O fim na estrada – breve análise de “Um homem bom é difícil de encontrar”, de Flannery O’Connor

Em The letters of Flannery O’Connor and Caroline Gordon, publicação que reúne a correspondência completa entre as duas escritoras americanas há uma resposta de Caroline em relação ao conto que Flannery lhe enviara tempos antes: “Um homem bom é difícil de encontrar”, publicado em 1953. Caroline, entre sugestões sobre equívocos no foco narrativo, indicações de leitura e possíveis saídas para a história, escreve:

Ao conto, em sua totalidade, falta “composição de cena” — para tomar uma expressão de São Ignácio de Loyola. Não está tão bem localizada no tempo e no espaço. Lembre-se de que o Senhor fez o mundo antes de fazer Adão e Eva. Os acontecimentos devem caber num tempo e num espaço.

Caroline Gordon completa, esclarecendo ainda que a jovem escritora avança rápido demais, deixando de lado o cenário em que tudo acontece e as mudanças das paisagens.

A resposta a esse conselho veio na descrição das paisagens avistadas pela avó enquanto o automóvel percorre a estrada, e a excelência de Flannery O’Connor fica evidente quando percebemos que, no meio dessas paisagens ao longo do caminho estão descritos os elementos que indicam, pouco a pouco, o desfecho da história. Se na construção de uma narrativa nada deve sobrar, ou ser mero acessório, a autora se valerá de seus recursos para seguir o conselho de Caroline e, ao mesmo tempo, nos fazer acreditar no que irá contar. Cabe aos leitores, portanto, estarem atentos a essas migalhas friamente calculadas, repletas de significado, que nos conduzem através da estrada que queremos a todo custo evitar, mas estamos fadados a percorrer.

A estrada

“Um homem bom…” começa com destaque à personagem da avó, que, no entanto, não é nomeada em nenhum momento, e com o fato de que ela “não queria ir para a Flórida”. Tenta de diversas formas dissuadir o filho Bailey de tomar aquela direção, e como argumento alerta a presença de um criminoso à solta pelas estradas do país, o Desajustado, cuja crueldade é famosa e temida por todos os moradores da região e por aqueles que leem os noticiários. Sem ceder à pressão da mãe Bailey parte com ela, a esposa e seus três filhos — duas crianças e um bebê ­— rumo ao passeio de três dias.

Mesmo declarando-se inicialmente contra a viagem, na manhã seguinte a avó “… foi a primeira a entrar no carro, pronta para partir”. A peculiar caracterização desta personagem, com as falas dramáticas e um tanto dissimuladas que a definem desde a primeira vez em que o narrador lhe dá voz, combinadas com a ação contraditória que a fez subir no carro com alguma pressa e alguma empolgação, atraem o leitor, e parece que é diretamente a ele que ela fala, já que ninguém dentro do automóvel está muito disposto a dar-lhe ouvidos. É curioso que a avó sem nome atraia a atenção do leitor por ser quase totalmente ignorada pelos seus, ao mesmo tempo em que é — veremos adiante — a principal condutora da viagem sem volta e a pessoa que ignora toda a realidade presente ao seu redor. Outra coisa a se notar nesta mesma frase do primeiro movimento do conto — a partida: tanto no original, em inglês, quanto na tradução, o verbo escolhido (to go/partir) tem seus múltiplos significados. Go, em inglês pode ser traduzido como “ir” “sair”, “partir”, “conduzir” — e até “morrer”. Esse duplo sentido também existe na tradução, com a escolha do verbo “partir”, muitas vezes usado como eufemismo para a morte.

A avó estava mesmo pronta e “… acomodou-se confortavelmente, tirando as luvas brancas de algodão e guardando-as junto com sua bolsa no compartimento em frente ao vidro traseiro (…) usava um chapéu de palha azul-marinho com um buquê de violetas brancas na aba, e um vestido azul-marinho estampado de bolinhas brancas. A gola e os punhos eram de organdi branco enfeitados com laços, e preso no decote havia um ramo de violetas de pano, um sachê perfumado. Se houvesse algum acidente, qualquer um que a visse morta na estrada saberia imediatamente que tratava-se de uma senhora distinta”.

Aí está um primeiro indício do fim, e é possível imaginar a conclusão do conto nesse começo, assim como é possível identificar certas coisas que surgem adiante como a sua antecipação. Há diversas outras sugestões ao leitor em relação a esse desfecho, e falaremos sobre elas, mas vale antes outra breve observação sobre a personagem da avó. Relembrando o que já foi dito, essa personagem encarna uma contradição: ela caminha para a morte, ingênua e inevitavelmente, ao mesmo tempo em que quer evitá-la. Recai sobre ela, portanto, e manifesta-se, o drama da existência, a dor inexorável a tudo o que vive. Sua tagarelice representa a tentativa de escapar do fim e, ironicamente, é o que o aproxima e o atrai.

O olhar da avó sobre a estrada, a luz prateada que tudo tocava, as árvores enfileiradas na mesma disposição dos túmulos nos cemitérios — outro presságio — despertam uma espécie de melancolia, como se de fato aquela fosse a última vez que ela veria tudo aquilo e o estivesse registrando na memória. Da mesma forma lemos em seguida os movimentos de seu rosto, como que em agonia: “Revirava os olhos, fazia bico com a boca, colava a cara magra e dura no rosto lisinho e fofo…”. O rosto lisinho e fofo era o de seu neto, o bebê da família, e então dentro daquele carro está encerrado o completo ciclo, o início e o fim. As lembranças da avó, às quais ninguém dá ouvidos, marcam o caminho como um inventário, uma despedida, preparando o cenário e armando uma tensão crescente. Seria muita ousadia imaginar que esses elementos narrativos tenham surgido após a resposta da mentora Caroline à sua aprendiz?

O nome do Desajustado surge pela segunda vez no caminho da família durante a parada para o almoço, em um diálogo entre a avó e a mulher de Red Sammy, dono do restaurante. Como se procurasse por ele (ou se quisesse estar o mais distante possível), a avó pergunta se ela sabia da fuga do criminoso: mais alarme, mais suspense. Na breve discussão lamentosa sobre a violência que domina o condado e a dificuldade de se encontrar bons homens por ali — Red Sammy se lembra de ter vendido gasolina a fiado sem jamais ver o seu pagamento. Será que a venda perdida foi ao mesmo “carro velho e muito rodado, com rapazes que pareciam gente direita” — carro que cruzaria o de Bailey em seguida na estrada erma?

Iniciando a segunda parte da viagem, a tagarelice da avó mais uma vez vem-nos fazer companhia dentro do veículo silencioso, e de lembrança em lembrança ela passa por fileiras de carvalhos margeando um desvio na estrada, o desvio necessário para cumprir o seu destino. As crianças insistentes no carro, a resistência do pai de fazer-lhes as vontades, a estrada tortuosa e poeirenta e o desejo da avó de revisitar o passado — desejo que não a fez hesitar em tagarelar mais e mais — trazem ao conto mais um momento de notável tensão, que culmina no capotamento do veículo e no arremesso de todos os passageiros para fora da estrada, numa vala. Eis o fim antes do fim, com os personagens dispostos como indigentes à beira do caminho, eis a predição da avó, cumprindo-se. Ela estaria vestida de acordo com a ocasião. Para completar a ambientação, o único carro que se aproxima é um “automóvel preto e velho, em péssimo estado, que mais parecia um carro fúnebre”.

A vala

O leitor quer, ingenuamente como a avó, acreditar que o desfecho pode surpreender e contrariar todos os indícios traçados pelo caminho. Esperamos que o diálogo final, o encontro entre a avó e seu maior temor, possa trazer bons resultados, apesar de sua ínfima possibilidade.

A agonia se inicia com a aproximação do narrador do algoz e com a descrição detalhada de sua assustadora excentricidade. De cima, da margem da estrada, ele se detém na beira da vala e observa as suas vítimas, a cabeça baixa, como se as enterrasse e orasse por suas almas. A isso seguem-se os movimentos calculados do Desajustado, que também mostra quem é e conta seu passado à avó. Nesse momento do conto o foco está nas falas dos dois, e ao redor podemos escutar somente os ruídos do horror: os capangas escondem dos demais suas ações, o narrador esconde-as de nós. A avó é privada de ver a cena, assim como o leitor, e nessa relação fica evidente o papel do Desajustado como narrador da existência dessas vítimas, como o responsável por sua continuidade ou por seu ponto final.

Cabe então à rispidez da própria realidade o destino da família, assim como à insistência da avó em algo que ela não quer enxergar — ao afirmar cegamente a bondade do criminoso, desperta a sua ira, ofusca-lhe a visão e o faz concluir a história.

Com o desfecho, seguramos atônitos o livro nas mãos tentando entender o que acabamos de ler, buscando uma resposta, algo a que se agarrar para explicar tamanho espanto. Assim é ler Flannery O’Connor. Ao observar a vida e o mundo — dos quais ela era uma leitora voraz — a realidade é a única resposta possível. A realidade observada com atenção, sem floreios, sem fingimento, com os nomes adequados. Seus movimentos narrativos e suas escolhas nos fazem ler o seu cenário vivo e, mesmo tendo-o claramente apresentado a nós, queremos crer num outro final, numa outra possibilidade, numa alternativa ao mal. Somos logo desenganados, assim como somos desenganados ao acreditar que compreendemos a própria realidade em que vivemos, que Flannery esforça-se a mostrar-nos sem filtros.

Somos como a avó, na cena em que vê o pobre negrinho na porta da casa miserável e manifesta seu desejo de pintar o cenário numa tela, eternizando-o em molduras românticas. Nesse ato a avó se crê bondosa, mas é apenas ingênua, e a tendência à ingenuidade há de ser sempre escancarada e desafiada pela realidade — que vencerá. Um homem bom, conscientemente bom, é difícil de encontrar, mas os maus caminham por todas as estradas, e aniquilarão os condescendentes.

Como se o mal fosse a única verdade (assim o afirma o próprio título), os personagens são manipulados ao seu encontro. A autora não poupa ninguém, personagens ou leitores. Resta-nos a perplexidade, e experimentamos o vazio após o último ponto final de seu texto, sem feriado em família, sem boas notícias, sem esperanças. É esse espanto constante o preço de não identificarmos o mal ao redor, de mascará-lo sob as nossas equivocadas impressões.

Posts Relacionados

Comece a digitar sua pesquisa acima e pressione Enter para pesquisar. Pressione ESC para cancelar.

De volta ao topo