O texto que não consigo escrever – algumas palavras sobre Vozes de Tchernóbil

Recentemente li Vozes de Tchernóbil, da ucraniana Svetlana Aleksiévitch. A cada página virada tinha certeza de que “preciso escrever sobre esse livro”. Dezenas de trechos destacados, comentários em garranchos nas bordas e algumas tentativas fracassadas depois, compreendi que isso não será possível.

Não será possível porque, como leitora, coloco-me na mesma posição da autora e percebo que não dá para elaborar um comentário que defina a perplexidade entre um depoimento e outro – a autora os chamou sabiamente de “monólogos”, pois ela não dialogou com os seus entrevistados, mas deu-lhes atenção e a chance de reorganizar a própria história. Cabe aos leitores o silêncio na tentativa de imaginar o inimaginável, inacessível também a quem sobreviveu para contar.

Os monólogos são compostos de fragmentos, pedaços soltos, sem uma ordem clara e sem um fio condutor: é impossível reordenar uma história sem os meios e instrumentos de coesão que seriam, nesse caso, a compreensão do fato, as relações de causa e consequência. Todos os monólogos têm em comum a tragédia, e compreendemos que ela representa uma espécie de criação, de marco-zero para aquela população. O fato fez nascer o “homem de Tchernóbil”, que não se reconhece e não se identifica a não ser a partir da catástrofe; que carrega o sofrimento na pele e na memória. Que vai narrar para tentar entender que, sem qualquer explicação, foi forçado a abandonar sua casa, sua terra, a se afastar de seus parentes, a fugir sabe-se lá de quê sem nunca mais poder voltar.

“Mas e isso, o que é? Na nossa aldeia deixaram três cemitérios: em um, descansam as pessoas, é o mais velho; em outro, os cachorros e gatos que tivemos de abandonar e que fuzilaram; no terceiro, as nossas casas (…) Eles enterraram até as nossas casas…”

O passado estava enterrado, o futuro era incerto: “Tchernóbil é um enigma que ainda tentamos decifrar. Um signo que não sabemos ler. Um desafio para o nosso tempo”, escreve a autora logo no início, em uma entrevista consigo mesma na qual esclarece o objetivo da pesquisa de campo na região do reator. Assim como a nós cabe apenas ler, a ela coube escutar, pois a complexidade da situação resultou na impossibilidade de ver a tragédia objetivamente, de vê-la de fora, de falar sobre ela como algo alheio a si. Desvendar Tchernóbil era desvendar as pessoas de Tchernóbil: como a realidade objetiva da tragédia fora-lhes negada pela tirânica ideologia, restou a experiência pessoal, o sentimento individual. A frase “não encontro palavras para expressar o que vi e o que vivi” é recorrente, e o empenho da jornalista foi fazer o caminho inverso, dar-lhes as palavras, para que tanto essas pessoas quanto ela mesma pudessem compreender e construir uma história comum.

Não é possível falar sobre Vozes de Tchernóbil porque o impacto é imenso. Daqui de longe no tempo e no espaço, lemos e até assistimos ao que aconteceu (a excelente série da HBO baseia-se nesses depoimentos), e com essa obra literária (será literatura? Outra discussão que a autora aborda) acessamos uma nova versão da tragédia. Estamos do lado oposto daqueles que nada sabiam objetivamente – e talvez ainda alguns nada saibam, devido ao isolamento: conhecemos a história objetiva, mas não suas consequências individuais, ao passo que aqueles não sabiam absolutamente o que estavam vivendo, mas o sentiam e podiam compreender como sentia-se quem estava ao seu redor.

Não é possível falar sobre Vozes de Tchernóbil pois todos os raciocínios, todos os parágrafos chegariam à mesma conclusão, encerrada na expressão “tentar entender”. É disso que trata o livro, é essa a grande missão da autora. “Algumas vezes, parece que estou escrevendo o futuro”, ela diz. Esse futuro depende estreitamente da reconstrução do passado, e do passado, só o sofrimento reverbera… Um sofrimento sem cor e sem nome. “… de Tchernóbil vive a ‘geração desorientada’. Vivemos no desconserto. A única coisa que não mudou foi o capital humano. O nosso único capital. Intocável.”

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