O Escritor e o Mundo

Continuando a leitura de O tempo e o vento, agora chegando ao fim dO arquipélago vol. 3, último volume, intensifica-se, na voz de Floriano Cambará, a narração da construção do romance. Desde que surgem os “Cadernos de pautas simples”, quando do retorno de Floriano para o Sobrado, que impulsiona a necessidade de escrever o romance, os leitores passam a acompanhar um texto em primeira pessoa do filho de Rodrigo Cambará, que se manifesta e questiona o ato de escrever misturando-o a questionamentos acerca de sua existência e de suas relações familiares.

Em um desses capítulos que está no último livro o autor confirma quem conduz a narrativa desde o seu princípio. Nesse capítulo específico, Floriano reproduz um diálogo que tem com Roque Bandeira, o Tio Bicho (um dos meus favoritos), a respeito de sua ideia de escrever um romance sobre a “… saga duma família gaúcha e de sua cidade através de muitos anos, começando o mais remotamente possível no tempo”.

O diálogo dos dois apresenta uma reflexão delicada e poética sobre o ato de escrever. Tio Bicho, como personagem observador de Floriano, sugere que a narrativa do amigo tende a ser parcial, e o questiona se ele seria capaz de ver (e escrever) a si mesmo com objetividade. Floriano responde que sim, o que identifica imediatamente a função do personagem de Bandeira na narrativa: se o narrador não pode se enxergar e se retratar com objetividade, isso é feito através de uma outra voz, uma voz externa a ele próprio e à sua família — que também teria a sua parcialidade. É através de Tio Bicho que o autor dá ao narrador a possibilidade de ser descrito com objetividade, sem tréguas.

No desafio de comprovar que é capaz de se ver com objetividade, nesse diálogo Floriano é posto em xeque e é impiedosamente confrontado por seu interlocutor. É bonito de ler: na voz de Tio Bicho está o próprio Floriano, confrontando a si mesmo. Quando revela seu narrador ocorre o encerramento de um ciclo, como se a história não fosse mais se repetir e reverberar e como se o passado não intervisse mais, encontrando o presente na pele de Floriano, com todo o seu peso — o peso do tempo. É preciso escrever para aliviar esse peso.

/

Porém, antes de chegar ao ponto que envolve Tio Bicho, no mesmo “Caderno de pauta simples” o narrador Floriano descreve a descoberta de seu romance a partir da investigação dos baús guardados e empoeirados do Sobrado. Sua aproximação cautelosa dos arquivos de gerações e gerações da família representa a procura do escritor pela razão de escrever e, depois, pelas ferramentas certas, pelas palavras mais precisas, pelos temas, pela própria necessidade de buscar.

Por que vasculhar o baú de guardados? É nesse capítulo que Floriano tenta responder a essa pergunta — pergunta que universaliza o romance e o tira da cidadezinha escondida no Sul do Brasil, da aldeia, para colocá-lo de fato no mundo. Na figura da Dinda, Maria Valéria — o arquivo vivo —, está seu desafio e sua hesitação:

Depois de muitas hesitações e resmungos, a Dinda me confia a chave do baú de lata em que traz guardadas suas lembranças e relíquias. Encontro nele, de mistura com incontáveis bugigangas (camafeus, medalhões com mechas de cabelo, frascos de perfume vazios, lencinhos de renda, leques), importantes peças do museu da família, como o dólmã militar do cap. Rodrigo, um xale que pertenceu a d. Bibiana e uma camisa de homem, de pano grosseiro e encardido. (É a que meu bisavô Bolívar Cambará vestia no dia em que foi assassinado pelos capangas dos Amarais, e que sua mãe guardou, assim esburacada de balas e manchada de sangue como estava.) Todas essas coisas naturalmente me excitam a fantasia pelas suas possibilidades novelescas, mas concentro a atenção principalmente nas cartas, nos recortes de jornais e nos daguerreótipos que descubro dentro duma caixa de sândalo, no fundo do baú. Dinda permitiu, com certa relutância, que eu trouxesse todas essas coisas para a mansarda. Aqui estou a ler as cartas e as notícias de jornal, e a escrutar os retratos.

Em seu silêncio, Maria Valéria é a guardiã desse passado (Quando a velha Maria Valéria anda pela casa nas suas rondas noturnas, com uma vela na mão, vejo nela um farol. Estou certo de que a luz dessa me poderá alumiar alguns dos caminhos que ficaram para trás no tempo.) e, ao mesmo tempo, a realidade inacessível ao escritor — realidade da qual ele não sabe como se aproximar, diante da qual ele hesita, mas precisa dominar. Floriano é o reles mortal que ousará desbravar essa realidade, buscando conhecê-la (para escrevê-la) em todos os seus aspectos. É nesse pequeno universo, décadas e décadas cerradas em um baú, que o narrador vai recolher os elementos para sua história: Floriano e o baú dos Cambarás, dentro da história de O tempo e o vento, são a metonímia do Escritor e do Mundo. E o campo de batalha, o cenário da busca de Floriano, será o “Caderno de pauta simples”, objeto que evoca seu passado e marca na narrativa o momento em que ele se depara com a necessidade de guerrear.

*

Copiei aqui nesse pdf o Caderno de pauta simples, para quem quiser ler o capítulo inteiro. Está no livro O arquipélago vol. 3, página 162.

Leave a Comment

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *