O barqueiro

Leitura de “As cartas perdidas” e “Os anjos”, capítulos dO livro do riso e do esquecimento, de Milan Kundera.

 

Kundera leitor de Mann

Em O livro do riso e do esquecimento, Kundera  deixa clara a influência de Mann em seu texto quando o cita no capítulo “As cartas perdidas”, ou aquele capítulo que conta a história de Tamina, e dedica-lhe o início do excerto 17. Ele cita uma pequena novela do autor alemão e destaca um detalhe de uma cena, uma cena em que há uma “morte bela, como é bela para todos aqueles que sonham com ela quando moços”. Depois dá o seu parecer e afirma crer que Mann criou nesse detalhe narrativo — “Uma nota leve, límpida, metálica; como de um anel de ouro caindo num vaso de prata” — para fazer nascer o silêncio necessário à contemplação da Beleza.

Kundera continua e nega que ainda exista beleza na época em que escreve o texto: “Ela desapareceu sob a superfície do barulho”. Sabemos que a Beleza foi um tema explorado por Mann em Morte em Veneza (juro que tentei suavizar essa rima), e se o autor tcheco não cita esta novela em seu capítulo, talvez seja por não querer entregar o seu ouro tão facilmente aos leitores, pois há um diálogo expressivo entre as duas obras — entre a morte nas duas obras —, e é sobre esse diálogo que pensa este texto. Fios conectados, então, vamos à ficção.

Em todos os capítulos do livro Kundera insere considerações pessoais e reflexões sobre sua vida em Praga e sua partida para o exílio — vale lembrar que O livro do riso e do esquecimento foi o primeiro que o autor escreveu na França e em francês. “As cartas perdidas” conta a história de Tamina, que também deixa o seu país, e inicia com seu batismo, sob “um nome que nenhuma mulher jamais teve”. Nesse capítulo o autor alerta desde o início que se trata de uma ficção: “Imagino que ela é bela, alta, que tem trinta e três anos e é de Praga”.

Tamina trabalha como garçonete em um café de uma cidade de interior sem nome e perde seu marido acusado e perseguido pelo regime comunista logo depois que o casal conseguira deixar a Tchecoslováquia ocupada. Ela tem pouco dinheiro e a história orbita em torno de seu desejo de ter de volta seus diários e cartas, registros e correspondências, que encontram-se na casa da ex-sogra, em sua cidade natal. A personagem principal anseia por esses papéis, sente que começa a esquecer o marido. Isto a inquieta: estar de mãos atadas e precisar pedir favores, sem revelar sua razão por querer preservar essa memória tão íntima e sua a todo custo; mas não a impulsiona, já que se nota em Tamina certa apatia, talvez desencadeada por sua perda, talvez pela total incerteza do futuro.

Todas as suas esperanças viram ruína; e mais adiante, no capítulo “Os anjos”, Tamina encontra Raphaël, um misterioso cliente que entra no café e, sentado do outro lado do balcão, faz-lhe perguntas, convidando-a por fim a partir com ele “Para um lugar onde as coisas sejam leves como a brisa. Onde as coisas tenham perdido o seu peso. Onde não haja remorsos”. Ele a tira dali, conduzindo-a a uma espécie de escarpa, onde, lá embaixo:

Um menino de cerca de doze anos esperava na praia, onde um pouco antes não havia o menor vestígio de vida. Segurava pela ponta de uma corda um barco que balançava levemente à beira d’água, e sorria para Tamina.

Ela se virou para Raphaël. Ele também sorria. Ela os olhou alternadamente, e então Raphaël desatou a rir, e o menino fez o mesmo. Era um riso insólito, porque não estava acontecendo nada de engraçado, mas, ao mesmo tempo, um riso contagioso e engraçado: que a convidava a esquecer a angústia e lhe prometia algo vago, talvez alegria, talvez paz, assim Tamina, que queria escapar de sua angústia, pôs-se a rir docilmente com eles.

“Está vendo?”, disse-lhe Raphaël. “Você não tem nada a temer.”

Tamina subiu no barco, que começou a balançar sob o seu peso. Ela se sentou no banco na parte de trás. O banco estava úmido. Ela usava um vestido fino, de verão, e sentiu a umidade nas nádegas. Esse contato pegajoso sobre a sua pele despertou-lhe a angústia.

O menino deu um impulso para afastar o barco da praia, pegou os remos, e Tamina virou a cabeça: Raphaël continuava no mesmo lugar e os seguia com os olhos. Sorria, e Tamina achou algo estranho nesse sorriso. É! Ele sorria balançando a cabeça de maneira imperceptível! Sorria e balançava a cabeça da direita para a esquerda, com um movimento totalmente imperceptível.

10
Por que Tamina não pergunta para onde está indo?

Aquele que não se preocupa com o objetivo não pergunta para onde está indo!

Ela olhava o menino que estava sentado diante dela e que remava. Achava-o fraco e os remos muito pesados.

“Não quer que eu faça isso por você?”, perguntou ela. O menino concordou com prazer e largou os remos.

Trocaram de lugar. Ele se sentou na parte de trás, olhou Tamina remar e puxou um pequeno gravador que estava debaixo do banco. Um rock começou a tocar, ouviam-se guitarras elétricas e palavras, e o menino começou a se contorcer no ritmo da música. Tamina o olhava com repugnância: aquela criança rebolava com movimentos de adulto que ela considerou obscenos.

Abaixou os olhos para não vê-lo. Nesse momento, o menino aumentou o volume do gravador e começou a cantarolar. Ao fim de um instante, quando ela ergueu novamente os olhos para ele, o garoto lhe perguntou:

“Por que você não canta?”.

“Não conheço essa música.”

“Como não conhece? É uma música que todo mundo conhece.”

Ele continuou contorcendo-se sobre o banco, e Tamina se sentiu cansada: “Não quer revezar um pouco comigo?”.

“Reme!”, replicou o menino rindo.

Mas Tamina estava realmente cansada. Colocou os remos de volta sobre o barco para descansar: “Está perto?”.

O menino apontou para a frente. Tamina se virou. A praia já não estava muito distante. Oferecia ao olhar uma paisagem diferente daquela que tinham deixado havia pouco: era verdejante, relvosa, coberta de árvores.

A cena narra o percurso e a chegada de Tamina a uma ilha de onde ela não mais sairá. Impossível não lembrar Caronte, o barqueiro do Hades, que conduzia as almas ao mundo dos mortos. Em vez de sua descrição mitológica consagrada, como um idoso macabro e assustador, Kundera representa o seu Caronte como um menino. A cena continua insólita, é verdade, no riso do garoto e de Raphaël, no fato de Tamina assumir os remos e de o menino dançar e cantar de maneira repugnante, mas a condução de Tamina ao mundo dos mortos é suavizada, por assim dizer, pela ideia de paraíso que a praia, do outro lado, promete.

Seria um lugar em que Tamina poderia “esquecer seu esquecimento”, nas próprias palavras de Raphaël, e viver (viver?) sem culpa por não ter conseguido preservar intacto cada canto de sua memória. Seria também a sua morte.

 

O barqueiro de Mann

Grande sorte foi reler O livro do riso e do esquecimento logo depois de reler Morte em Veneza. Foi total acaso, coisa de outro mundo, alinhamento propício dos planetas, a mais feliz das coincidências. Estava com a história de Gustav Aschenbach fresca na memória, e, assim que li o trecho anterior, de Tamina chegando à ilha, lembrei-me do trecho a seguir, do Mann:

Quem não teria de combater um ligeiro arrepio, um secreto temor e aflição ao embarcar pela primeira vez, ou depois de muito tempo, numa gôndola veneziana? Esse estranho veículo, herança intacta de tempos medievais, e tão singularmente negro como, dentre tudo o que existe, só um ataúde pode ser, lembra aventuras criminosas e mudas na noite de águas rumorejantes, lembra ainda a própria morte, esquifes e sepulturas lúgubres e a derradeira viagem silenciosa. E alguém teria notado que o acento desses barcos, aquela cadeira de braços, laqueada de negro-esquife, e estofada em preto fosco, é o acento mais macio, voluptuoso e embalador do mundo? Aschenbach o percebera, quando se acomodara aos pés do gondoleiro defronte à sua bagagem, cuidadosamente arrumada no bico recurvado da proa. Os gondoleiros continuavam discutindo, com gestos ameaçadores e palavras ásperas, incompreensíveis. Mas o silêncio singular da cidade aquática parecia absorver suas vozes com suavidade, torná-las etéreas e dispersá-las sobre as águas. Fazia calor ali no porto. Acariciado pelo sopro morno do siroco, recostado nas almofadas, à mercê do elemento complacente, o viajante cerrou os olhos, saboreando a indolência tão rara quanto deliciosa. A travessia será breve, pensava ele, quem dera durasse para sempre! Oscilando suavemente, sentia que escapava ao tumulto e à algazarra.

Como tudo à sua volta se tornava silencioso, cada vez mais silencioso! Não se ouvia nada a não ser o chapinhar do remo, o baque oco das ondas contra o bico da proa, que se erguia a pique sobre a água, negro, com a ponta talhada em alabarda, e ainda um terceiro ruído, uma fala, um sussurro — o murmúrio do gondoleiro, que resmungava entre dentes, com a voz entrecortada pelo trabalho dos braços. Aschenbach ergueu os olhos e com ligeiro assombro notou que a seu redor se estendia a vasta laguna e que navegavam rumo ao mar aberto. Parecia, por conseguinte, que não devia abandonar-se a um repouso demasiado descuidado, mas que era preciso manter-se um pouco atento para fazer cumprir sua vontade.

— Vamos para a estação dos barcos — disse ele, virando a cabeça um pouco para trás. O murmúrio emudeceu. Não recebeu a resposta.

— Vamos para a estação dos barcos! — repetiu, voltando-se inteiramente e encarando o gondoleiro que, às suas costas, de pé na popa alteada, se destacava contra o céu desbotado. Era um homem de fisionomia desagradável, brutal mesmo, vestindo roupa azul de marinheiro, com uma faixa amarela enrolada na cintura e um chapéu de palha já sem forma, cujo trançado começava a desfiar, atrevidamente caído de lado. O formato do rosto, o bigode crespo sob o nariz curto e arrebitado faziam com que não parecesse de modo algum italiano. Embora de constituição mais para o franzino, a ponto de não parecer especialmente indicado para aquele ofício, manejava o remo com grande energia, empenhando o corpo a cada remada. Por vezes o esforço fazia com que contraísse os lábios, expondo seus dentes brancos. Com as sobrancelhas ruivas franzidas, olhava por cima de seu passageiro, ao responder num tom decidido, quase grosseiro:

— O senhor vai para o Lido.

Aschenbach replicou:

— Certamente. Mas só tomei a gôndola para me levar até São Marcos. Quero pegar o vaporetto.

— Mas não pode pegar o vaporetto, meu senhor.

— Por que não?

— Porque o vaporetto não transporta bagagem.

— Isso é problema meu. Talvez eu queira deixar a minha bagagem em um depósito. O senhor pode tratar de voltar.

Silêncio. O remo chapinhava, a água golpeava a proa com um ruído surdo. E o monólogo resmungado recomeçou: o gondoleiro falava entre dentes consigo mesmo.

O que fazer? Sozinho no mar com aquele homem estranhamente insubordinado, sinistramente decidido, o viajante não encontrava um meio de fazer valer sua vontade. Além do mais, se não se exaltasse, que suave repouso seria aquela travessia! Não havia desejado que ela fosse mais longa, que pudesse prosseguir indefinidamente?

O mais sensato era deixar as coisas seguirem seu rumo, o que, além de tudo, era extremamente agradável. Como um feitiço a indolência parecia emanar de seu acento, daquela cadeira de braços, baixa, estofada de preto, tão docemente embalada pelas remadas do despótico gondoleiro às suas costas. A hipótese de ter caído nas mãos de um criminoso roçou como um sonho a mente de Aschenbach — sem conseguir exortar seus pensamentos a uma defesa ativa. Mais incômoda parecia ser a possibilidade de que tudo visasse apenas a uma mera extorsão de dinheiro. Uma espécie de sentimento do dever ou de orgulho, a lembrança, por assim dizer, de que se tem a obrigação de evitá-lo, possibilitou-lhe recuperar o ânimo. Perguntou:

— Quanto cobra pela travessia?

E, olhando por cima de sua cabeça, o gondoleiro respondeu:

— O senhor pagará.

Diante disso, só havia uma resposta cabível. Aschenbach disse mecanicamente:

— Não pagarei nada, absolutamente nada, se o senhor não me levar para onde eu quero.

— O senhor quer ir para o Lido.

— Mas não com o senhor.

— Eu navego bem.

Isso é verdade, pensou Aschenbach, e relaxou-se. É verdade, navegas bem. Mesmo que só estejas interessado em meu dinheiro e, com um golpe de remo pelas costas, me envie para a mansão do Hades, terei feito uma boa viagem.

Porém não aconteceu nada disso. Tiveram até companhia: um bote com músicos ambulantes, homens e mulheres que cantavam ao som de guitarras e bandolins e insistiam em navegar lado a lado com a gôndola, preenchendo o silêncio que reinava sobre as águas com sua poesia mercenária. Aschenbach atirou algumas moedas no chapéu que lhe estendiam. Calaram-se então e se afastaram. E novamente se fez ouvir o sussurro entrecortado do gondoleiro em seu monólogo desconexo.

E assim chegaram por fim, balouçando na esteira de um vapor que partia rumo à cidade. Dois funcionários municipais andavam para cima e para baixo ao longo do cais, com as mãos nas costas, o rosto voltado para a laguna. Junto ao pontão, Aschenbach desceu da gôndola auxiliado por um desses velhos, sempre a postos com seu gancho de ferro em qualquer atracadouro se Veneza; e, como estava sem trocado, dirigiu-se ao hotel vizinho ao pontão para trocar o dinheiro e acertar as contas com o gondoleiro, como bem lhe aprouvesse. É atendido no saguão, retorna e encontra seus pertences numa carreta no cais — gôndola e gondoleiro haviam desaparecido.

Diante da comparação dos dois trechos e de suas notáveis semelhanças é possível dizer que Kundera criou, com Tamina, uma releitura da cena de Mann. No capítulo de Kundera a travessia de Tamina representa seu fim — ela ainda viverá algum tempo na insólita ilha, de onde tentará escapar por não suportar a “insustentável leveza” dali. A travessia de Aschenbach, o solitário escritor de meia-idade, está ainda no início do enredo, e ao longo dos capítulos ele tem diversas oportunidades de deixar Veneza — diversas oportunidades e diversos motivos —, mas não o faz: por ter descoberto em seu destino a Beleza (a beleza que Kundera dá como perdida em sua obra ao fazer a remissão a Mann, lembramos), está disposto a tê-la para si e a apreendê-la até o último segundo. Então, das várias viagens que seu personagem faz por terra e água mesmo depois de chegar à cidade flutuante, pode-se dizer que esta é a sua definitiva; é ela que assina a sua carta de morte.

O barqueiro de Mann é ameaçador, e o próprio narrador menciona “a mansão do Hades” num acesso de ironia de seu personagem. Sua caracterização se vale de palavras negativas como “despótico”, “estranhamente insubordinado”, “sinistramente decidido”. Mesmo assim, o controlador e metódico Aschenbach é forçado a decidir não se exaltar e tentar aproveitar a viagem, depois de resistir inutilmente a ela. Gustav e Tamina, após certa hesitação, entregam-se cada um à sua viagem, e Tamina chega até mesmo a guiá-la.

Em seu devaneio sobre as gôndolas no início da travessia está prenunciado que Gustav vai ao encontro de sua morte (assim como no próprio título da novela). A comparação da embarcação a um ataúde, o arrepio e o conforto do corpo sentado no estofado e a exaltação do silêncio do mar, do silêncio dos remos batendo na água, apenas comprovam isso. Vale ressaltar que a postura em que morre Aschenbach, de frente para o mar, “caído de lado na cadeira”, retoma a cômoda postura de seu corpo no assento da gôndola durante a travessia com seu Caronte. E que, numa oposição, na recriação de Kundera o assento do bote de Tamina é gelado e desconfortável.

Nas duas cenas há música: em Veneza um bote com músicos ambulantes, com guitarras, bandolins e sua “poesia mercenária”; no local sem nome de Tamina um rádio, um rock barulhento. No momento em que a criança puxa o rádio e impõe seu barulho, comprova-se a quebra do silêncio de que Kundera fala quando menciona Mann; o mote é retomado na reprodução de sua cena da travessia. Mesmo parecendo de início inocente e puro, o barqueiro de Tamina também revelou seu comportamento despótico e agressivo quando a questiona sobre o rock que colocou e dança de maneira vulgar e quando a ordena que reme, mesmo após sua queixa de cansaço.

Os dois barqueiros intimidam seus passageiros, como a morte intimida qualquer um que vive, até que os fazem aceitar o destino implacável. Aschenbach não resiste, então, a partir do momento que chega a seu destino, que pode ser considerado tanto Veneza, como a descoberta da Beleza em seu estado puro, como a sua morte iminente, deleita-se nas aflições de sua busca. Gustav se entrega à sua condição. Tamina engana-se. Voltemos a Tamina.

 

A luta pela lembrança

Antes de ser conduzida à ilha, antes mesmo de se dar conta da urgência que tinha de recuperar seus cadernos e papéis, Tamina tentou conduzir-se a si própria para o mundo dos mortos depois da morte de seu marido:

Um mês mais tarde, com o resto do dinheiro economizado, ela fora para a beira-mar. Vestira seu maiô e tomara um tubo de tranquilizantes. Depois nadara para longe, para o alto-mar. Achou que os comprimidos provocariam um imenso cansaço e que ela iria se afogar. Mas a água fria e seus movimentos de atleta (sempre fora excelente nadadora) a impediram de dormir e os comprimidos eram certamente mais fracos do que ela imaginara.

Diante do insucesso em completar seu propósito a personagem decide viver uma espécie de morte em vida, torturada pelo desgaste das lembranças e lutando para mantê-las à superfície, como lemos no desenvolvimento de sua história até a chegada de Raphaël, seu chamado para a travessia definitiva. Nesse momento ela desiste de lutar por suas lembranças e é seduzida por um estado leve e livre do peso da existência.

No entanto, cercada de pureza — a ilha selvagem, as crianças (poderíamos dizer que são a representação da Beleza de que fala Mann? Sua aparição excessiva? A beleza abundante?) —, Tamina agoniza: estava equivocada sobre uma vida sem o peso da memória, e a pureza prometida deixa de ser pureza quando se encontra com o desejo. Ela precisa lutar e resistir, e pela primeira vez lemos a braveza de Tamina, a silenciosa, a que nunca resistiu senão em seu silêncio resignado. Mas para isso ela também teria de se render à permanência, à repetição, o que a apavorava, pois fazia borrar as suas lembranças. Tamina quis fugir, mas não havia barco na ilha. Tampouco era possível partir do mundo dos mortos ao mundo real, já que ela não sabia a que se agarrar, a que mundo queria voltar. Tornou-se impossível para Tamina (uma Tamina sem memória) fazer a viagem de volta e salvar sua “extraordinária sede de viver e seu corpo”, e desta vez, ao lançar-se na água em desespero, o peso de suas lembranças a fez desaparecer sob a névoa dos vivos.

A oportunidade de voltar ao mundo dos vivos após a viagem com seus respectivos Carontes não era uma opção para Gustav, mas criou em Tamina a urgência de lutar. A descoberta da beleza pelo primeiro, como já disse, o levou às últimas consequências: mesmo conhecendo a realidade (aqui é a agonia, a morte, e se contrapõe ao ideal que é a Beleza, é Tadzio) hostil da epidemia e da doença — mascarada pelas autoridades —, Gustav está disposto a lutar para apreendê-la (a Beleza). Sua negação à realidade é, portanto, em nome de seu ideal, e por ele, Gustav morre e se deixa morrer.

Tamina, quando ainda atrás de seu balcão no café, negava a realidade à sua volta em nome de sua memória. Quando foi levada à ilha — em sua ânsia para não sucumbir ao peso das lembranças ausentes (não podia suportar o esquecimento) — e percebeu que, de fato, escapar da realidade era o mesmo que perder a memória, desesperou-se e tentou agarrar-se a um fio de esperança que a levasse de volta à realidade anterior, resgatando todo o peso de suas lembranças. A agonia de Tamina é pela lembrança, ao passo que a de Gustav é para esquecer tudo o que existiu antes de sua experiência.

Relembrando o início deste texto, Kundera compôs, em O livro do riso…, uma espécie de tratado sobre o esquecimento a partir de seu exílio na França e integrando ficção, biografia e a história política recente da República Tcheca. Na tentativa de não perder suas origens e de aceitar o exílio forçado, escreve para esquecer. Mas a função da escrita, do registro, não seria lembrar, apreender a história, apossar-se dela? O movimento contraditório de Kundera sugere o absurdo da nossa condição, e os risos nervosos que as histórias arrancam dos leitores e de seus personagens denunciam a beira do abismo em que caminhamos e lutamos por permanecer.

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