Meu vizinho Poe

Como qualquer pessoa normal que muda de vizinhança, passei os dois primeiros meses no prédio novo sem falar com praticamente ninguém, além dos protocolares “bons dias” de elevador. É um edifício silencioso e muito calmo, poucos entram, poucos saem, e o grupo de wathsapp dos moradores serve apenas para avisos de urgência relacionados à portaria eletrônica. Ótimo.

Num fim de tarde, dei de cara com um vizinho plantado ali no hall de entrada sem qualquer intenção aparente, já que não moveu um passo para entrar no elevador quando saí. Sempre cruzava com ele por ali, no térreo, conversando longamente com alguém, e foi numa ocasião dessas que o zelador nos apresentou. Mas é claro que não lembrava seu nome.

— Boa noite.

— Boa noite, Juliana. Vai passear?

Não sou o tipo de pessoa que puxa assunto. Faço parte de outro grupo: os de que, quando perguntados, não param de responder.

— Sim. Preciso sair um pouco. Trabalho em casa, e se não prestar atenção, passo o dia com a cara enfiada na tela e deito para dormir sem respirar o ar da rua…

— Faz muito bem.

— Tenho ido caminhar à tarde, também, tomar um pouco de sol.

— Ah, muito bom. Que frio que tem feito! Essas paredes são grossas demais, deixam o apartamento gelado! Já aconteceu comigo de sair todo agasalhado e ter que ficar carregando casaco o dia inteiro! Você sabe que coloquei termômetros pela casa para conferir a diferença de temperatura entre os ambientes internos e de fora?!

— Não diga! E aí?

— Tem dia que dá uns cinco graus de diferença! É um gelo. Passei essa última semana toda enrolado no cobertor.

Não sei por que — talvez um reflexo involuntário dos aspirantes a ficcionistas ou dos leitores compulsivos seja relacionar tudo o que lhes acontece a alguma cena já lida — lembrei do conto O enterro prematuro, do Poe: aquele primeiro caso em que a ossada da esposa do famoso advogado cai do mausoléu da família, ainda enrolada em sua mortalha. Fiquei olhando para o meu vizinho peculiar: alto, pálido, olhos claros, cabelos grisalhos meio desgranhados e meio presos em um rabo de cavalo, mãos enormes e ossudas, vestido em diferentes tons de bege, óculos quadrados presos numa correntinha.

— Você também mora sozinha?

A pergunta me trouxe de volta à conversa, depois de várias frases às quais não consegui prestar atenção.

— Sim, moro sozinha.

— E trabalha em casa?

— Sim, em casa.

— Eu também. Você sabe que passei já umas poucas e boas por isso… Uma vez desmaiei. Estava lavando a louça e, de repente, pá… acordei no chão da cozinha. A-pa-guei. Teve outra vez, no banheiro, enquanto escovava os dentes. Fiquei desesperado, me viraram do avesso de tanto exame, porque, né, não pode ficar desmaiando assim… Depois descobriram: síndrome vasovagal. Agora tomo os remédios certos para isso e me trato, mas quando aconteceu fiquei bem preocupado. Teve uma vez que caí e quebrei o nariz. Mal podia me mexer, mas consegui dar um jeito de chamar a ambulância.

Aqui, falei sem pensar. Falei sabendo que não deveria, eu sabia. Mas era tarde demais.

— Sabe que já pensei numa coisa dessas? Eu, aqui, sozinha… Se acontecer algo comigo minha família vai levar dias para saber. Posso cair e machucar as costas ou o pescoço, e não conseguir me mover. E morrer. Em casa. Sozinha. Ninguém vai saber. Essa possibilidade me apavorou numa das primeiras noites, mas logo passou…

— Você sabe que, antes de morar aqui, morei num outro prédio: era tipo esses prédios de corredores longuíssimos, com muitos apartamentos. Uma vizinha que morava logo abaixo de mim — morava sozinha também — morreu dentro de casa. Morreu não, né

— Nossa, que horror.

— É… E fui eu que descobri. Comecei a sentir um cheiro horrível, um cheiro inexplicável de podre. Durou dias e não passava, não passava. Achei que era algo do ralo, algo do meu apartamento, revirei a casa do avesso de tanto procurar, mas não tinha nada estragado ali.

— E aí?

— E aí que comecei uma busca pelo prédio. Subi e desci as escadas, caminhei pelos corredores e quando passei na porta da casa dela o cheiro estava insuportável. Não sei como os vizinhos de porta não perceberam antes.

— Nossa, e aí?

— E aí liguei para a Polícia. Chamei o síndico, zelador, todo mundo… Eles arrombaram a porta, né, e ela estava morta lá. Aaaah, já devia fazer uma semana, pelo menos.

— Que triste!

— Foi, foi mesmo. E sabe que era uma menina nova, bonita… Não sabemos, né, os mistérios dessa vida… o que passava na cabeça dela.

Ele se deparou com os meus olhos arregalados e logo voltou a falar.

— Não! Ei! Mas isso não vai acontecer com você, fique tranquila.

— Não… É claro que não… Foi só uma coisa que pensei uma vez. Não penso mais nisso, não — ri de nervoso. — Já está tudo bem.

Por um descuido de meio milésimo, além de confessar ao um vizinho desconhecido o meu novo maior medo, tive de dedicar bons minutos a tranquilizá-lo enquanto ele também me tranquilizava. Estava presa naquela conversa como estaria presa se a porta do meu banheiro batesse, derrubando a maçaneta frouxa no chão, e eu não tivesse como abri-la. Depois de uns dez minutos de conversa, a tarde caindo mais e mais, forcei a porta invisível.

— Bem… Preciso ir, não posso me atrasar.

— Vá, sim. Mas viu, tome cuidado também quando for sair por aí, principalmente à noite. Não tire o celular da bolsa na rua e evite caminhar…

— Ah, sim. Presto bastante atenção. Obrigada.

— Às vezes só atenção não basta. Tem que prevenir mesmo.

— Tá certo. Obrigada. Bem, agora eu vou. Me desculpe, eu não lembro o seu nome.

— É Edgar.

— Tchau, Edgar. Boa noite.

— Bom passeio.

Deixei o hall de entrada e dei uma olhada para trás, para me certificar que meu vizinho Edgar ainda estava por ali, de que aquele diálogo não havia sido um delírio. Ele puxava a pesada porta da escada de incêndio e entrava na escura espiral — a ponta de seu casaco, o calcanhar por último. Agora sei que se algo acontecer comigo quem descobrirá é o Edgar, e, estranhamente, meu receio se acalmou.

Leave a Comment

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *