Igatu-Paranapiacaba

Horas de estrada depois e mais de caminhada chegamos a Igatu. Entre as montanhas a cidade é mais vazia do que parece ao longe, cada canto um ninho escrostado na montanha e suas paredes, subidas, fazem o silêncio das pedras. Casario. ​Era ainda começo mas parecia fim da tarde, e pensamos que era melhor nos mantermos unidos. Diminuímos a velocidade dos passos espontaneamente, em coro, para observar tudo e encontrar o que buscávamos no fim do labirinto.

Entre os blocos de pedra dos muros, olhos invisíveis perguntavam-se o que fazíamos ali àquela hora; talvez perguntassem quem éramos, se pudessem. Algo observava, observamos. Só era possível fazer silêncio, em silêncio permanecíamos: era imposto e voluntário, nossas mãos se esbarravam suavemente enquanto apertavam-se cada uma em si.

A neblina parecia suave ao longe, estávamos no meio dela e de seu peso.

*

​Chegar a Paranapiacaba levou tempo, trem, estrada, passos. E depois descer ao vale, o vale que parecia escondido entre as ladeiras, cidade enterrada. Era dia, era manhã, o vale estava mais frio por dentro do que as bordas, fazia um ensaio de sol.

Caminhar pelas ladeiras de pedra era sentir o silêncio das casas posicionadas em linha, placas de rua, árvores de poucas folhas (folhas pelo chão), ferrugem, cercas abandonadas. Um trem antigo estacionado ao fundo como um náufrago, um monumento à eterna espera. A torre do relógio – um lugar muito distante que poderia ser aqui.

Era de manhã. O lugar, o assunto era nosso sonho e passamos horas no fundo do vale, discutindo o sonho, até o começo da tarde, quando luzes alaranjadas ao redor da praça: imensos postes à espreita se acenderam, abandonamos o sonho para olhar em volta, e olhando em volta era só neblina, só neblina, calamos.

Era ainda começo mas parecia fim da tarde. Pensamos que era melhor ir embora, escalar as montanhas do vale, subir até a borda antes da noite.

Sentimos o silêncio dentro, a névoa, no estômago. Pudemos conversar sem ruídos.

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