, Viaduto do Chá, Vale do Anhangabaú e Praça do Patriarca. Rua Direita. “Sé, para terminar lá no Alaor. Terminei no Alaor? O Alaor estava lá? Era dia útil? Aquele mundo de gente na rua? A loja estava aberta? O que fiz para merecer isso?”

Eramir suava e pensava, estapeava-se para lembrar. Rastejava mentalmente atrás do rastro daqueles passos vermelhos, de qualquer mínima pista de seu paradeiro.

*

Eramir acordou sobre a sua poça de baba, no limiar da escada, na entrada do Ed. Acapulco. Além da mancha escura e úmida no assoalho, viu o pé direito de Dona Guiomar batendo nervoso à frente de seu rosto. O som de cada batida reverberava, e Eramir sentia cada pontada em seu ouvido esquerdo.

— Eita, Êra. Que foi que houve, homem?

Subiu os olhos pelos tornozelos de Dona Guiomar, por suas canelas trêmulas. Chegou aos joelhos enormes, semicobertos pelo vestido de viscose. Lá no alto, a cabeça redonda de Dona Guiomar e seus olhos de coruja.

— Se mexe, homem! Vou abrir a porta já! E o café está quase pronto. Que foi que aconteceu, hein, disgramado? — Ela dizia, agachando-se para tatear Eramir, tentando puxá-lo para cima. — Vaaaai, Eramiiiir. Levanta, meu!

— Já vou, Dona Guio.

— Olha aí, me babou tudo no chão!

— Pode deixar que eu limpo, Guio.

— Ah, não me venha com eu limpo, eu limpo… Sai daqui, vai se arrumar, Êra. Você tá vindo com a baba e eu já volto com o rodo. Há-há-há.

O quarto estava uma zona. Fotografias espalhadas, os lençóis amarrotados num canto, objetos largados pelo chão. Os olhos inchados de Eramir olhavam perplexos aquela a bagunça enquanto seu cérebro tentava se lembrar de como tudo aconteceu, de como fora parar, deitado, escada abaixo, na entrada do prédio. Procurou a fotografia dos sapatos vermelhos e não encontrou, levantou colchão, criado-mudo, mexeu em tudo, e nada.

Refez o caminho até a porta do prédio já escancarada para a rua. Assustou-se com a arrancada do ônibus na sua cara. Nem sinal dos tornozelos. O cheiro de café se alastrava nos corredores. Eramir resignou-se e caminhou até a cozinha.

Os dias no Acapulco começavam com o café de Dona Guiomar. A senhora, de seus cinquenta e poucos anos, tocava a pensão desde o falecimento do esposo Roberto, o antigo zelador. Caminhava barulhenta pelos corredores cuidando de manter a ordem na área comum que integrava os seis quartos, ao longo do imenso corredor, dois banheiros, cozinha e área de serviço — limpar os quartos dos seus meninos, como ela chamava os inquilinos só se estivesse de muito bom humor. O que era raríssimo: “cada um com seu cada um”, dizia, abanando as mãos ao lado das orelhas, tsc, tsc.

Gostava de ver os inquilinos aproveitando as refeições, palitando os dentes e cheirando com vontade o ar do ambiente na hora de cada refeição e no fim do dia, após a lida. Assim que o primeiro entrava na cozinha para tomar café, Guiomar se plantava ao lado da pia para receber um elogio. E dia a dia eles se repetiam, os mesmos de ontem.

Nesta manhã Eramir chegou depois de todos, que já estavam de saída.

— Me atrasei, velha Guio! — gritou, puxando a cadeira e fatiando com pressa o pão branco e murcho, “barriga de Guio”.

— Mas que foi que houve, foi?

— Não sei. Devo ter sonhado, isso sim.

— Sonhado que era um jacaré. Cê é doido, Êra.

Ele molhava o pão-barriga no café com leite açucarado e dava grandes mordidas. 

— Você não viu uma fotografia por aí, não, Dona Guio? Ali no chão, quando levantei?

— Vi não… Perdeu?

— É… bobagem. Se encontrar, me avise — mordiscou um miolito.

O café da manhã foi interrompido por passos.

— Será que ouvi direito? Por acaso nosso meninão perdeu… ahm… Uma fo-to-gra-fia? — Quem entrava na cozinha era Joyce, filha mais nova de Dona Guio. Abanava a fotografia do anão no ar, pisando forte com suas sandálias de salto.

— Joycê, não comece não — baliu Dona Guio.

— É minha sim, Joyce. Pode me devolver, fazendo o obséquio?

— Vem pega-aaar — provocou a moça. Mão esquerda na cintura, esticou o braço direito lá para o teto. Era uma girafa, a Joyce.

— Afe, Joyce, como você é infantil. 

— Liga não, Êra. Joyce tem idade mental de doze anos. Falo porque conheço.

— Faz alguma coisa, Dona Guio! — Eramir pulava de um lado para o outro tentando alcançar o braço da moça. 

— Faz o quê, meu filho? Cê é homem, já. Te vira!

— Me dá a minha foto, Joycê.

Joyce ria e trocava a foto de mão, lá no alto.

— Estou tentando entender aqui — recomeçou a moça, olhando a foto lá longe — por que é que você quer uma foto tão horrorosa. Essa ficou feia, hein, artista?! Não dá pra ver lhufas!

— Tá feia, tá feia sim, Joyce. Tá horrível essa foto. Me devolve, então. Me dá aqui essa coisa feia! — Eramir dava seus pulinhos e não conseguia sequer alcançar o cotovelo da moça.

— Eu acho que a gente tem que rasgar isso aqui! Ou… Oh! — Joyce pegou um isqueiro do bolso e arregalou os olhos para Eramir.

— Não! Não! Não! Me dá aqui, meu! — O homem se exaltava, a veia saltava-lhe no pescoço. A voz oscilava entre choro e raiva.

— Ai, Êra, você é muito engraçado mesmo. Toma, vai, pega aqui — cedeu, colocando a foto dentro do decote. — Agora é moleza — deu uma piscadela. — Pode pegar, vem.

Eramir esticou o bracinho, e, polegar e indicador, puxou rapidamente a foto. Limpou aquele pedaço de papel. Abraçou aquele pedaço de papel. Amou aquele pedaço de papel. Os sapatos, tornozelos, panturrilhas, ainda estavam ali. Amassados, assustados, mas ali.


CAPÍTULO 3 : PRIMEIRAS NOTAS SOBRE FOTOGRAFIA

Xoxo, café com leite na garganta, Eramir caminhou para mais um dia de trabalho. A foto ia no bolso esquerdo da camisa, sua caixa, sob o braço direito. Farejando as calçadas a caminho da praça atrás daquele par de sapatos mal olhava para a frente e a cabeça pesava, maldormida, sobre o pescoço retrátil.

Alguns clientes habituais já o aguardavam em seu ponto: “Vamos, Êra, por que demorou tanto hoje? Temos hora, meu rapaz”, dizia um, com o indicador direito batendo no pulso esquerdo. Eramir só conseguiu se apressar. Retirou os itens da caixa e montou os materiais, balbuciando desculpas e golpeando o ar.

Engraxou com fúria os sapatos dos que já o aguardavam, e durante uma breve pausa tirou do bolso a fotografia. Colocou-a diante dos olhos e foi afastando o papel, esticando os braços e girando o corpo para tentar identificar o borrão da imagem nas cores da praça. Podia ser ali, ali ou ali, mas era mesmo a Dom José Gaspar. Ele estava perto, podia sentir. Beijou sua joia e a guardou de volta. 

Vieram mais clientes — essa hora antes do almoço era produtiva. O sol brilhava refletido no couro dos sapatos, quase espelhos depois dos serviços de Eramir. O homem suava em seu esforço contínuo, pares e pares, couro preto, couro marrom, couro marfim, escovinha, obrigada, próximo! E ao voltar o olhar com mais atenção para o par que acabara de sentar, não pôde acreditar: couro vermelho. Ela veio, escutou o seu chamado. Estava sentada à sua frente, estendera-lhe os pés. Ele olhou e piscou para ter certeza de que eram eles e continuavam ali, altos, vermelhos. Calculou atordoado, pensando como faria para engraxar aqueles modelos femininos com suas mãos de bigorna. Não sabia se deveria elevar os olhos, descobrir aquele rosto. Começou a olhar para cima, levantando a cabeça em câmera lenta, e tornozelos, e canelas, e joelhos e “paf”, tomou na cabeça uma jornalada do Macedo.  

— Tá doente, meu bonito?

— Eu, hein, seu Macedo!

— Parece que nunca me viu! Tô aqui sentado há um tempão e você nem se mexeu, Eramir! Que que cê tem, homem? Tá babando!

— Nem vou te falar, viu, Macedô. Nem vou te falar.

— Pois então trabalhe… E se apresse, que tenho ainda que almoçar antes de voltar para o escritório!

Trabalhe, Eramir, engraxe. Mas que delírio… Como pude confundir esse pezão véio do Macedo… Com aqueles pezinhos lindos?

*

Encerrado o expediente da manhã, Êra juntou as coisas, atravessou o Viaduto do Chá, entrou na Direita e foi em direção à Sé, atrás do Alaor. No caminho, teve algumas ideias para conseguir encontrar a sua Cinderela e queria a ajuda do amigo.

— Eramir, você tem ideia de quanto custa um detetive particular?

— Mas eu não tenho como ficar procurando, Ala! 

— Primeiro: é uma fortuna. Segundo: ele não terá nenhuma pista além dessa foto aí borrada.

— …

— Ai, Êra, desculpa… A foto está bonita, sim.

— Eu sei que ela não ficou bonita, Ala. Mas é a foto mais linda do mundo pra mim.

— Mas, Êra, seja racional. Perceba as coisas, homem! Olhe friamente! Você não pode se apaixonar por cada foto que tira!

— Cada foto, não. É essa que eu amo.

— Você sempre vai amar alguma… e já te digo, Êra: se você ficar assim com todas as fotografias, vai ficar maluco! — Alaor para e apoia no balcão. — A fotografia é mesmo uma coisa muito ingrata, sabe? As maravilhas duram um segundo, e ficam presas, para sempre inacessíveis… Nunca voltam ao estado em que as capturamos.

— Nossa, Alaor.

— Nossa o quê?

— Que bonito.

— … Sabe, Êra… Eu mesmo estou apaixonado por uma 3×4… Mas tenho de superar. A foto era para um passaporte… Ela ia para o exterior… Nunca mais apareceu por aqui — Alaor abriu uma gavetinha atrás do balcão para ver o rosto da amada distante, acariciou-o e suspirou. — Já faz quase um mês. No fim das contas, a vida é que nem a fotografia, Êra…

— Um borrão sem sentido?

— Também. Mas eu ia dizer que é uma coleção de momentos congelados, que ficam, mesmo depois de irem embora…

— Tu tá poeta demais hoje, meu velho.

— Deve ser o calor — passa o lenço na testa.

— Vamos lá, meu amigo. Como podemos encontrar a minha prenda? Me ajude!

— Você estava pensando em detetive, certo? Por que não fala com o Ostrinha? Ele tá sempre para lá e para cá, nunca está trabalhando…

— Hm… Você sabe que o Ostrinha é complicado…

— É complicado.

— Pensei também se a gente instalasse uma câmera ali no canteiro para filmar o movimento da praça o dia todo. Podemos camuflá-la entre os arbustos e filmar tudo. Depois, à noite, chegando na pensão eu posso assistir e…

— Eramir, meu caro, pense, uma vez na vida: aquela praça é um vuco-vuco… Não vai dar para ver todos os pés que passam ali. Além disso, essas câmeras de segurança só registram imagens em preto e branco. Como você vai saber quais sapatos são vermelhos?

— Aiiiii Alaoooor é verdaaaade…

— A gente pode, olha só: fazer um cartaz!

— Isso! Um cartaz com a foto!

— Sim. Espalhamos o cartaz em alguns postes, em algumas árvores na praça, com a foto e seu telefone. Se a dona realmente passa por lá, ela vai ver o cartaz e vai entrar em contato.

— Podemos colocar uma recompensa em dinheiro!

— Calma lá, Êra. Isso pode causar danos à moça.

— Verdade. E a frase? Que tal: ONDE ESTÁ A MINHA CINDERELA? — Eramir espalha as mãos no ar. Eleva e abre os braços, olhando ora para a direita, ora para a esquerda.

— Há há há! Essa foi boa, mas ela pode ficar envergonhada, hein?

— ESSES SAPATOS SÃO SEUS? ESTOU AOS SEUS PÉS. ASSINADO, ERAMIR. E meu telefone. Que tal?

— Acho legal, mas fica meio babão, Êra… Mulher também gosta de um pouquinho de mistério… — Alaor esfrega uma mão na outra.

— Então como, Ala? Vai, quero ver, você que é poeta! — Eramir pulou do banco e saltitava em frente ao balcão.

— PROCURO A DONA DESSES SAPATOS PARA ME JUNTAR A SEUS PASSOS. 

— Tá-dááááá! Na mosca, Alaor meu velho!

— E deixamos só o seu telefone. Sem o nome. Podemos começar assim e ver se alguém liga… Se não der certo, elaboramos outras frases. Com certeza sua princesa vai aparecer!

Eramir saltitava e batia palminhas:

— Perfeito, Alaor! Perfeito: misterioso e sedutor.

— Como a sua fotografia.


CAPÍTULO 4: ARTISTA GALERISTA

Tarde da noite, depois de um dia cheio de expectativas…

Hello, Moto!

— Ala! Alaaaaa! Estão me ligando! — Eramir saltou da cama, agarrou o celular e cruzou o corredor da pensão sussurrando até a porta do quarto de Alaor. Os cartazes haviam sido espalhados naquela manhã, e era a primeira ligação de um número desconhecido desde então, o primeiro toque que não terminou em decepção.

Hello Moto!

— Pois atenda, homem! — Alaor já estava deitado, o abajur iluminava parte de seu corpo estendido sobre a cama e uma caneca de leite no criado-mudo. Eramir espreitava pela fresta.

— E se for alguém?! E se for… ela?!

Hello Moto!

— Se for ela, tanto melhor! Atenda, homem!

— Não posso.

Hello Moto!

— Mas meu Deus, Eramir. Vai desistir agora? Olha aí… Parou. Se não quer atender, não atenda, mas me deixe dormir e chega de resmungo. São onze da noite, meu caro! — Alaor virou de conchinha.

— Ala… Eu…

— Vá para o quarto. Se esse telefone tocar de novo, faça o favor de atender. Se você não atender, sinto muito, meu velho, poderá morrer sem saber se era ela.

— Ai, Ala, que violência…

Eramir lamentou um “boa noite”, fechou a porta e voltou para o seu cubículo. Meia hora depois, já de pijaminha sob as cobertas, ouviu o toque novamente. Levantou-se e, imóvel, ficou encarando o aparelho em cima do criado-mudo. Hello Moto! O mesmo número de antes. Vamos lá, Eramir.

— A… alô?

— Oi, boa noite, quem é que está falando? — Era uma mulher.

— Quem é que quer falar?

— Bem… você não me conhece… Meu nome é Olívia Ehbert e sou artista visual. Quer dizer, não sei se você me não me conhece meeesmo… Estou sempre circulando aqui nas galerias e eventos do Centro e tal… Tipo, tenho um pequeno espaço colaborativo-coletivo. Não sei quem é você, mas passei com uns amigos por sua intervenção artística na Praça Dom José Gaspar há pouco e—

— Os sapatos são seus, dona Olívia?

— Não… é que… Cara, sua arte é genial!

— Perdão? — Tremeu.

— A fotografia, saca? É sua mesmo? Foi uma ideia muito legal de intervenção urbana. A arte tem mesmo que sair das galerias e ganhar as ruas. Eu e meus amigos artistas estamos sempre pensando em maneiras de ação, de tomar a cidade, de ocupar os espaços… Sua ideia foi muito massa! Genial!

— Dona Olívia, não estou lhe entendendo.

— A mistura de linguagens, essa coisa super anos 80 de anúncio, meio jornal de quinta categoria… A dicotomia público/privado, os sapatos versus a rua, as panturrilhas versus os postes… Fora que o enquadramento é único!

— Gostaria de saber se os sapatos são seus.

— Há há há, genial! E ainda mantém a encenação, que extrapola a obra-em-si. Como se fosse verdade o que está no cartaz. Me conte, qual o objetivo final? Bem… qual é o seu nome? Você fez FAAP ou ECA? 

— Meu nome é Eramir e não sei do que a senhora está falando.

— Acho que não conheci nenhum Eramir por lá… Você tem mais trabalhos? Estou procurando trabalhos assim para expor no meu espaço. Você teria interesse?

— Tenho mais algumas fotografias.

— Legal, gostaria de ver. Estou tomando um drink aqui com uns amigos e não cansamos de olhar a sua intervenção. Muito legal, Eramir.

— Obrigada, mas… Os sapatos são seus?

— Que sapatos? Os da foto?

— Os da foto. Sim.

— Claro que não!

— Bem, logo não vejo por que conversarmos.

— Ei, peraí, me expliq—

Tremendo de nervoso sob o impacto daquele primeiro contato, Eramir desligou o aparelho e deitou, ainda sem entender muito bem o que quis dizer a voz do outro lado. Respirava fundo, soltando o ar pela boca com um biquinho.

*

Ao chegar à Dom José na manhã seguinte, Eramir não encontrou seus cartazes nos pontos estratégicos escolhidos por ele e Alaor. Não estavam em lugar algum. Nada. Mordeu os lábios e as lágrimas se amontoavam no canto de seus olhos quando o primeiro cliente chegou, cumprimentou-o e sentou-se à sua frente para engraxar os sapatos. Eramir engoliu o choro e começou a trabalhar. Logo depois do almoço foi encontrar o Alaor para contar o drama daquela manhã e o terror da noite passada.

— Como assim, desligou?

— Desliguei, Ala. A mulher falando de “obra de arte genial”, de “passos e ruas”, uma doida. Não era a minha princesa.

— Mas essa história de exposição era verdade?

— E eu lá sei! Exposição, Alaor? Exposição? Olhe para mim! Sou apenas um aspirante: tenho ao todo 36 fotografias reveladas de um filme que ganhei de presente! Obrigado mais uma vez, aliás.

— Mas isso pode ser interessante, Êra, pense bem. Se você virasse um artista famoso, seria mais fácil encontrar a dona dos sapatos. E conquistar coração dela de uma vez! Nenhuma mulher resiste a um artista famoso.

— Alaor, é verdade! Como fui burro, burro, burro! — tapinhas na própria testa. E a conclusão: — Preciso ser um artista famoso.

— E imagine só: você seria um fotógrafo famoso. Modelos, sets, alta sociedade, ensaios para revistas. É a crista da onda, meu querido! O estrelato! He-he — dois tapinhas no ombro.

— Mas e os cartazes desaparecidos? Será que foi a doida?

— Pode ser. Ela provavelmente fez isso para fazer você ir atrás. Ou para te castigar, depois do seu papelão. Por que não tenta ligar para o número?

— E falar o quê, Ala? O que eu falo?

— Pergunte se ela está com os seus cartazes, ora.

— E se ela estiver?

— Se ela estiver, você pede de volta.

— Alaor, é isso! Você é genial.

— Mas deixe a moça se explicar, Eramir. Veja o que ela tem a lhe oferecer… Pare de ser tão desesperado. O mundo é dos calmos.

— Alaor, se eu ficar calmo nunca conseguirei encontrar a minha princesa. 

— Desliga desse 220. Jack e Rose se encontraram por acaso, lembra?

— Se lembro! Mas o Jack morreu porque ficou calminho lá apoiado na porta!

— …

— Tá bem, tá bem, e vou ligar, Ala… Vou ligar bem calminho, ó… Calminho-calminho — Eramir segura o aparelho e vai apertando os botões em câmera lenta. Alaor ri, cruza os braços e apoia a mão direita na testa.


CAPÍTULO 5: O RESGATE, ou ROSAS NO CELOFANE

Que coisas tão mágicas podem acontecer em um simples telefonema? Quantos convites, encontros, notícias boas e ruins, não são transmitidos pelo ar, mudando a vida dos interlocutores, selando para sempre seu destino? Quantos casamentos foram iniciados? Quantos foram impedidos? É claro, há também os telefonemas triviais, cuja única função é incomodar aqueles que o recebem por dividir ações ao meio. Mesmo discando devagar, Eramir não teve tempo de pensar em nada disso. Sua mente guardava um turbilhão de possibilidades. O número começou a chamar, e chamou três vezes.

— Alôa?

— Doutora Olívia?

— Oi, sim, é a Olívia. Quem é?

— Eramir. Aquele dos cartazes. Você me telefonou ontem.

— Ah, sim! O fotógrafo misterioso. A que devo a honra do seu contato?

— Dona Olívia, a senhora me permite-me…

— Senhorita.

— A senhorita me permite-me fazer uma pergunta?

— Claro, Eramir. Mas já posso dar a resposta, para nos poupar. Estou com seus cartazes. Eu e meus amigos artistas nos apropriamos de todos os cartazes que estavam na praça para expor no meu espaço.

— C-com que autorização?

— Nenhuma autorização, ora. Nos apropriamos deles. Ou melhor: você os espalhou pelas ruas e nós nos apropriamos da arte das ruas!

— E com que direito, minha senhora?

— Com o direito de divulgar a arte, de propor novas discussões à sociedade. Tivemos essa ideia ontem: uma exposição acidental com fragmentos das ruas. Seus cartazes serão a atração principal. Como você assina? Eramir de quê?

— Bom, dona Olívia, primeiro espero que a senhorita saiba que aqueles cartazes eram de verdade, não eram arte não.

— Eles são arte, Eramir. A mais pura arte. A arte ingênua, a arte despretensiosa, a arte ideal… Arte-arte, sabe? Sinto muito, nos apropriamos deles. Veja… Quando você coloca algo na rua, quando o entrega ao público, ele deixa de ser seu. Mas você pode vir visitar meu espaço, se quiser. Chama Espaço Centrífuga, fica atrás da Praça da República. Hoje à noite teremos a abertura da exposição. Adoraria conhecer você e te apresentar para um pessoal. Quem sabe, insisto, conversamos sobre uma possível individual? Apareça!

— Dona Olívia, eu só quero meus cartazes de volta.

— Você os terá, Eramir! E terá muito mais, acredite.

*

Revelado o grande mistério. Os cartazes de Eramir haviam sido sequestrados. Provavelmente, não tinha nem dado tempo para que a única pessoa que deveria vê-lo o avistasse. Ele tinha duas opções… Esquecer ou lutar. E sabia que já era tarde para esquecer. Eramir voltou à pensão, separou a roupa boa, tomou um banho e, às nove da noite, caminhava pelo Centro da cidade, contornando a Praça da República. Mas não estava sozinho.

— Joyce, não vamos passar vergonha, ok? Não fale alto e não beba demais.

— Ai, Eramir. Deixa eu me divertir. Você me chamou para uma festa ou para uma reunião de negócios?

— Sim, mas não sei como essas festas funcionam.

— Ué, Êra. Festa é festa! Não banque o velhaco.

— Tudo bem. Mas lembre-se do que combinamos. Enquanto eu distraio a doida, você pega os cartazes. Não esqueça.

— Ahaaaaammm.

— Ah, e não vai dançar!

— Afe, chatão.

— E então? Estou bonito? — perguntou, interrompendo a caminhada com um saltito e fazendo pose.

Joyce agachou e arrumou a gola da camisa de Eramir, passando as mãos sobre seu peito e suas costas para desamassar rugas e espantar pelinhos. O fotógrafo tinha se preparado para entrar em território inimigo e até comprou flores para oferecer a Olívia. Na última hora, resolveu chamar a Joyce para ter com quem conversar. Joyce o preocupava um pouco, às vezes falava muito alto, mas estava entediada na pensão e aceitou o convite na hora. Podia ser uma arma secreta, Joyce de Tróia, era esperta, sempre sabia o que fazer. Além disso, estava muito bonita.

O plano imediato era recuperar seus cartazes para colocá-los de volta na Dom José na manhã seguinte. O plano final era encontrar a dona dos sapatos vermelhos, e ele faria o que fosse preciso.

— Gente, que lugar é esse? Tem certeza que é aqui, Êra! Isso é um pulgueiro!

 — Não começa, Joyce. Vem, vamos entrar.

Era uma portinha no canto de uma fachada muito mal-cuidada, e dali da frente só dava para ver a escada que levava à sobreloja — um janelão de vidro pintado de preto, com vista para a Praça da República. Marcharam. Chegando lá em cima puderam ver à meia luz grupelhos de pessoas espalhados pelo salão, quadros expostos e os cartazes de Eramir lá no fundo, ocupando uma única parede.

— Meu Deeeeus, Joyce! Olha o que ela fez! — De olhos arregalados, Eramir sussurrava, encarando a parede ao fundo — Vamos manter a estratégia: eu vou atrás da doida e você vai recolhendo as fotos. 

— Vamos achar o bar primeiro, Eramir. Não consigo fazer isso sóbria.

— Tá cheio de gente aqui! Ninguém vai notar. Vamos logo!

Mas Joyce já se afastava, indo em direção a um balcão promocional de uma marca de gim. Pediu dois gins-tônicas e ficou assistindo Eramir se aproximar, todo nervosinho.

— Joycê, falei pra gente fazer o plano logo, meu!

— Relaxa, Êra! Tem que parecer que somos parte do grupo… — Joyce, dizia, sorrindo dissimulada. — Temos que ficar à vontade, sem nervosismo. Senão todo mundo vai perceber que viemos para causar tumulto. E gim-tônica de graça não se pode negar!

— Tá bom. Mas é só um!

De repente, algumas luzes no fundo da galeria começaram a piscar e uma voz anunciou que iria começar a performance Corpos urbanos, do artista Nando Bittencourt. Num burburinho eufórico, o povo se reuniu bem em frente à parede dos cartazes de Eramir. O anão já ia anunciar a falência total do plano para a amiga quando a viu se afastar na direção da performance, doida que era para ver tudo. Ah, Joyce! Sobrou a Eramir esperar, esperar. E degustar o seu gim-tônica. Pôs-se na pontinha dos pés para alcançar o copo no topo do balcão, falta pouco, tentou com uns pulinhos até que uma mão bondosa alçou-o e o entregou em sua mão. Era uma moça bonita de piercing no nariz. Usava um vestido preto longo e meio rasgado e sapatos coloridos. 

— Obrigada, minha senhora — Eramir tinha o copo em uma mão e o buquê de rosas vermelhas na outra. — Po-por acaso a senhora sabe me dizer onde encontro a dona Olívia Ehbert?

— Sei, sim! Bem aqui. Sou eu! E você quem é?

— Eu sou o Eramir. Olhe, trouxe para a senhorita. — Estendeu o buquê.

Olívia arregalou os olhos, abriu um sorriso maior que o rosto.

— Ooooh! Muito obrigada! Já circulou pela exposição? Viu os seus cartazes expostos? O que achou?

Eramir espiou na direção da parede onde estavam suas fotos, mas através das pernas do público só conseguiu ver partes de um corpo seminu agonizando enquanto todos aplaudiam (ai, ai, a Joyce tá lá vendo isso aí!).

— Tentamos manter o tom urbano dos cartazes, e colocamos todos juntos para mostrar ao público que uma coisa é vê-los afastados, na praça, mas que, juntos num mesmo espaço, esse aspecto de busca, de procura, de urgência, se destaca ainda mais. Você não acha?

— Me perdoe, Dona Olívia, não entendo nada de arte. Se a senhora diz, é isso mesmo. Mas vim buscar os meus cartazes. Me custaram dinheiro, sabe?! Dinheiro! E preciso encontrar a dona desses sapatos!

— A exposição termina na semana que vem. Aí você pode vir buscar.

— Mas, minha senhora!

— São só uns diazinhos, Eramir. Além disso, estando aqui, os cartazes podem dar alguma divulgação do seu caso e sua amada vai aparecer mais rápido…

— Mas como! Ninguém vem aqui dentro na luz do dia! Elas têm que estar lá fora! Lá fora!

— A galeria inaugurou há pouco e olha só quanta gente já tem. Espere algumas semanas, você vai ver como o movimento vai crescer e…

Um coro histérico se elevou na sala, entre palmas e gritos. Olívia e Eramir viraram-se na direção da turba. Num pinote, embrenhando-se entre as pernas do público, Eramir conseguiu ver Joyce dançando, desengonçada. Ela tirara os sapatos para ter mais agilidade e, a cada movimento, ia arrancando um a um dos cartazes da parede, enquanto a plateia delirava com aquela desconstrução toda.

— Quem é essa aí? — Olívia começou a gritar, meio baixo para evitar escândalo.

— Roaaaarrrr! Eu sou um corpo urbano furioso! — Ao dizer isso, Joyce arrancou com os dentes o último cartaz da parede, sob uma chuva de aplausos. Saiu de cena com os papéis debaixo do braço. Calçou os sapatos e foi andando à procura de Eramir.

— Ei, fulana, você não pode fazer isso! Me devolva já esses cartazes!

— Fulana é você! E quem não pode mexer no que não é seu é você. Vamos embora, Eramir. O plano acaba de dar certo.

Escondido atrás das pernas da Joyce, Eramir balbuciou um “tchau, dona Olívia”, e, puxado pelas mãos, seguiu o passo decidido da amiga.


CAPÍTULO 6: BALANÇO GERAL

A vernissage chegara ao fim, a galeria estava vazia. Chorosa, Olívia virava um último gim-tônica quente e sem sentido. Laura Monteiro, sua amiga videomaker, e Nando Bittencourt, aquele da performance, a consolavam, tentando mostrar que não foi tão ruim assim. Os três sentaram-se no centro do espaço, formando um pequeno círculo de corpos largados sobre cadeiras dobráveis.

— Ai, amiga, foi um bafo! — animou Laura. — Exposições sempre atraem esses tipos doidos. E dizem que um escândalo na primeira vernissage significa sorte na galeria para sempre, em todas as outras!

— Também acho, amiga — emendou Nando. — Confusão é o que mais tem no nosso mundinho. Lembra o que aconteceu lá no espaço da Clá, do mendigo profetizando no balcão? Só não entendi por que tinha de ser justo na minha performance. Ai, se eu pego aquela gazela!

— Pelo que entendi, ela é amiga do Eramir, o dono das fotos… Não sei, foi tudo tão rápido… — Olívia tentou encaixar as peças.

— Aquele anão que saiu com ela? Aquele é o Eramir, nosso artista urbano misterioso?

— Sim, é ele. Queria levar embora os cartazes de todo jeito! Parece que ele e a gazela bolaram um plano para virem buscá-los…

— Olívia! Por que não fazemos uma nota de repúdio contra essa censura absurda? Chamamos a imprensa! Publicamos no coletivo! Denunciamos para a polícia! Qual o problema de colocar os cartazes dele na nossa exposição?

— Não sei se foi bem censura, Laura. O homem só queria o cartaz dele. E antes da bagunça toda ele foi muito educado. Quer porque quer encontrar essa mulher dos sapatos… É um caso sério!

— Mas gente! Quando esse povo vai perceber que o que você coloca nas ruas não-é-mais-seu?! Quando vamos debater isso, gente?! Afff! — Nando afinou, indignado.

— É censura, sim! O cartaz é das ruas! O direito que ele tem de colá-los por aí é o mesmo que temos de arrancá-los! — barbarizou Laura.

— Bem, sendo censura ou não… Não temos mais os cartazes. Provavelmente, o Eramir vai colar todos de volta amanhã. Podemos nos oferecer para fotografar e fazer uma vídeo-instalação. Aí projetamos na parede vazia. O que acham?

— Acho que a senhorita está sendo muito boazinha com o delinquente.

— Acredite, amiga… meu plano já mudou… Nunca vi alguém tão apaixonado e determinado a correr atrás do seu amor… 

Ao dizer a frase, Olívia suspirou e olhou para o buquê de rosas esquecido no balcão.

— Meu Deus, Olívia! O cara não pode te dar um buquê de flores vagabundo que você já gama!

— Ai, Laura, credo! Não estou falando nada, assim, definitivo… Mas pensem: seríamos o casal mais comentado das artes! Olívia Ehbert e Eramir… A princesa e o sapo! O amor improvável! A obra de arte da vida real!

— Não é de hoje que as artes se aproximam dos anões… Ele pode ser o mascote da galeria! — concluiu Nando com palminhas.

— Seus pais vão adorar, Olívia. — azedou Laura.

— Como odiaram todos os outros! E Eramir me trouxe rosas vermelhas… How adorable!

— Olívia, essas rosas devem ser daquela chinesa que vende de balde na São João — Nando caminhou até o balcão e buscou o arranjo, segurando-o pelo papel celofane que o envolvia.

— Não importa, Nando. Sabe quando foi a última vez que recebi flores? Na minha festa de quinze anos. Meu pai que me deu. 

— Mas e-ei, queridinha — Laura estalava os dedos para acordar Olívia de seu delírio —, você ainda vai correr atrás dele depois do papelão na sua vernissage?

— Não… Se já consegui decifrar o funcionamento daquela cabecinha, ele vai me ligar pedindo desculpas amanhã mesmo. Foi assim no nosso primeiro contato. Ele é do tipo que despreza e corre atrás. Conheço bem.

Olívia esticou as pernas e cruzou-as no colo da amiga, que abanou a cabeça, sorrindo. Virou o que restava do gim-tônica no copo alto e observou a galeria em volta, as obras e seus amigos com um sorriso sonhador.

— Se ele quer tanto encontrar esse amor, tenho certeza de que posso ajudar.

*

— A-ha, u-hul! A vitória é nossa! Team Acapulco! Yeah!

Caminhando pela Marquês de Itu em direção à Amaral Gurgel, enfim diminuindo o passo, Joyce comemora elevando os cartazes sobre a cabeça, seu troféu. Estende-os a Eramir, que sequer os toca e olha para ela, desolado.

— Todos aqui, Êra! Só teve um que rasguei a ponta sem querer…

— Sei não, Joyce… Essa vitória me deixou um gosto amargo na boca…

— Ih… vai começar o muro das lamentações…

— Não é muro, Joyce! A doida ficou triste.

— Você também estava muito triste, não lembra? Triste, não! Desesperado!

— É verdade. Ela não tinha o direito de arruinar a minha busca.

— Tome. São seus e estão todos aí. Se quiser ajuda para colar amanhã, vou com você.

— Tá bem. Obrigada, Joyce… 

— Esse tom aí de coitado não me convenceu… 

— É porque sinto que fui muito grosseiro com alguém que só valorizou o meu talento.

— Mas Êra! 

— Sabe, talvez essa fosse mesmo a chance que eu tinha de virar um fotógrafo famoso.

— Você decida: quer fama ou amor?

— O que o Alaor disse é verdade. Quanto mais fama eu tiver, mais fácil pode ser encontrar o meu amor. E nenhuma mulher resiste a um artista famoso.

— Verdade. Artistas famosos são o-que-há!

— Aí, viu?! Estraguei tudo de novo!

— Não acredito nisso. Vamos, a minha mãe disse que ia colocar umas cervejas para gelar, quer saber como foi a nossa aventura. Ela está esperando. 

Não estavam tão distantes da pensão e caminharam em silêncio. Joyce pisava firme. Eramir pensava, pensava se errou por pensar demais ou pouco, se fora precipitado ao sair arrancando tudo e fugindo, como um animal assustado. Aí lembrou que não foi ele que arrancou os cartazes, foi a Joyce, e pensava que não devia ter chamado a Joyce. Mas ela foi tão ágil e rápida, tão disposta a ajudá-lo… Ela, sim, estava do lado dele. Como também estava Olívia, cujo único erro foi querer vê-lo famoso, divulgar as suas fotos, a sua carreira tão breve. Pensava em uma coisa e outra, em Joyce e Olívia, em como era grato a elas, mas as detestava: dois obstáculos para chegar à sua amada. Tudo poderia ser tão simples: os cartazes estavam na praça, a Cinderela os veria, a Cinderela reconheceria os próprios sapatos e ligaria para Eramir, Eramir a convidaria para jantar… Se bobear, já estariam namorando. Mas, não. Olívia primeiro, e depois Joyce, eram as linhas tortas. Seu plano virou de cabeça para baixo e ele não tinha ideia de como recalcular a rota. 

*

Dona Guio esperava a filha e o inquilino encostada na pia da cozinha. Os copos já aguardavam na mesa. Ela estava ansiosa para ver se tinham conseguido pegar os cartazes, mas também queria saber o que a filha tinha achado da exposição de arte. Fazia anos que não ia a uma exposição.

Ouviu a porta lá embaixo e passos na escada, correu para abrir a geladeira, caçou o litrão.

— Boa noite, mamãe Guio — entrando na cozinha, Joyce deu um beijo estalado na bochecha da mãe.

— Boa noite, dona Guio.

— Boa noite, crianças! — Dona Guio ia arrumando a mesa com os copos americanos e servindo a bebida.

— Afeee, obrigada, mãe! Só uma cerveja para melhorar o meu humor agora!

— Que que foi? Não gostou da exposição?

— Exposição? Aquilo lá é um hospício!

— Para, Joyce — Êra não queria concordar.

— Mas não é, não? O homem quase pelado se estrebuchando no chão! E o povo aplaudindo, mãe. Eu falo, tudo doido!

— Como a dona Olívia me explicou, é uma arte ingênua, a arte despretensiosa, a arte ideal… Arte-arte, sabe? É meio estranho, mas é arte sim, Joyce — Eramir tentou ensinar a lição.

— Ihhh, já está defendendo a piranha!

— Para com isso, Joyce! Já arrumou confusão com a mulher? Tu não pode nem sair de casa, mesmo!

— Ué, o plano não era pegar os cartazes do Êra? Fui lá e peguei!

Eramir quase enfiou a cabeça dentro do copo americano, tamanha vergonha. Nesse momento, Alaor entrou na cozinha e bateu o olho nos cartazes sobre a mesa. Foi alcançar um copo para unir-se ao grupo e ouvir a saga do amigo.

— Que bom! Conseguiram pegar todos?

— Pegamos. Mas agora o Êra está arrependidinho — explicou Joyce.

— Homem do céu, mas você é uma tainha!

— Ai, Ala! É que agora lembrei do que você disse sobre ser um artista famoso…

— Ah, não há mulher que resista! — confirmou dona Guio, balançando a cabeça.

— … E acho que esta noite destruí a única chance que tive de ser famoso! Adeus, meu amor!

Eramir esticou os braços para o céu e fincou os dois cotovelos sobre a mesa, muito shakespeariano, apoiando a cabeça entre as mãos. A ponta de seu cotovelo esquerdo esbarrou no copo de cerveja, que tombou e derramou todo o líquido, fazendo expandir uma mancha úmida sobre a pequena pilha de cartazes…

— Ai de mim! Ai de mim! Esse dia é um pesadelo eterno!

O anão saltou da cadeira e correu em direção a seu quarto, trancando-se lá dentro e largando os amigos e os cartazes na cozinha. Dona Guio, num impulso, pegou o paninho da pia e começou a passar sobre a mesa. Joyce segurou os cartazes, que ainda pingavam, e os três se entreolharam, confirmando o estrago, querendo rir mas sabendo que não era certo. Terminaram a cerveja murmurando assuntos aleatórios. Antes de apagar a luz da cozinha, Dona Guio observou:

— Joyce, o Eramir anda dramático demais, não acha? Ele não é assim… 

— Coisas do amor, mamãe Guio — respondeu, suspirosa — coisas do amor… Boa noite!

 Com os cartazes nas mãos, Joyce foi para o quarto, sonhadora, pensando que ninguém nunca a amara daquela maneira.


CAPÍTULO 7: SINAIS DO DESTINO

Nada como uma boa noite de sono para acalmar as ideias, e nada como uma boa crise de choro para se ter uma boa noite de sono. Decepcionado com o rumo de sua história, Eramir soluçou por alguns minutos até mergulhar desacordado. Fora um dia cheio, uma noite e tanto, e apesar das palavras e pensamentos girando em sua cabeça, seu cansaço era tamanho que não aguentou pensar muito mais na situação. Já fazia dias em que não pensava em outra coisa, cinco dias desde que vislumbrara o seu destino e não quis saber de qualquer outro. E quantas coisas aconteceram, exceto o que ele mais queria, o que mais esperava? Mas essa não seria nenhuma novidade — é assim desde que o homem, desde que o mundo. Tais conclusões lhe chegaram como em sonho, e estavam ali quando Eramir abriu os olhos, antes mesmo de ouvir o despertador. Restava-lhe acordar, trabalhar, ficar atento aos sapatos que cruzavam o seu caminho no dia a dia da praça, apenas. Decidiu também falar com Olívia para reparar sua atitude da noite anterior, mostrar as suas fotos e, quem sabe, ter uma exposição só sua. Era preciso calma… não a calma forçada que nega a dúvida quando ela chega, mas aquela serena, que a escuta e guarda, sabendo que mais cedo ou mais tarde a resposta virá.   

Eramir não parou para tomar café da manhã. Como esse seria um dia especial — o dia em que ele compreendera a sua obsessão e acreditava tê-la sob controle —, iria tomar café na padaria. Decidiu que é para a frente que se anda e não quis nem buscar os cartazes na cozinha. Sentia-se maduro, preparado para abandonar seu eu-anterior. As luzes daquela manhã pareciam mesmo mais brilhantes, ele sorria satisfeito enquanto esperava para atravessar a rua, abraçado em sua caixa.

Joyce estava meio acordada quando ouviu os passos de Eramir deixando a pensão. Ficara até tarde da noite na despensa, quartinho mais afastado dos dormitórios, tentando salvar os cartazes com o secador de cabelo. A cerveja fez borrar metade da frase criada por Alaor e todo o número do celular de Eramir, os cartazes não serviriam mais para nada. Decidiu então que no dia seguinte iria à lan-house em que Eramir mandara imprimir os cartazes — tinha quase certeza de onde era — e ver se o arquivo não ficou salvo lá. Seria uma surpresa para Eramir: mais dez cartazes novos. Para Joyce, todas as coisas tinham uma razão para acontecer, mas não pensou que, se as forças mais poderosas e ocultas do universo haviam movido o cotovelo de Eramir para que ele derrubasse o copo e molhasse aqueles cartazes, eles deveriam ser jogados no lixo, e não reimpressos. Em sua interpretação, ela achou que os cartazes foram estragados apenas para que ela pudesse mandar fazer outros e surpreender o amigo, que então a veria como “a doce Joyce”, e não como “Joyce, o desastre”. Não lhe era possível corrigir o passado, mas acreditava que tinha algum controle sobre o futuro.

Mal pregou os olhos à noite, tentando narrar esse futuro a si mesma entre cochilos. E quando ouviu o movimento no corredor, sorriu, de olhos semiabertos.  

A alguns quilômetros de distância, numa travessa lá no alto da Avenida Angélica, Olívia também demorou para dormir. Fechara a galeria no início da madrugada e foi direto para casa. Por algum motivo que a escapava, não pensava em outra coisa a não ser naquele homem, seu rosto assustado, sua gentileza. Quis ligar, mas achou melhor não. Era muito tarde. Quis mandar mensagem de texto… para quê? Mantinha a certeza de que ele ligaria, mas temia ser uma certeza avulsa, sem fundamento. As pessoas acreditam no que querem, e ela queria acreditar que ter Eramir por perto seria interessante para chocar o mundo das artes, para incluir uma pessoa tão diferente num mundo de iguais. Era uma mistura de oportunismo e condescendência que disfarçava a real situação de seu coração frágil. Eramir foi a primeira pessoa que desafiou Olívia, o primeiro que não tentara impressioná-la, e havia ali mais do que se dizia, era a curiosidade, manifestação primeira do amor. Ela queria saber quem era aquele homem e de onde viera, e também por que aparecera em sua vida. Como isso aconteceu? Se não tivesse ido ao Bar Clavícula na Praça Dom José Gaspar naquela noite, não teria visto os cartazes, se não os tivesse visto, não os teria roubado — saberia da existência de Eramir de alguma outra forma?

Olívia gostava de imaginar as possíveis teorias e fios invisíveis que ligavam as causas às suas consequências, que explicassem os acontecimentos que a cercavam, mas não conseguia elaborar uma teoria plausível para aquela nova presença. Demorou para acordar na manhã seguinte, e após um telefonema inesperadamente esperado às onze horas e onze minutos levantou da cama para tomar um banho e descobrir. 

*

Eramir estava sentado numa mesinha de canto do Rei do Mate da Praça Dom José Gaspar, esperando. À frente do corpo, um envelope grande de papel pardo. Olívia entrou com certa pressa, virou a cabeça e o encontrou ali, quase escondido. Ele desceu da cadeira para puxar a dela e estendeu a mão direita para cumprimentá-la quando a viu se aproximando, se aproximando e beijando-o no rosto. O rosto dela era trêmulo e gelado, como a mão dele, que ela não tocou.

— Desculpe o atraso, Eramir. Foi difícil estacionar.

— Imagina, dona Olívia. Realmente devia ter pensado num lugar mais fácil… Não foi nada… Você trabalha por aqui?

— Sim, engraxo sapatos.

— Que legal.

— É bom. Gosto de ficar aqui.

— …

— Bem, lhe chamei para me desculpar por ontem. Sabe, o plano não era aquele, não era arruinar a sua exposição de arte. Eu ia só me apresentar e pedir. Mas a Joyce…

— Sua namorada, a Joyce?

— NÃO-NÃO. Minha amiga…. A Joyce se empolgou e começou lá a pegar tudo. Não sei o que deu nela.

— Tá certo… Olha. Eu fiquei muito brava na hora, não entendi nada. Mas agora no almoço recebi uns três telefonemas de sites e revistas de arte querendo fazer uma matéria sobre o meu espaço. Com certeza foi graças à repercussão do show da sua amiga. É muito difícil sair nessas revistas. Então, está tudo bem. Trouxe as suas fotografias?

Eramir estendeu o envelope  a Olívia.

— Quer um café? Vou ali pegar enquanto você dá uma olhada.

— Sim, obrigada!

Olívia se surpreendia cada vez mais com as imagens de Eramir, com o que ele escolheu registrar. Definitivamente eram fotos inquietantes, de uma beleza esquecida observada por ninguém. Parou enfim na fotografia dos sapatos vermelhos, que, mais gasta do que as outras, não vivia mais no bolso da camisa de Eramir — era um novo dia — e estava junto das demais.

— Esta aqui é mesmo a mais bonita — disse, assim que Eramir colocou os cafés sobre a mesa e se sentou. — Dá para entender por que você se apaixonou.

— É… é uma história… Mas eu não me apaixonei, não. Só queria encontrá-la, conhecê-la… — Eramir tentava disfarçar a explosão sentimental que o assunto lhe causava, balançava a cabeça e observava a praça através do vidro, desviando o olhar.

— Sei como é. Eu também queria muito conhecer você, Eramir. 

Eramir já não sabia para onde olhar.

— Gostei muito das suas fotos. De onde você tirou essas imagens? Tão sensíveis!

— É o que eu vejo no meu dia a dia, dona Olívia. Eu vejo e gosto de ficar olhando essas coisas. Os detalhes da serralheria dos canteiros, o que vai escrito na tampa das caixas de energia… Algumas são tão trabalhadas… Essa pomba — pegou uma foto no meio das outras espalhadas sobre a mesa — está por aqui há muito tempo! Sei que é ela por causa dessa manchinha aqui. 

Joyce olhava Eramir sem saber o que dizer. Teve de quebrar o silêncio. 

— São lindas. Belíssimas fotos. Acho que dariam uma bela exposição. O que você acha?

— Eu ficaria muito agradecido! 

O sorriso dos dois não cabia no rosto. Olívia já podia ver o sucesso de sua galeria; Eramir já podia chamar-se a si mesmo de fotógrafo. Estavam tão absortos que não viram um corpo que se aproximava, e só se deram conta de que alguém os observava quando uma mão pousou uma pilha de papéis sobre as fotos.

— Joyce?!

— Estou interrompendo o casalzinho? — Joyce até tentou, até quis muito, mas não conseguiu disfarçar a raiva.

— Não, querida — Olívia olhou para ela, sorrindo amarelo. — Eu já estava de saída… 

Olívia era artista, versada em dissimulação. Fingiu nem ver os cartazes na mesa e levantou-se devagar, olhando para a rival. Foi olhando para ela que disse:

— Eu ligo pra você, tá bem, Êra? A gente combina tudo. Vou deixar vocês conversarem. Beijos! — Olívia jogou beijinhos no ar e saiu. Eramir seguiu-a com os olhos, nem aí para o que estava acontecendo à sua frente.

— ÊRA?! 

— Ah, oi, Joyce. 

— Aquela mulher te chamou de Êra?! 

— Foi! Somos amigos agora, Joyce. E você, como é minha amiga, vai ficar amiga dela também.

— Hm. 

— Viu, eu vou fazer uma exposição lá na galeria dela! Minhas fotos! Essas fotos aqui! Uhuuul!

— Cuidado para não obrigarem você a dançar pelado.

— Ai, Joycê!

— Bem, você nem deu a mínima, então vou ter que falar. Toma, pode colar seus cartazinhos por aí. — Ao dizer isso, colocou um rolo de fita crepe em cima dos cartazes.

— Joyce! Obrigada! Você é doida!

— Sou, Eramir. Uma doida, uma idiota. Tchau pra você — e, imitando Olívia com desdém: — Beijos!

Saiu do Rei do Mate batendo os pés. Eramir ficou na mesa, sozinho e confuso, juntou as fotos, guardou-as com cuidado no envelope, com cuidado na pasta, com cuidado em sua mochila. Segurou os cartazes e respirou fundo. Devia colá-los novamente pela praça?

*

Sim, devia colá-los, já que o destino havia lançado novos cartazes em suas mãos. Mas ele já não estava numa nova fase da vida? Fora ele mesmo que havia dito a si próprio “cada coisa a seu tempo” — não faria sentido retomar a busca agora. Por outro lado, não seria bem retomar a busca, apenas deixar mais uma vez seu rastro para que a princesa pudesse segui-lo. Mal não faria. Colocou a mochila nas costas e saiu do café. Sua caixa estava no barzinho onde costumava deixar durante a tarde. Foi espalhar os papéis pela praça. Estavam iguaizinhos! Como a Joyce conseguiu? 

Colocou-os nos mesmos pontos estratégicos de antes e, na hora de colar o último, notou que o espaço havia sido ocupado por outro folheto — um folheto menor, quadradinho, de papel muito fino: 


TONY, O ESOT’ÉRICO

Não aguenta mais sofrer?Trago o seu amor em 7 dias

Seu amor em 7 dias 100% garantido melhor que antes. Ajuda com problemas de inveja, vício, drogas ,bebida, depressão , indecisão, desemprego, tristeza, dinheiro, solidão, problemas na família . Faz emagrecer e engordar. Não desanime , para todo o problema existe uma solução. Consultas de 2a à 6a das 08:00 as 22:00. Búzios, cartas, tarô cigano, tarô baiano, tarô americano, borra de café, leitura de mãos e vidência sensitiva. Longa tradição de videntes na família, sempre garantido. Não desanime e comece a sua nova vida. LIGUE JÁ PAI TONY DE OGUM facilidades de pagamento. (11) 9278 5961 é Pai Tony de Ogum.


Eramir arrancou aquele panfleto para colocar o seu. Se alguém pudesse ajudá-lo, certamente seria o Pai Tony esotérico. É claro! Guardou-o no bolso da calça e sentiu-se radiante por ter captado esse sinal do universo. Desta vez, manteria a língua dentro da boca: ninguém deveria saber do novo plano. Correu pelo Viaduto do Chá para ir ajudar o Alaor antes do engraxe do fim da tarde. Conseguiu esconder seu segredo do amigo, mas teve de corrigir a fala rapidamente umas duas ou três vezes.


CAPÍTULO 8: PAI TONY DE OGUM

Charalaraben — Olundê! Shôkure!

Eramir pulou de susto quando Tony bateu uma palma forte bem perto de seu rosto, seguida de estalos de dedos e sacudidelas nas mãos. A consulta estava agendada há uns dias, e quase por milagre ele conseguira guardar a língua dentro da boca enquanto se convencia de que “há mais coisas entre o céu e a terra do que sonha a nossa vã filosofia”, de que a visita valeria a pena. Andava silenciosamente inquieto, listando em seu caderninho todas as perguntas que faria ao bruxo. 

É claro que, chegando ao prédio da Barão de Itapetininga no horário marcado, apalparia o bolso da calça e o caderninho não estaria lá — é claro que poderia fechar os olhos e vê-lo largado em cima de sua cama, onde o deixou quando fez uma anotação rápida enquanto escovava os dentes. É claro, por outro lado, que mesmo se tivesse o caderninho em mãos de nada adiantaria: Eramir estava tão impressionado com aquele cômodo, todas as imagens, amuletos do chão ao teto, que sequer se lembraria do bolso direito traseiro.

A recepcionista abriu a porta e o convidou para entrar. Cruzando uma espécie de sala de espera onde havia muitas fotos na parede, fotos de Pai Tony com personalidades políticas e do mundo das artes, ela apontou outra portinha, e dentro dela uma cadeira para que Eramir se acomodasse. Pai Tony de Ogum já o aguardava em sua posição. À meia-luz, Eramir pôde ver um corvo empalhado, tecidos estampados cobrindo as paredes e um crânio que envolvia a luz de uma vela acesa. Entre Eramir e Pai Tony havia uma mesa redonda coberta de feltro preto, cartas de baralho formando um montinho, uma bola de cristal sobre uma base dourada e cheia de arabescos, dentre os quais se destacavam garras furiosas de alguma ave de rapina. Tony vestia um turbante branco e uma longa bata azul, cujo decote se abria em um V profundo, revelando um tórax cabeludo e levemente suado. Tinha uma coleção de contas no pescoço, inúmeros cordões de todas as cores e materiais — madeira, miçanga, búzios — que acompanhavam a profundidade do decote e desciam até o abdome rotundo. Uma argola na orelha direita, um anel em cada dedo, os lábios sussurravam nomes esquisitos sob o buço brilhoso até fecharem-se em silêncio para que os olhos se arregalassem lentamente, um espelho dos olhos daquele que estava à sua frente.

Charalaraben — Olundê! Shôkure!

Os dedos empurraram o monte de cartas na direção de Eramir.

— Pode embaralhar e cortar, meu rapaz. Pense em sua pergunta principal.

Dizem que o avanço da humanidade só foi possível graças àqueles que fizeram as perguntas certas. Estranho, no entanto, imaginar como chegaram a essas perguntas — ora, se não foi o caminho inverso, pensando nas respostas que precisavam para chegar a elas. O que veio antes, a questão ou a solução? Eramir não tinha certeza do que perguntar, mas sabia que a resposta estava por aí, passeando pela cidade, de sapatos vermelhos. “Onde está a dona dos sapatos?”; “Quem é a dona dos sapatos?”; “Quando a encontrarei—  encontrarei-a um dia?”. Essas eram as verdadeiras perguntas de Eramir, mas ele teve receio de que o feiticeiro não entendesse que sapatos eram aqueles — esqueceu que o homem sabia tudo. Pensou então na genérica “Onde está o meu amor?”, embaralhou, cortou e estendeu o maço até o centro da mesa.

Com um olhar de aprovação, Pai Tony fez o monte de cartas deslizar, abrindo um leque, e pediu que Eramir escolhesse qualquer uma, sem olhar. Eramir obedeceu, Pai Tony puxou a carta e abriu-a sobra a mesa.

— Ora, ora. Três de copas. Vejo você no centro de um triângulo amoroso, meu caro. Vejo que há duas mulheres à sua volta, mas já aviso: só uma tem o que você procura.

“Tem a Joyce, que é só minha amiga. E tem a Olívia. A Joyce não tem nada. A Olívia tem uma galeria. E ela queria me conhecer.”

— O cenário está muito nebuloso, Eramir. Puxe mais uma carta. Concentre-se na pergunta. Vai.

“Onde está o meu amor? Onde está o meu amor? Onde está o meu amor?”

— Hmmm… Ás de espadas: a carta do poder, da influência. Aqui vejo que você terá muito sucesso. Puxe mais uma. Pense na pergunta.

“Terei sucesso na exposição das minhas fotos? Terei sucesso na exposição das minhas fotos? Terei sucesso na exposição das minhas fotos?” Eramir estava tão nervoso que mudou a própria pergunta.

— Não mude a pergunta! — gritou Pai Tony, assustando-o. — Mas já que você puxou essa, vejamos. Hmmm… oito de ouros… Uma carta fraquíssima, não significa nada. Tá vendo? Não pode mudar a pergunta. Vai de novo.

Eramir não teve tempo de se defender, e nem ímpeto, estava tão assustado que tudo o que pôde fazer foi vasculhar a mente atrás da pergunta original e repeti-la três vezes com fervor enquanto escolhia outra carta.

— Oh! Piraruquê! Um valete de paus. Esse é você, Eramir. Tirar a própria carta é sinal de que o que você almeja está mais próximo do que imagina. Está muito perto. Vamos, alegre-se.

O anão não conseguia organizar o pensamento, quanto mais alegrar-se, aceitava todas as respostas de Pai Tony sem fazer mais perguntas. Pai Tony percebeu a confusão do pobre mortal e deu uma ajudinha:

— Eramir, aqui, olha pra mim: nessas quatro cartas; ou melhor, três, porque o oito de ouros não tem importância; sabemos que você está em um triângulo amoroso, que você será muito influente e que o que procura — esse amor, já deu pra ver, parabéns pela originalidade — está mais perto do que você imagina. Tem alguma das duas pessoas do seu triângulo que seja mais próxima de você?

A resposta foi o silêncio. Eramir olhava as próprias mãos contorcendo-se em seu colo, pensava que não estava em um triângulo amoroso nenhum. As cartas estavam mentindo. Aquelas duas não significavam nada para ele! Não era nada de amoroso.

— Seu Pai Tony, se me permite…

— Mas é claro, Eramir. Diga.

— O senhor poderia usar a bola de cristal? — apontou o indicador para o objeto.

— Não. O método que me autorizaram usar com você hoje — Pai Tony dizia isso apontando para o alto — é esse, das cartas sensitivas.

— Posso puxar mais uma carta, então?

— Pode. Concentre-se na pergunta e vai logo.

Eramir escolheu mais uma. Pai Tony abriu a carta e gargalhou.

— Dama de espadas!

— O que diz essa? Quem é? A Joyce?

— Não dá para saber quem é, Eramir. Dá para saber que uma delas está com a artilharia pronta, há-há, se é que me entende… 

— Acho que não entendo.

— Bem, uma delas quer namorar você. Na verdade, as duas querem, mas só uma está disposta a fazê-lo, custe o que custar. Excelente!

— E a outra?

— Não sei, Eramir. A outra deve ser tímida ou não gosta de brigar. Mas só uma tem o que você procura. Lembre-se.

— Isso não ajuda em nada! — Eramir estava um pouco tonto com o cheiro de arruda. — Eu poderia pegar mais uma?

— Na verdade o seu tempo já acabou. São oitenta reais, por favor.

— Por oitenta reais eu gostaria de usar a bola de cristal, se me permite.

— Boa noite, Eramir. Pode acertar na recepção.

*

A descida do décimo segundo andar à calçada foi vertiginosa. Havia, sim, muito mais coisas entre o céu e a terra do que sonhava a vã filosofia de Eramir: havia um elevador caindo aos pedaços. Havia Pai Tony com seus pés de coelho e chocalhos. Havia uma recepcionista de lentes de contato. Joyce e Olívia transitavam nas mesmas calçadas que a princesa desconhecida, que também vagava entre o céu e a terra — à sua espera? À sua procura? Não importa, ele ainda precisaria de novas respostas.


CAPÍTULO 9: OS SEGREDOS DE JOYCE, ou MAIS NOTAS SOBRE FOTOGRAFIA

A exposição estava agendada para dali a algumas semanas e foi um alívio para Eramir ter outra coisa com que ocupar a cabeça. Desde o fim de tarde na salinha do Pai Tony a única coisa que pôde fazer foi observar, observar o comportamento daqueles dois corações que ele achava serem os outros vértices do triângulo amoroso, observar e tomar notas.

Olívia andava muito gentil. Claro que era por causa da exposição. Presenteara-o com um filme novinho de 36 poses para que ele pudesse fazer novas fotos, ligava todos os dias para saber como estava o seu astro e ia lhe contando ideias de como organizar a galeria para o grande momento. Eramir concordava com tudo — o fato de alguém gostar de seus trabalhos o deixava feliz e ele mesmo dizia não entender nada de arte para ajudar com qualquer coisa —, mas o angustiava pensar em como seria a reação do público geral. Imaginar se alguém mais iria gostar daquelas coisas de que ele gostava tanto.

Seria a aproximação e a delimitação das coisas que as faziam belas? A posição das imagens num quadro definido como um pequeno universo revela ao observador atento muito mais que a existência de tais coisas no mundo, mas também a sua essência e intenção. Olívia dizia que Eramir chegara à essência daquela praça, que por sua vez guardava a essência de São Paulo, e que era algo que poucos conseguiam ver. Isso ele não entendia. As coisas estavam e sempre estiveram ali, as pessoas, idem, por que ninguém viu também — ou melhor, como é possível que não tenham visto? Talvez por serem tão comuns, tão corriqueiros, não havia uma atenção especial dirigida àqueles tesouros particulares. “Você vai mostrar isso ao mundo, Eramir”, Olívia dizia, e Eramir se achava importante.

Todos na pensão Acapulco estavam empolgados com o evento que se aproximava: Dona Guio recebia seu quase-famoso inquilino de manhã para o café perguntando se ele gostaria de um bolo ou uma torta para de noite, depois do trabalho. Eramir não gostava de incomodar, e normalmente respondia com um “imagina, Dona Guio”, mas volta e meia lá estava o bolinho de fubá ou a torta de sardinha aguardando-o na mesa da cozinha. E Dona Guio juntava-se a ele, e também chegava Alaor, e eles conversavam sobre os acontecimentos do dia, sobre a exposição chegando, sobre a cidade. Pareciam uma família — a família Acapulco.

Só quem nunca estava era a Joyce. Eramir perguntava por ela, Dona Guio respondia que estava trabalhando ou que tinha ido atender alguma cliente por ali. Era verdade, mas Dona Guio não sabia que Joyce queria mesmo era se afastar um pouco, sair de cena. Desde o início da história toda dos sapatos vermelhos se envolvera demais, se aproximara de Eramir de um jeito que nunca havia se aproximado antes — apesar de viverem sob o mesmo teto há pelo menos dois anos. Queria dar sequência a essa nova amizade, mas a exposição e a alegria de Eramir com os telefonemas diários de Olívia a deixavam tão nervosa que preferia se retirar. Talvez Olívia realmente tivesse algo especial para dar a Eramir — Joyce achava que ela mesma não tinha nada, ou pelo menos que Eramir nunca a veria assim, apesar de ver beleza nas coisas mais estúpidas. Por outro lado, ela pensava se devia agir normalmente, ser mais ousada, aparecer e conversar com Eramir, fazer piadas e joguinhos como a Joyce de antes. Mas ela não era mais a Joyce de antes. Aquela Joyce nunca havia se comovido com nada, era pura troça e falta de fé no amor — herança que lhe deixara o casamento com um rapaz barra-pesada com quem se envolveu por alguns anos antes de voltar a viver na pensão com a mãe. A nova Joyce queria ser meiga, amiga, compreensiva e misteriosa.

Ela tinha dois trabalhos: atendia no caixa do Hirota do metrô Marechal Deodoro e vendia Natura e Avon. Às vezes passava mesmo muito tempo na rua, chegando em casa só lá pelas onze, meia-noite. Tinha muitas clientes na região, era a simpatia do bairro, não havia quem não lembrasse de Joyce quando queria Natura e Avon.

*

Naquela mesma noite que Eramir foi à consulta com Pai Tony, na Barão de Itapetininga, Joyce teve de levar algumas encomendas para uma cliente, funcionária da Besni na 24 de maio. Voltando pra casa, umas sete e pouco, entrou na fila do Mc Donald’s da Avenida Ipiranga para tomar uma casquinha. Logo antes de chegar a sua vez, sentiu duas cutucadas no meio das costas. Virou-se e teve de procurar um pouco antes de encontrar Eramir parado atrás dela, de braços abertos.

— Oiê! 

— Eramir, que susto!

Joyce não esperava vê-lo, mas achou bizarro o fato de estar pensando nele justo na hora em que ele apareceu. Eramir também não esperava encontrar a Joyce: queria uma casquinha apenas para tirar o gosto de incenso da boca. Seria Joyce o ás de espadas bem na sua cara, na sua frente na fila do Méqui? Eramir nem se lembrou disso. Na verdade, não conseguiu acreditar em uma palavra que lhe dissera Pai Tony. Triângulo amoroso, valete de paus, oito de ouros… Sua pergunta era tão simples! Como ia ter uma resposta confusa daquelas? Voltara à estaca zero, com alguns dados sem sentido, e a casquinha seria seu prêmio de consolação.

— Que sabor você quer? — perguntou Joyce, que acabara de chegar ao caixa.

— Mista, mas tome, deixe aqui que eu pago — Eramir apressou-se em caçar moedinhas no bolso de zíper da carteira.

— De jeito nenhum. Faço questão. Ainda estou lhe devendo por causa daquele papelão na galeria.

— Tá bom então.

Joyce pegou as duas casquinhas mistas e estendeu uma a Eramir. Foram andando, sem pressa, sentido Consolação.

— Faz tempo que não te vejo, Joyce! Indo pra casa já?

— Sim. Pois é, andei bastante ocupada com as entregas. E você? O que está fazendo aqui?

— Eh… Vim… Vim… Entregar um filme para revelar aqui na Barão.

— Ué, não levou para o Alaor?

Eramir gelou e sua língua formigou.

— Ele disse que… não ia poder…  revelar… esses dias.

— Entendi. E os novos cartazes? Algum telefonema? Algum resultado?

— Nada. Uns três trotes. Outro de um senhor achando que era de garota de programa. Garota de programa! O home nem leu a mensagem! Como eu imaginei que isso poderia dar certo, Joyce?

— Você ama alguém, Eramir. É assim mesmo.

Eramir ficou surpreso por não tomar uma piadela de Joyce na cara, como sempre.

— Mas agora resolvi me focar apenas na exposição, sabe? A sorte está lançada, os cartazes estão lá… meio desbotados, mas ainda podem trazer a minha princesa de volta. Não há nada que eu possa fazer.

— E você não se pergunta onde é que ela está?

— É a primeira coisa que penso ao acordar e a última antes de dormir.

Joyce sentiu uma fisgada no peito e achou melhor mudar o rumo da prosa.

— Mas e a exposição? Conte como está indo, conte!

— Ah… está marcada a estreia já. Você vai, né?

— É claro que vou!

— Fique tranquila que não vai ter ninguém pelado.

— Que bom — respondeu Joyce, segurando o riso. — Você acha mesmo que isso é arte, Êra?

— Eu não gosto. Mas a Olívia diz que é arte, sim. Acho que ela entende.

— Hm… — Joyce não conseguiu disfarçar o ciúme.

— Logo-logo vou precisar ir à galeria para aprovar a montagem, tirar fotos de divulgação, dar algumas entrevistas…

— Que chique! Não vai esquecer dos amigos plebeus.

— Hahaha, até parece, Joyce.

Caminharam por toda a Ipiranga, dobraram à esquerda na altura da São Luís, contornando a Praça da República. Passaram perto da galeria, mas Eramir nem lembrou e não quis fazer uma visita, para o alívio de Joyce. Ficaram longos minutos em silêncio, sem desconforto algum — o que sempre é um ótimo sinal — até que Joyce retomou a palavra:

— Estou muito curiosa para ver as suas fotos.

— E eu, muito nervoso, esperando que todos gostem delas. A Olívia disse que são muito boas. Excepcionais.

Joyce revirou os olhos e teve de engolir. A nova Joyce não dava chiliques.

— E como você aprendeu a fotografar, afinal?

— Com o Alaor. Ele me deu um bom desconto na minha câmera. E sempre me deixava ficar vendo ele trabalhar.

— Não, quero dizer… Como você se interessou?

— Ah, isso faz muito tempo… Acho que eu era criança… A minha mãe tinha um calendário na cozinha, e cada mês tinha uma foto. Sempre pensava como aquele fotógrafo conseguiu fazer fotos tão bonitas. Tinha flores, borboletas, montanhas, animais… E quando olho para certas coisas, nem precisa ser com a câmera, pode ser só com o olho mesmo, quero que todo mundo veja. Eu sei que nunca vou ser aquele fotógrafo do calendário — ele deve viajar muito — mas posso mostrar para as pessoas que tem coisas bonitas, sem viajar. Vejo muitas coisas por aqui. Muitas coisas feias, também. Mas gosto de pensar que talvez elas não sejam tão feias — nada pode ser tão feio — e fico procurando seu lado bonito. Basicamente é isso.

— São fotos aqui do Centro?

— Sim, todas. Aqui é o meu mundo, sabe? Eu amo aqui.

— Então você não vai mudar de bairro se ficar famoso?

— Eu, não! Não vou é nem mudar da pensão da sua mãe.

— Hahaha, isso é que é boa notícia!

— Vou te incomodar por muito tempo ainda, Joyce. Ainda vou te ver no seu casamento!

— … 

Joyce apenas sorriu, sem-graça. Já estavam entrando na pensão. Eramir não sabia por que, mas queria que ainda estivessem na saída do Mc Donald’s, para conversar tudo de novo. Subiu as escadas da entrada da pensão pensando se ia dar para convidar a amiga para um pedaço de bolo. Dona Guio estava terminando de botar ordem na cozinha, e quando ouviu os passos de Eramir no corredor, avisou, em voz alta:

— Boa noite, Vossa Alteza, hoje tem bolinho de fubá.

— Oloco, Dona Guio. Sabia que era eu?

— Sim, você e a Joyce. Reconheço os passos de todos aqui de olhos fechados.

— Olá, mamãe!

— Senta pra comer bolo, filha.

Eramir já estava sentadinho na cadeira, cortando a sua fatia.

— Vem, Joyce!

— Preciso ver algumas coisas no quarto. Aproveitem o bolo. Boa noite, Êra! Obrigada pela carona, haha!

Nem deu tempo de ninguém responder. Joyce escapuliu para o quarto como que num salto. Dona Guio e Eramir ficaram olhando para a cara um do outro sem saber o que dizer.

— Ela ama bolo de fubá — disseram, na mesma hora.

— Deus que me perdoe, Êra, mas a Joyce está muito estranha ultimamente. Aí tem coisa. E coisa boa é que não é!

— Pelo que conversamos, Dona Guio, não parece ter coisa, não. Mas ela anda mesmo quieta.

— Bem, tava na hora de parar de gracinha mesmo, de crescer um pouco.

— Eu até gostava das gracinhas, Dona Guio…

*

O que crescia em Joyce era o amor, e ela pouco falava porque muito tinha a dizer. Fechou-se no quarto, deitou na cama e ficou alguns segundos encarando o teto antes de abrir a agenda, na mesma página que guardara dobrado o cartaz enrugado de Eramir. Pensou em ligar, dizer qualquer coisa. Mas bateu o olho na lista de entregas do dia seguinte, levantou na hora e achou melhor deixá-las em ordem. Quando percebeu todas as luzes apagadas lá fora, quando não ouviu som algum vindo do corredor, deslizou até a cozinha para pegar um pedaço de bolo de fubá.


CAPÍTULO 10: O CENÁRIO

Concedamos ao nosso herói uma pausa para respirar. As coisas estão indo bem, não se preocupem, mas creio que seja fundamental — um dia já foi fundamental, agora é imprescindível — colocar nosso peão no seu quadrado, defini-lo no espaço-tempo, para que ele não fique flutuando a deus-dará em nossas mentes.

No exato momento em que Joyce arruma as encomendas da Avon para o dia seguinte e Eramir come um pedaço do bolo de fubá feito por Dona Guio o ano é 2004. Marta Suplicy está na prefeitura, o Bilhete Único acabara de ser criado e nem sonhávamos com todas as facilidades tecnológicas com as quais estamos tão familiarizados hoje em dia. Tinha SMS, quando muito. Fazia dez anos que Eramir vivia na região central de São Paulo, desde que partira da cidade interiorana de Espírito Santo do Pinhal por não aguentar mais ser o filho anão da Claudete e do Márcio sapateiro. Na infância sonhava com um lugar onde pudesse ir e vir sem ser notado, e por ter passado a adolescência ajudando o pai na sapataria sabia que tinha o necessário para conquistar esse mundão.

Sua primeira casa foi um quartinho de fundos que dividia com mais três colegas na Alameda Glete. Morou em outros dois cômodos compartilhados até que, graças às economias de seu trabalho incansável e aos amigos que ia fazendo aqui e ali, conseguiu enfim pagar por um quarto individual na renomada pensão da Dona Guio — isso era 1999, cinco anos depois de sua mudança.

A pensão, como já sabemos, fica na Avenida Amaral Gurgel, o número é 184, entre as ruas Marquês de Itu e Santa Isabel, na frente de um ponto de ônibus e em cima de um boteco que Eramir não gosta muito de frequentar. Os dormitórios são administrados por Dona Guio desde o fim da década de 1970, quando ela conheceu Roberto, zelador do conjunto, de quem herdou a função e com quem deu vida à menina Joyce.

Pode parecer estranho, pois o sentimento é normalmente o contrário — principalmente se a referência é o calmo interior —, mas quando Eramir pisou pela primeira vez em São Paulo, com seu pai, em 1982 (tinha então dez anos e foram comprar materiais para a sapataria), sabia que era ali que queria estar: no meio daquela confusão, daquele caos, daquele barulho, daquela alegria toda, onde ninguém olharia para ele por mais de dois segundos. Voltou algumas vezes ainda com a missão de comprar suprimentos até que em 1994 resolveu ficar de vez.

Seu primeiro programa favorito fora o Mercado Municipal. Gostava de ir aos sábados, no fim da manhã, comprar uma fruta e comê-la devagar enquanto girava pelos corredores. Depois ia até a Galeria Pajé ou Santa Efigênia para ver as novidades em eletrônicos. Aos domingos, gostava de ir ver a missa — hábito que tinha com a mãe desde menino na cidadezinha — no Pateo do Colégio ou no Mosteiro de São Bento, e depois passear pelas ruas de pedras portuguesas, quase vazias, coberto pelas sombras de todos aqueles prédios. Andava, como andava, até geralmente parar na Praça da República para comer algo e ver o movimento. Ah, a República de domingo! Numa dessas andanças, logo no início de sua vida urbana, Eramir chegou sem querer à Praça Dom José Gaspar. Ainda não a conhecia, e ficou tão impressionado com o tamanho daquelas árvores e com a beleza daquele lugar, que decidiu estabelecer ali o seu escritório principal. Eramir engraxa na Dom José desde 94.

O Alaor ele conheceu quando ainda morava na Glete, e foi ele quem o avisou quando vagou um quarto na Acapulco. Eramir apareceu certa manhã em seu pequenino estúdio do lado do Poupatempo perguntando se era ali que precisavam de panfleteiro. Ao bater os olhos no pequeno ser, achou que ele tinha carisma suficiente para atrair os clientes até o seu negócio, o que de fato aconteceu — apesar de gostar de passar despercebido, tinha dia que Eramir era bem amigo da galera. Ele escolhia as moças mais bonitas para entregar panfleto e levar para fazer 3×4 com Alaor, e Alaor teve certeza de que aquele era o início de uma grande amizade. Nunca ouviu nenhuma piada dos outros panfleteiros do Poupa sobre a sua aparência, exceto quando ganhou o apelido de Gigante. Eramir riu e não reclamou, então o apelido perdeu a graça e os panfleteiros continuaram a chamá-lo de Êra mesmo.

Sem grandes ambições, as semanas, os meses e os anos de Eramir passavam e se estendiam nas calçadas do Centro. Pouco a pouco foi conhecendo novos lugares, provando novos sabores — a feirinha da Liberdade! — e integrando-se à paisagem que o acolhera sem sorrisos ou perguntas. Pouco a pouco foi ficando conhecido entre os engravatados e burocratas do Centro, e também podia reconhecer todos pelas partes gastas de seus sapatos. 

*

Em 1994, ano em que Eramir chegou a São Paulo, Alaor ajudava o pai com o pequeno estúdio fotográfico na Sé — o mesmo estúdio que, em 1995, ele precisou começar a tocar sozinho e que, em 1996, acolheu Eramir como panfleteiro oficial. Teve de fazer o impossível para pagar todas as dívidas que o velho deixou, e, como ficara sozinho no mundo, acabou parando na pensão de Dona Guiomar. Era um lugar limpo, relativamente próximo de seu trabalho e muito recomendado. Desde então não saiu mais de lá. Acompanhou o sufoco que foi a saída de casa de Joyce, menina de tudo, para ir morar com o namorado em Suzano depois de largar a faculdade que mal começara, e também estava lá quando ela entrou na cozinha chorando, com malas nas mãos, e Dona Guio gritou: “Graças a Deus!”. Eramir estava lá nesse dia, era fim de 2001, e ele nunca imaginara que a filha de Dona Guio pudesse ser tão bonita. Mas coitada dela, inchada de tanto chorar.

Ver a filha naquele estado não foi nada agradável para Dona Guio, mas foi melhor do que tê-la visto tão enfurecida naquele dia de sua partida. Mãe e filha ficaram quatro anos sem se ver ou se falar, o namorado da Joyce era muito ciumento e a mãe não tinha ideia de onde ele a havia levado — na verdade, Dona Guio não sabia nada daquele novo namorado, só que era um mal-encarado. Foram tristes meses na vida de Dona Guio, e ela concluiu que realmente nenhuma desgraça lhe faltava acontecer: o marido falecera poucos anos antes depois de longa doença, a filha rebelde fugiu com um mau-elemento, seus outros dois filhos, que ficaram em Jaboatão dos Guararapes com o pai, ex-marido traído, não queriam falar com ela e nem mandar fotos dos netos nascidos há pouco. Restava-lhe botar café da manhã para marmanjo e deixar a pensão sempre ajeitada.

*

Em 1994, Olívia tinha 16 anos e estava prestes a concluir o Ensino Médio no Colégio Nossa Senhora de Sion. Era uma ótima aluna, um tanto excêntrica, e não via a hora de sair daquele ambiente burguês para estudar artes visuais. Os pais não odiavam a ideia explicitamente, mas quase toda noite antes de dormir  o senhor Saulo Ehbert perguntava à esposa Marisa se enfim tivera aquela conversa com a filha. Marisa se pelava de medo da adolescente temperamental e passava dia após dia à espera da situação ideal. Olívia estava tão empolgada para estudar artes visuais na USP que qualquer mínima contrariedade poderia despertar a sua ira implacável. Saulo e Marisa começavam a cogitar mandá-la para o exterior — se fosse para estudar artes, que estudasse na melhor escola de artes —, mas também tinham de ir com calma aí, para ela não pensar que aquele era mais um truque para separá-la de seu namoradinho músico (no fundo, era um pouco).

A oportunidade bateu-lhes à porta quando Olívia tomou um pé do músico e teve ela mesma a ideia de fazer intercâmbio. Partiu no fim de 1996 e em 2002 voltou de uma longa estadia na Europa, com todos os planos para abrir a sua própria galeria e revolucionar as artes plásticas brasileiras. É na porta dessa galeria que Eramir está agora, de volta a 2004, apertando o botão do interfone para comparecer à primeira reunião da montagem de sua exposição.


CAPÍTULO 11: PLANO BAIXO

Olívia demorou um pouco pelo charme, mas fez questão de descer o lance de escada para abrir pessoalmente a porta para Eramir. O artista usava uma boina, que comprou no Largo do Paysandu pois achou que combinava com a sua nova vida. 

— Êra, querido, como você está? Preparado?

— Oi, dona Olívia! Sim, preparado. E muito animado.

— Que bom, que bom. Já organizei mais ou menos um esboço de onde colocar cada foto e quero ver o que você acha. Venha, venha.

Subiram a escada e chegaram ao salão de exposições.

— Tá em reforma, dona Olívia? Se a senhora quiser tenho um colega que pode vir pegar esse entulho rapidinho — disse Eramir, olhando para um monte de tijolos, madeira e cimento que jazia num canto. — Se for problema de encanamento conheço um bom encanador, também.

— Haha, não, não. Essa é a instalação de uma amiga e está em exposição esses dias, não é entulho, não.

— Ah, tá… Que interessante… 

— É a Marta Moreira, acabou de voltar de Nova York. Ela tem um trabalho muito poético, Êra. Ganhou prêmios e tudo. Nessa obra ela questiona a solidez das construções, como tudo é tão rígido aparentemente mas pode desmoronar, se desfazer e revelar os seus inúmeros cacos… 

— Olha, não é por nada, mas as coisas que meu conhecido Nivaldo constrói não desmoronam de jeito nenhum!

— Ai, Êra, você é muito figura.

— …

— Mas e aí, o que achou do espaço? Vamos dar uma olhada nas ideias que anotei aqui. As fotos estão para emoldurar, mas dá para imaginá-las aqui. Acho que na parede do fundo ali atrás podemos deixar só a foto dos sapatos, com bastante destaque. O que acha?

— Confio no seu gosto, dona Olívia. E essa foto é mesmo muito especial, quero que todos a vejam.

Fazia algum tempo que Eramir não pensava na fotografia — decidira ser um novo homem, entregara-a junto das outras à sua benfeitora — e aquela lembrança beliscou seu coração. 

— Sim, e foi graças a ela que nos conhecemos. Vou deixar isso bem claro na divulgação da nossa expo. — Olívia deu uma piscadela.

— P-pode ser uma boa ideia mesmo. Quem sabe a dona dos sapatos não acaba aparecendo.

— O que tiver que ser, será, Eramir. Às vezes o amor está mais perto do que imaginamos.

Eramir corou, e ficou envergonhado por corar. Deu alguns passos na direção da outra parede, afastando-se um pouco de Olívia. 

— Nessa aí parede pensei em colocar as fotos dos pombos. Naquela ali, as dos canteiros. E as outras espalhamos nos cantos, ali e ali. Na verdade, queria outra opinião sua: você acha melhor colocar as fotos na altura em que foram tiradas, como se estivessem sendo capturadas na mesma hora? Ou será que deixamos na altura padrão, para que todos possam vê-las sem dobrar os joelhos?

— Acho que é melhor que todos as vejam. A minha altura não é especial.

— Ah, é sim — Olívia sorriu. Tocando de leve o ombro de Eramir, como se quisesse abraçá-lo, caminhou com ele na direção da parede do fundo. Agachou-se ao seu lado e esticou o braço, como se segurasse a fotografia dos sapatos na altura do olhar de ambos. — Ia ficar bom.

Imaginar aquela imagem novamente o agitou, e Eramir ficou sem fala. Estava lado a lado com Olívia, com o rosto dela à sua altura. Ela se aproximava cada vez mais de seu rosto, de lado, para ver a foto do mesmo lugar que ele via. 

— Ia ficar bom — afastou-se, de repente. — Seria como se forçássemos os espectadores a ver como você vê, a conhecer o seu olhar especial.

— Não quero forçar ninguém a nada, dona Olívia. Só de as pessoas virem ver eu já vou ficar feliz.

— Mas poderíamos propor essa coisa de se colocar no lugar do outro… Se bem que colocar na altura padrão das galerias seria fazer as pessoas imaginarem com mais clareza como é ver da sua perspectiva. Imaginarem um novo campo de visão.

— Prefiro a altura padrão, se me permite. 

— Claro que sim! — Olívia caminhou até uma mesa onde estava seu bloco de rascunhos e anotou: “Altura padrão!!!” — Agora falta apenas definirmos os valores de venda e o coquetel de abertura, depois você está liberado!

— Não tenho pressa, dona Olívia.

— Mas não vou te segurar por muito tempo. Sei que meu artista é bastante ocupado.

— Hoje eu sou todinho seu — Eramir se espantou com a própria ousadia.

— Ah! Pensei em um nome para a exposição. Precisamos ver o que você acha…

— Pois diga!

— Pensei em “Plano Baixo”, para indicar o ponto de vista, a perspectiva das suas fotos. 

— É perfeito, Olívia. Afinal, é isso que eu sou: baixo!

— Ótimo! Falta então apenas um detalhe: por quanto vamos vender essas belezas?

— Hm… Acho que uns quinze reais cada?

— Está doido, Eramir?! Elas valem no mínimo — NO MÍNIMO — trezentos.

— Oloco, tudo isso?

— Sim. Fotógrafos iniciantes, mesmo no início de carreira, não cobram menos que isso.

— Mas por trezentos nenhum amigo meu vai poder comprar, dona Olívia!

— … 

— Bem, eu posso pelo menos ficar com algumas fotos para presentear a Dona Guio, o Alaor e a Joyce, né?

— Sim, pode. Mas não muitas. Preste atenção, Eramir: é o lançamento de sua carreira. Conversaremos sobre isso depois, quando tivermos todas as fotos prontas, e você decide quais vai dar de presente. Mas vamos aumentar esse preço sim, senhor.

— Você é que sabe… Eu apenas acredito.

— E o coquetel de lançamento? O que você gostaria de servir?

— Tenho uma conhecida na Rio Branco que faz o cento de coxinha bem em conta. Ela também faz risoles e enroladinho.

— Na verdade eu tinha pensado em canapés de salmão defumado ou rosbife… Tenho uma fornecedora especial aqui para a galeria… 

— Ah, sim. O que você preferir, dona Olívia.

— E teremos o gin que tinha daquela vez que você veio. E prosecco, no início. Precisamos brindar esse momento.

— Parece perfeito.

— Você gosta, Eramir? Quero que seja uma noite especial — Olívia olhou-o fundo nos olhos.

— S-sim, gosto muito, dona Olívia.

— Ótimo. Então estamos de acordo. Vamos nos falando sobre os textos de divulgação.

— Confio em você, dona Olívia. Não sei em que posso ajudar com esses textos.

— Tudo bem. Vamos escrever e você lê e aprova. Pode ser?

— Claro. Mas tenho certeza que será um belo texto! — Eramir falou, rindo.

Olívia consultou o pulso esquerdo.

— Acho que é isso por hoje, Êra. Gostei de te ver por aqui. Vou atualizando você das novidades, e semana que vem tem sessão de fotos, hein?

— Opa! Vou até tomar um banho!

— Hahahahaha, doidinho — disse Olívia, balançando a cabeça.

— Então me vou!

Eramir adiantou-se para a saída. Quando tinha o pé no primeiro degrau, ouviu de longe:

— Ah! Eramir?

— Sim, dona Olívia.

— Hm. Nada, nada não. Até mais! 

— Até, dona Olívia!


CAPÍTULO 12: TIPOS

Alaor fez sinal para o garçom descer uma gelada enquanto afastava as cadeiras vermelhas de plástico para ele e para Eramir. Fazia tempo que não conseguiam sair do trabalho juntos — ora um tinha compromisso, ora o outro —, e naquela quinta-feira resolveram sentar no Cuca Legal, bar/lanchonete que recebia seus clientes na Rua da Quitanda.

— Ah, que maravilha! — Alaor serviu seu copo e o de Eramir, elevou-o no ar e deu um gole longo seguido de um suspiro.

— Alaor, cada dia é uma coisa, Alaor. Esse negócio de exposição está me deixando doido. Mas ontem foi a última prova no alfaiate. Meu blazer novo vai ficar ó: uma beleza! Encomendei lá no seu Leco mesmo… Um risca-de-giz…

— Blazer, meu velho? Você vai ficar muito chique! Nem eu tenho um blazer para ir na sua exposição…

— Você não precisa, Ala. Só eu, né? Que sou o artista. Você pode ir de camiseta.

— Melhor assim. E como estão os preparativos, hein?

— Bem! As fotografias estão emolduradas, Olívia me mostrou, e já sabemos onde vão ficar na galeria. Acho que vai ficar bonito. Ah! Ontem falei com uma jornalista, também. Vai sair uma matéria sobre as minhas fotos num site de artes, o Ideiasolta.com.

— Que legal!

— E o texto de divulgação já está correndo por aí. “Partes da cidade que você nunca vê”, começa assim.

— E a doida, como é trabalhar com ela? Vocês dois vivem pra cima e pra baixo que eu sei. 

— Olívia? — Eramir falou movendo as sobrancelhas, com um sorriso malicioso — Ela é bem doida, e muito inteligente. Não entendo nada do que ela fala, mas gosto de fazer ela rir.

— Iiihhh, já vi tudo — disse Alaor, insinuando.

— Ah, não, não. Nada a ver. Somos apenas amigos, Ala.

— Eu não tenho nenhuma amiga que me liga todos os dias, Eramir.

— É porque, além de amiga, ela é minha agente. Ela diz que tem que cuidar direitinho de mim.

— Sei.

— E estamos organizando as coisas da expo. Os canapés são muito bons, esses dias provei.

— Sei.

— É sério, Ala. Não rolou nada ainda…

Ainda.

— E nem vai rolar. Um dos objetivos dessa exposição é encontrar a dona dos sapatos, lembra?

— Eu lembro. Achei que você tivesse esquecido.

— Às vezes esqueço, mas depois relembro.

— Os cartazes não deram nenhum resultado mesmo?

— Nada, Ala. Só os mesmos trotes de sempre. Alguns caíram dos postes, outros que sobraram estão lá, no meio dos outros cartazes.

— No meio dos milhares de panfletos daquele Pai Tony de Ogum, que dominam o Centro inteiro! Às vezes tenho vontade de fazer uma consulta com ele só para saber como vai ser a minha vida…

— Diz que ele é bem charlatão.

— É mesmo? Já ouvi dizer que acerta TUDO.

— … Acho difícil… Tem jeito de ser aqueles que falam umas coisas genéricas só para você ficar impressionado, e quando você pede para usar a bola de cristal ele não deixa — Eramir deu uma punhalada na mesa.

— Eita!

— … 

— Cê foi lá, danado?

— Foi um momento de desespero, Ala!

— Hahaha, eu imagino, meu velho.

— E tudo o que ele disse foi que o amor pode estar mais perto do que eu imagino. Como é que eu vou imaginar qualquer coisa?!

— É uma informação preciosa, Eramir.

— Ah, ele disse também que estou num triângulo amoroso. Vê se pode!

— Êra, você é mesmo muito ingênuo. Vamos juntar as informações, vamos pensar. Com certeza tem a doida aí no meio, ela anda bem próxima de você. Pode ser ela.

— Mas aí seria uma linha amorosa, não um triângulo. Você acha que já não pensei em todas as possibilidades? Fora Olívia, as únicas mulheres com quem eu converso são a dona Guio, a Joyce e a Elizângela do Rei do Mate. Nenhuma faz sentido. Dona Guio é a mesma de sempre e não ama mais ninguém, ela mesma já disse; faz dias que nem vejo a Joyce; a Eli tem marido e está esperando nenê. Sobra quem, meu compadre?

— Muda de assunto, muda de assunto. Ostrinha.

Veio se aproximando da mesa um homem chupado, de cabelos grisalhos para trás das orelhas, camisa preta com os primeiros botões abertos, jeans brancos e mocassins. Usava um cordão dourado no pescoço e carregava uma maleta de couro gasto.

— Ôôôpa, meu velho!

— E aí, Êra? E aí, Ala? — Ostrinha falava em baixo-tom e olhava afobado para os lados.

— Senta, Ostra — Eramir convidou por educação —, pede um copo.

— Tô mais de passagem hoje. Mas aceito um cigarro. Posso, Ala?

— Vá em frente — Ostrinha pegou o maço da mesa, tirou um primeiro cigarro, que colocou atrás da orelha, e depois pegou outro, que acendeu.

— E aí, que me contam?

— Nada, viu, estamos aqui tomando uma cervejinha para espairecer um pouco…

— Bom… Bom… 

— E você, Ostra? Que que tem nessa maleta agora?

Ostrinha apoiou a maleta na mesa e puxou as travas. Abriu com cautela, apenas metade do percurso.

— Agora estou trabalhando com tipos.

— Perfumes, é? — desconfiou Alaor.

— Não, são tipos. Tipos dos perfumes mais famosos. Tem aqui todos os que você quiser: Dolce Gabbana, Calvin Klein, Stiletto, Insensatez…

— Opa! Eu estava mesmo precisando de um perfume para a abertura da exposição! — empolgou-se Eramir.

— Que exposição, hein?

— Uma exposição aí… de um amigo… que vou ajudar… — Eramir esqueceu que o Ostrinha era complicado.

— Onde vai ser?

— Ali na República. — E já emendou, para acabar logo com a conversa: — me vê um Stiletto, então, meu velho.

— Cada um é sessenta.

— Oloco!

— Por aí você vai pagar pelo menos o dobro. Na minha mão é sessenta.

— Tá bem, tá bem. Estou precisando mesmo. Toma aqui — tirou do bolso uma carteira gorda, cheia de papel dobrado, e colocou os sessenta reais na mesa. Ostrinha entregou a caixa do perfume, fechou a maleta e guardou o dinheiro no bolso.

— Agora preciso ir, amigos. Tchau para vocês.

— Tchau, Ostra! — Eramir fez com a mãozinha.

Alaor só lançou um aceno de má-vontade. Ostrinha caminhou com pressa para longe dali.

— Quase, hein, meu velho?

— O Ostrinha é um enxerido mesmo! Ainda bem que conseguimos mudar de assunto.

Passaram o tempo de mais duas cervejas bebendo e falando da vida. Depois caminharam até a pensão, onde uma suculenta torta de sardinha os aguardava. Alguém entrou enquanto comiam, e os dois olharam para a porta da cozinha esperando que a pessoa entrasse. Era Joyce, segurando uma bolsa e um jornal.

— Oooolha quem está aqui! Boa noite, dona Joyce sumida!

— Boa noite, Êra, oi, Alaor! Sumida nada, Eramir. Joyce trabalhadeira, isso sim.

— Voltando do Hirota?

— Sim. Ufa, amanhã é minha folga. Tão comendo o quê?

— Torta de sardinha da dona Guio. Senta, come um pedaço.

— Não quero, tô sem fome. — Pegou um copo d’água e sentou cinco minutinhos.

— Como está a vida, hein? E a exposição?

— Ah, semana que vem já! Passou voando. Você vai, né, Joyce?

— Preciso ver a escala da semana, mas se der eu vou, sim!

— Se der nada. Quero você lá.

— Êra, mostra pra Joyce o tipo que você comprou do Ostrinha! Vai que ela conhece?

— Verdade! — Eramir abriu a mochila e puxou a caixinha — Conhece isso aqui, Joyce? É o mesmo que o perfume, mas é um tipo.

— O Ostrinha está vendendo isso aí agora?

— Sim… Comprei hoje.

— Isso aí é pura enganação!

— É mesmo, é? 

— Sim, um produto bem ruim — Joyce analisou a caixinha. — O perfume é bom, pelo menos? Parece o original?

— Sabe que nem abri?

— Êra! Tem que abrir. Posso? — Joyce puxou o papel-filme que envolvia a caixinha, abriu-a e se deparou com um vidrinho vazio. — Tá vendo? Ó, tá vazio!

— Ostrinha… — bufou Alaor. — Eu bem que quis te impedir, mas aquele homem fica encarando a gente que nem um abutre!

— Lá se vão meus sessenta reais! 

— Tem que prestar atenção. Me desculpe te dar essa má notícia… Mas o Ostrinha você sabe. Afff, estou exausta, preciso de um banho e cama. Boa noite, rapazes!

— Boa noite, então…

Os dois acompanharam a saída da moça e se entreolharam. 

— Tá estranha, essa menina tá estranha. Saindo assim de repente — diagnosticou Eramir.

— Deve estar de caso, Êra, deixe a moça.

Chegando em seu quarto Joyce foi conferir se tinha alguma fragrância masculina na pronta-entrega e encontrou uma caixinha de Kaiak Urbe. No jornal que carregava havia um pequeno espaço no caderno de artes reservado à exposição Plano Baixo, que estrearia na semana seguinte. Ela recortou a notinha com cuidado e juntou com outros dois recortes num envelope pardo. Tomou banho e se preparou para dormir, prestando atenção no movimento dos dois lá fora. Quando percebeu que já tinham se fechado nos quartos, caminhou até a porta do quarto de Eramir e deixou a caixinha de perfume na porta. Agora ela só precisava não ser vista até o dia da exposição. 

*

FOTOGRAFIA O Espaço Centrífuga, de Olívia Ehbert, nova referência em arte contemporânea de São Paulo, inaugura na semana que vem a exposição Plano Baixo, do eminente fotógrafo Eramir Paschoal. Em fotografias tiradas de uma perspectiva peculiar graças à sua baixa estatura, o artista revela ângulos e enquadramentos de um Centro da cidade desconhecido aos desatentos. Urbanoides: vale a pena conferir. Espaço Centrífuga, Praça da República, 347, Sobreloja. 


CAPÍTULO 13: A GRANDE NOITE – parte 1

Ainda não havia escurecido totalmente quando Eramir entrou pela tão conhecida porta no canto da fachada e pisou o primeiro degrau. Quinze minutos antes da hora marcada, tremendo de nervoso, vestia a boina e seu blazer risca de giz novinho em folha, finalizando o conjunto com quase meio vidro do Kaiak Urbe — “nem deu para agradecer a Joyce, aquela danada!”. Olívia já o aguardava na galeria: dava as últimas instruções aos garçons e barmen, caminhando de um lado para o outro, descalça, com seu vestido fluido e assimétrico. Num canto, um pequeno trio de jazz-psico-experimental terminava de montar os instrumentos.

— Êra! Você já chegou! – Olívia caminhou alegre na direção dele, abaixou-se e deu um longo abraço. — Que perfumado! – seu tom não disfarçou muito bem que não gostara do perfume.

— Cheguei, dona Olívia! Estou nervoso.

Ela segurou as mãos do artista entre as suas e repetiu, olhando-o nos olhos:

— Vai dar tudo certo, vai dar tudo certo. 

Eramir desvencilhou-se delicadamente das mãos e começou a dar uma volta pela própria exposição. Estava feliz, estava orgulhoso, estava sobretudo agradecido por ter seu sonho transformado em realidade sem que precisasse se esforçar demais — como acontece necessariamente com a maioria da população brasileira. Pode ser uma compensação, ele pensava: não tenho o meu amor comigo, mas ganhei a minha própria exposição. Fosse isso mesmo, ele não tinha certeza de que assinaria a barganha, talvez optasse pelo amor (quarentão que era), mas naquele momento tudo o que podia fazer era aproveitar. Deu a volta completa pelo salão, viu as imagens que costumava ver diariamente a olho nu e achou-as ainda mais belas.

Olívia se reaproximou e colocou uma mão sobre o ombro de Eramir:

— Hoje a noite promete, Êra. Tenho uma surpresa guardada para mais tarde… — Olívia passou a mão pelas costas do amigo.

— Eita! O que é? — Eramir ficou arrepiadinho.

— É surpresa.

As pessoas começaram a chegar, chegaram Dona Guio e Alaor, e Eramir logo disse para escolherem uma fotografia de presente. Chegaram muitos e muitos conhecidos de Olívia, recebidos com imensa empolgação, abraços e exclamações. Volta e meia ele olhava a porta para espiar se Joyce estava chegando, mas ela nunca vinha. Tomou alguns drinques e rodopiou pela galeria, sendo apresentado a pessoas que jamais lembraria o nome: “Você se acostuma”, dizia Olívia, toda vez que aparecia para pescá-lo de alguma rodinha em que acabava de se entrosar. Ele não reclamava, estava mais é impressionado que toda aquela gente foi ver os seus trabalhos e com os pontinhos vermelhos colocados ao lado de cada moldura. 

Enquanto se esticava para alcançar mais um gin-tônica ouviu Olívia:

— Êra, venha conhecer meus pais! Chegaram, enfim!

Eramir se aproximou do trio, trocou a bebida de mão, secou a mão gelada na calça e a estendeu a cada um.

— Sra. Ehbert, seu Ehbert, boa noite. Obrigada por virem.

— Pai e mãe tem que prestigiar, não é, Êra?! — Olívia queria muito ser simpática.

— Boa noite, seu Eramir. Belas fotografias — disse o sr. Saulo.

— Muito bonitas. Parabéns pela exposição — concordou Marisa Ehbert. — Bem, vamos pegar uma bebida. Aproveite a sua noite, caro Eramir!

Afastaram-se, sorrindo mecanicamente para tudo ao redor.

— E aí? O que achou deles? — Olívia indagou.

— Muito elegantes.

— Papai tinha que vir. Ele não perde a chance de conferir se estou fazendo algo errado.

— Não fale assim, ele só quer o seu bem. 

Laura Monteiro, a amiga videomaker, se aproximou com sua câmera filmadora presa na mão direita. Enfiou-a na cara de Eramir.

— Algumas palavras sobre a exposição?

— Sai, Laura, estamos conversando aqui! — enxotou Olívia.

— Desculpe atrapalhar os pombinhos… — ironizou a videomaker.

— Não somos pombinhos, não, dona Laura.

— Um minuto, Êra.

Olívia segurou o braço da amiga e foi caminhando com ela para um canto, falando sussurrado.

— Desculpa, amiga, você não falou ainda?

— Ainda não! Estou esperando a melhor hora.

— Agora, amiga. Olha quanta gente. Todo mundo já está meio alto, achando tudo lindo… 

— Tá, tá. Vou falar agora. Vou falar dali, na frente da foto. Grave tudo, Laura! Ah! E pegue os sapatos lá atrás também! Quando eu disser, você traz!

Olívia cruzou o salão observando as rodinhas de conversa, o povo impressionado com a sua exposição, seus pais fingindo que gostavam. Sorriu quando bateu os olhos em Eramir no bar, mais uma vez esticando o braço para pegar outro drinque. Havia preparado o discurso a semana toda e não via a hora de fazê-lo em público. Posicionou-se ao lado da fotografia dos sapatos, ergueu a sua taça de gin-tônica e tentou chamar a atenção de todos:

— Pessoal, um pouquinho de atenção aqui, por favor! — tentou, sendo ouvida apenas por aqueles mais próximos.

— Gentêêê, atenção! A Olívia vai falaaaar! — Nando Bittencourt ajudou a amiga com palmas fortes. O salão ficou em silêncio e todos se viraram para a galerista.

— Obrigada, Nando. Nossa, funcionou, fiquei até nervosa!

(Risos do público.)

— Bem, pessoal, primeiro gostaria de agradecer a presença de todos. Fico muito feliz de ver que as pessoas se interessam pela arte produzida atualmente aqui na cidade, e é uma honra fazer parte desse movimento. Segundo, gostaria de contar uma história — fiquem tranquilos, não vou demorar muito. Alguns meses atrás estava aqui no Centro para tomar uns drinques com meus amigos Nando e Laura — Nando deu um sorrisinho tímido e olhou em volta — quando vimos esta foto aqui, pendurada num poste qualquer da Dom José Gaspar. Além da foto, havia uma mensagem, “Procuro a dona desses sapatos para me juntar a seus passos”, e um número de telefone. Lembra, Eramir? — Olívia olhou para ele e ele se aproximou até ficar à vista de todos. Os olhos de Olívia brilhavam e ela falava com todo o corpo. — Ficamos maravilhados com a fotografia, com a captura desse momento, com o ângulo, com o enquadramento. Bem, vimos aqui a verdadeira arte. Eu vi também o meu futuro e o futuro desta galeria. Tentei entrar em contato com Eramir. Da primeira vez, tenho certeza que ele me achou doida. Mas depois ele me procurou. Acho que se acalmou e quis ver o que aconteceria, né, Êra?! “Essa doida me procurando para expor”. E não tive nenhuma surpresa quando vi que, além desta foto aqui, ele tinha várias outras igualmente impressionantes. Certo, mas agora devo falar o que vocês ainda não sabem, não é? O motivo principal que me fez ligar para o telefone do cartaz é que os sapatos são meus. Essa pessoa da foto, que nosso artista tanto procurou, sou eu.

“Ooooooohhhhh!”, um suspiro espantado varreu o salão. Olívia estendeu a mão para Eramir, que chegou mais perto dela, branco que nem um palmito. Laura, filmando, aproximou-se dos dois e com a outra mão estendeu o par de sapatos de Olívia.

— Aqui estão eles — mostrou ao público —, aqui estão eles, Eramir. Era eu, esse tempo todo era eu. E agora que nos conhecemos melhor, que nos aproximamos e nos apaixonamos ao longo desses meses, anuncio a nossa união: na arte e na vida!

Eramir, que já ficara sem palavras por muito menos ao longo desta história, mais uma vez não conseguiu dizer nada. Olhava para Olívia e era como se ela se movesse em câmera lenta, como se nenhum som saísse de sua boca. Viu todos sorrindo, olhando para ele comentando coisas que ele  não conseguia distinguir. Óculos esquisitíssimos o miravam e acenavam para ele, óculos redondos, vermelhos, quadrados… óculos sob modernos cortes de cabelo, óculos com pernas vestindo sapatos vermelhos… Foram muitos gins-tônicas e um imenso baque: Eramir não conseguiu ver mais nada e caiu no chão que nem uma jaca.

Dona Guio se aproximou como um raio. Ajoelhou-se, colocou a cabeça de Eramir no seu colo e tentou dar tapinhas.

— Mas Êra, acorde, Êra!

Perto do corpo inerte, os pais de Olívia também gesticulavam com um novo tom de voz. A voz de Saulo destacou-se:

— Outro artista, não! Tenha a santa paciência, minha filha! Outro artista?!

Dona Guio ouviu de enxerida e quis defender o amigo:

— Ele não é artista, não! É engraxate! Calma lá!

— Meu Deus do céu, isso aqui é um hospício! — Semiberrou Saulo, e, segurando a mão de Marisa, caminhou em direção à porta.

Nando Bittencourt colou mais quatro etiquetas vermelhas ao lado de outras fotografias. Estavam quase esgotadas. O público ia à loucura!

Olívia ajoelhou-se do lado de Dona Guio e foi tentar reanimar Êra. Laura chegou com um copo de água para respingar sobre o rosto do anão. Eramir abriu os olhos e deu um impulso para sentar. Foi contido pela mãozona de Dona Guio puxando os seus ombros para baixo.

— Mas sossegue!

— Olívia, você ficou maluca?

— Shhhh — ela colocou o dedo indicador sobre os lábios de Eramir.

— Que shiu o quê, mulher?! Como é que você não me disse nada antes? Me viu sofrer como um cão!

— De nada adiantaria falar. Se você não gostasse de mim, de que valeria saber quem era? Mas agora descanse! Depois a gente conversa sobre isso. Venha, vamos falar com os convidados. A vernissage já está para terminar. Olha lá! Você vendeu tudo!

Olívia ofereceu a mão para ele levantar e depois ajudou Dona Guio, a exausta Dona Guio:

— Bem, acho que minha função acaba aqui por hoje. Vou pra casa. Tchau, Eramir. Aproveite a sua noite e não beba demais! Vai comer alguma coisa! Uma azeitona que seja.

Procurou Alaor e não o encontrou, então decidiu sair sozinha mesmo. 

Como Nando Bittencourt já declarou em outra ocasião, um bom escândalo é sempre bem-vindo para anunciar o sucesso de uma galeria. As fotografias estavam todas vendidas. O público não se cansava de sorrir e elogiar. Nada como uma história de amor, também — Olívia era boa no marketing. Depois do burburinho dos adeuses, fotógrafo e galerista sobraram no espaço vazio. Chegara a hora daquela conversa. Os dois sentaram no chão, num canto. Olívia encostada na parede, Eramir à sua frente.

— Como assim, dona Olívia, era você esse tempo todo?!

— Sim, era eu. Lembro até quando passei por lá, logo ao amanhecer, como você contou. Saindo de uma balada ali do lado, o Roberta 3. Tinha brigado com um ex lá dentro e saí para caminhar.

— Sim, sim. Tirei a foto de manhãzinha mesmo. Mas que coisa!

— Como eu disse… O amor está mais perto do que você pode imaginar.

— Todo mundo me disse isso nesses últimos tempos, hehehe.

— E então? Acha que temos chance?

— Dona Olívia, eu não sei, talvez, se a senhorita acha, acho que também posso achar e

Olívia inclinou o corpo com vontade, e no susto Eramir deu uma recuada. Ela o puxou pelo braço e colou sua boca na dele. Beijaram-se. Beijaram-se meio hesitantes enquanto a equipe de garçons arrumava bandejas e caixas, beijaram-se desajeitados enquanto o último homem do bar carregava o balcão móvel porta afora. Beijaram-se tortos e nem perceberam a entrada de uma última pessoa na galeria. Mas não teria mesmo como perceber: a pessoa estacou no limiar, espantou-se e desceu as escadas sem olhar para trás.


CAPÍTULO 14: A GRANDE NOITE – parte 2

Podemos ouvir passos apressados na escada, os mesmos passos ganhando a calçada. Intercalados por suspiros, os passos seguem errantes mas determinados, procurando um ponto para deter-se. Não queriam traçar o caminho conhecido da volta pra casa. Traçaram outro, o da boate mais próxima, como se seguissem o som da música. Joyce havia saído tarde do Hirota. Dera uma rápida passada em casa, para tomar um banho e aparecer arrumada na exposição. Achou que haveria tempo, que Eramir ainda estaria ali e ouviria o que ela tinha a dizer. Agora não importava mais. Eramir havia feito a sua escolha: é claro que estava apaixonado por Olívia, esse caso não devia ser recente.

A jovem sequer teve forças para iniciar um escândalo: o balde de água fria virado sobre sua cabeça imobilizou-lhe os braços e roubou seu grito e seu fôlego. Restou-lhe correr para um canto escuro e caótico para tentar esquecer de tudo — ao menos por aquela noite, já que na manhã seguinte e em todas as outras veria aquela mesma lembrança andando e falando pelos cotovelos no corredor da pensão. Sentou no balcão e pediu uma dose de tequila.

A menos de um quilômetro dali — estávamos antes na Vieira de Carvalho — o mais novo casal paulistano caminhava em direção à Praça Dom José Gaspar. Nando Bittencourt, Laura Monteiro e outros amigos do mundo das artes já haviam se acomodado no mesão do bar Clavícula e esperavam as estrelas da noite para brindes e mais brindes na festa pós-festa. Quando viram Olívia e Eramir entrando de mãos dadas, explodiram em aplausos. A exposição fora mesmo um sucesso: o público delirou com as fotografias de Eramir, muito por seu resultado, mas mais ainda por seu contexto. O discurso de Olívia fora o que faltava para que o artista conquistasse definitivamente o coração de seu público, e seu nome já circulava como “único artista contemporâneo que vendeu tudo na noite da vernissage”.

Olívia mandou vir mais prosecco e um balde com três garrafas foi colocado na mesa. Eramir arregalou os olhos.

— Viu só, Êra! É isso que dá ser famoso. Esse bar é praticamente a minha segunda casa! Ha-ha!

O rapaz apenas sorria. Não conseguia ouvir nada das conversas, mostrava os dentes e acenava um tchauzinho quando percebia que falavam dele. Mas estava contente com o sucesso — na arte e no amor — queria ver como era viver assim afinal. Talvez levasse algum tempo para se acostumar à nova couraça mas podia senti-la se ajeitando sobre os seus ombros.

— Êra, querido — Nando Bittencourt puxou conversa —, conta pra gente como foi que você se inspirou para tirar fotografias tão… tão… profundas?!

— Bem… foi só olhar para as coisas e ver que elas podem ser belas, de algum jeito elas podem ser belas… 

Olívia ergueu a taça de prosecco:

— De algum jeito as coisas podem ser belas!

Todos ergueram as próprias taças:

— As coisas podem ser belas!

Eramir virou a taça na garganta. Todos aplaudiam e faziam que sim com a cabeça.

— É verdade que você era engraxate? — uma voz cruzou a mesa.

— Não só era como ainda sou.

— Ainda bem que você não vai mais precisar ser, né, Êra! Vamos trabalhar bastante para bombar seu nome por aqui e no exterior. Já posso nos ver em Barcelona! Você iria adorar Berlim!

— Se eu não fosse engraxate, nunca teria tirado essas fotos. Para tirar mais fotos dessas tenho que continuar engraxate aqui na Dom José.

— Um homem que não se corrompe! Que lindo! — suspirou Olívia, tentando esconder a preocupação.

Todos da mesa ergueram as taças:

— Um homem que não se corrompe!

Olívia fez tim-tim na taça de Eramir e o olhou fundo nos olhos. 

— A você, meu querido — deu um gole e foi se aproximando para beijá-lo.

Eramir recuou instintivamente mais uma vez e quase levou o seu segundo tombo da noite. Sorte que Nando estava bem atento e viu quando a cadeira do artista ficou apoiada apenas nos dois pés de trás.

— Opa! Não vai ainda, não! Sabe, Êra, andei pensando… Acho que vou fazer uma nova performance aqui na praça, explorar o seu cenário… O que você acha de fotografá-la? Vai chamar fugere urbem, que é “fugir da cidade”, em latim…

— Claro, seria um prazer, mas… se é para fugir da cidade… por que você vai fazer na cidade?

— Hahahahahaha! Eramir, você é muito figuraaa! — Nando ria e estapeava a mesa. — Essa é a ironia, essa é a graça da coisa…

— Tá bem… O senhor que manda!

— Eramir, aqui, querido! — do outro lado da mesa, um homem mais velho, calvo e de óculos vermelhos e redondos o chamou.

— Pois não meu senhor!

— Já tem novas analógicas para a próxima exposição?

— Opa! Dona Olívia me deu mais um filme de 36 poses. Vou providenciar!

Olívia deu um tapinha na perna do namorado:

— Êra. Sou sua namorada agora.

— É verdade, dona Olí… er… meu bem. É que você é a dona dos sapatos!

É claro que assim como eu e você, leitor, Eramir também sentia que havia algo errado naquela união. Algo não cheirava bem, apesar de todos os esforços de ambos, do ataque ostensivo de Olívia, da vontade que o fotógrafo tinha de encontrar a dona dos sapatos e ser feliz no amor. Os sapatos estavam ali, ao lado dele, e às vezes roçavam seus tornozelos suspensos, mas ele não conseguia respirar aliviado. Não que ele se decepcionara com a descoberta — ela apareceu, enfim! —, tampouco que não merecia uma princesa daquelas, mas Olívia era literalmente de outro mundo. Era isso, no entanto, o que mais a animava: a possibilidade de envolver-se com alguém talentoso e trabalhador, já que todos os talentosos com quem se envolvera antes só ficavam em casa criando e fumando maconha. É claro que também tinha a imagem desconcertante que o casal esbanjaria no mundo das artes. Seria perfeito se Eramir estivesse gostando… Quanto a isso, ela achava, o tempo poderia ajudar. Logo Eramir se acostumaria com a ideia (Olívia sabia que podia ser um pouco assustadora) e veria que o destino dos dois era ficarem juntos. Seriam felizes, famosos, e fariam muitas exposições urbano-conceituais.

Eram duas e meia da manhã e o prosecco comia solto. Eramir já estava na fase dos bocejos e não aguentava mais aquela falação, sonhando com a majestosa trinca banho, pijama e cama. Resolveu ir até o banheiro para lavar o rosto e ficar cinco minutos sozinho, em silêncio. No caminho, uma jovem pediu-lhe que autografasse um pé de seu sapato e uma senhora descolada se apresentou como editora da seção “Terraço paulistano” da Vejinha, pedindo o contato de sua agente para entrevistá-lo na próxima edição da revista. Ele passou o próprio telefone e a senhora agradeceu enfaticamente tamanha humildade.

Ao voltar para a mesa, todos, exceto Olívia, haviam ido embora. 

— O pessoal foi pra uma festinha ali na Barão. Eu disse que ia te esperar e íamos juntos. Vamos?

— Não me leve a mal, dona Olívia… Olívia… Estou morrendo de sono e quero ir pra casa.

— Eramir! Todo mundo vai estar lá! Você precisa me ajudar a divulgar a exposição!

— Vai ter que ficar para outro dia, me desculpe… Eu realmente preciso dormir.

— Você não gostou da surpresa, não é?

— Como a senhorita disse… Foi uma surpresa… Uma surpresa e tanto. Ainda estou um pouco em choque, para falar a verdade.

— Entendi. Bem… Eu pensei que você ficaria feliz. Estávamos tão próximos, tudo estava indo bem…

— Gosto de você como amiga, dona Olívia… Me dê um tempo para pensar…

— Você nunca vai conseguir deixar de me chamar de “dona Olívia”, não é?

— Talvez não… Passe lá na galeria qualquer dia para pegar o pagamento pelas vendas. Foi uma noite muito legal. Desculpe qualquer coisa…

— Imagine, dona Olívia. Foi uma ótima noite. Muito obrigado.

— Tchau, Eramir.

Olívia saiu do bar e caminhou até um táxi parado ali perto. Eramir viu o preço do prosecco no cardápio, assustou-se, e ficou aliviado quando o garçom disse que já estava tudo pago. Resolveu andar até a pensão. O sereno tocava-lhe o rosto e ele se sentia quase feliz, passeando no Centro que era todo seu, com figuras da madrugada pululando aqui e ali. Chegando à porta da pensão, tateou os bolsos e não encontrou as suas chaves. Deviam ter caído do blazer no desmaio, ou no banheiro, ou pelo caminho. Foi uma noite e tanto. Consultou o relógio: três e quarenta. Dona Guio abriria as portas às seis. Era sentar e esperar. Eramir sentou no degrau da entrada da pensão, encostou-se na porta e apoiou a cabeça no batente. Levantou a gola do blazer para proteger o rosto e tentou fechar os olhos — a Amaral Gurgel deserta à sua frente, duas pistas e uma ilha de pedra entre elas.

Passou alguns minutos assim quando começou a ouvir o som de passos, amplificado pelo silêncio e pelo eco debaixo do Elevado. Abriu os olhos e teve de abrir de novo algumas vezes para conferir se o que via era mesmo real. Nítido, sob a garoa e a luz da rua, um par de sapatos vermelhos se aproximava. Cruzou a primeira pista, subiu e desceu a ilha. Vinha cruzando a segunda pista, na mesma linha da porta da pensão, quando Eramir enfim reconheceu Joyce. Ela deu uma corridinha para escapar da garoa e sentou desengonçada no mesmo degrau da entrada.

— Fazendo o que aqui a essa hora, Êra? — Ele pôde sentir o bafo da tequila.

— Perdi as minhas chaves. E você, Joyce? Essa hora andando sozinha… Toma veste isso aqui — tirou o blazer e cobriu as costas da amiga.

— Fui pra balada. Como foi a festa?

— Foi boa. Vendi todas as fotos, Joyce! 

— Muito bem. E você comemorou bastante com a Olívia, não?

— Você acredita que ela era a dona dos sapatos? Mas não rolou, não…

— Não acredito.

— Mas não rolou nada, não…

— Hm. Não foi o que eu vi…

— Viu onde? Na galeria?

— Cheguei tarde demais… 

Eramir olhou de novo para os pés da Joyce.

— Ô Joyce… Esses sapatos são seus?

— É claro que são.

— São novos?

— Não, Êra… Já usei centenas de vezes… 

Joyce chegou ainda mais perto de Eramir e apoiou a cabeça em seu ombro. Os dois ficaram em silêncio, esperando Dona Guio abrir a porta. Joyce tinha a chave, mas não quis falar nada.  

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FIM

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