Os invernos de dentro

“(…) os invernos da ilha fazem isso. Esse mar imenso arrebentando, carrancudo, e nós aqui, tão pequenos. Mas depois passa. Logo chega a primavera e tudo passa, o senhor vai ver. Passa logo.”

 

Pela segunda vez em pouco tempo fui acordada para escrever. Desta vez foi uma tempestade, e a ideia, que já rondava a minha cabeça, não esperou até que o dia nascesse ou a ventania lá fora desse a sua trégua. “Levante, agora, você sabe o que precisa fazer.” Neste momento o granizo golpeia a vidraça e vejo as luzes dos relâmpagos aos piscos enquanto penso nos invernos. O isolamento do meu prédio nesta colina, como uma ilha, deixa o cenário um pouco assustador, então é impossível dormir.

É o fim de mais um inverno e foi durante o último mês gelado que abri Os invernos da ilha, de Rodrigo Duarte Garcia. Cheguei com seu personagem Florian Links aos “entornos pedregosos, as paredes rochosas sem cor”, como quem também precisa de silêncio para uma busca particular. Não foi difícil me ambientar à Ilha de Sant’anna Afuera: aqui também chovia, ventos às vezes de gelar os ossos, e seu som fino, e o filtro através do qual eu olhava para o mundo era cinza-pálido. Dava para ver as praias de pedra e tocar os pés nas areias frias, úmidas, quase polares, mesmo caminhando sobre o meu tapete peludo. Por isso o livro não foi o conforto que eu precisava, mas livros não servem para trazer conforto, alguém diz, senão para nos preparar para novos confrontos.

O inverno é a estação do silêncio, da contração. De recolher os galhos secos para preparar o solo ao que virá. Em seu diário desde a chegada à ilha o narrador-personagem nos conduz a uma viagem pelo espaço limitado de fora e de dentro, apresentando-os a partir de sua perspectiva e observação atenta: é com muitos detalhes que acompanhamos seus deslocamentos. Depois de um trauma, de uma dor aparentemente sem cura, Florian precisa saber quem é, o que fazer, como viver. Para isso recolhe-se no mosteiro da ilha, onde inicialmente vai atrás de sua libertação, através de uma possível vocação. Sua busca acaba se misturando a outra, distante no tempo, e passamos a acompanhar paralelamente à narrativa principal o diário de Olivier van Noort, o primeiro navegador dos Países Baixos a circum-navegar a Terra. Esse segundo diário inserido no diário é o convite a Florian para que saia de si mesmo e perceba o tamanho do Universo, e é ele que aciona no narrador a pulsão de vida necessária para seguir adiante: despertando-lhe a imaginação por um tesouro perdido.

Andamos desacostumados com a busca de tesouros. Ou com a possibilidade da existência deles. Ou com a existência de sinais e de milagres. Nossas narrativas, ao que parece, há décadas estão presas ao homem, seus dramas interiores e sua arrogante crença de que é o centro de tudo. O diário de Van Noort entra no enredo não só como um alerta para Florián, mas também para nós, pois convida a olhar para outros lados e tempos afastados de onde estamos. A opção do autor por mesclar essas duas histórias – esses dois momentos distintos de recolhimento – impediu a concentração da narrativa na “ilha Florian”, enriqueceu a sua história, deu sentido novo à sua existência.

O diário de Van Noort traz a percepção do que é imutável em todos nós: a busca. Vemos esse ímpeto nos outros personagens do romance, à sua maneira, e como leitores também somos capturados e envolvidos pela vontade de saber até onde as páginas podem chegar, até onde vai esse narrador, qual será o fim desse diário. Se o navegador do século 16 cruza o mundo por glória e poder, num caminho diverso nosso narrador contemporâneo o faz por reconciliação, redenção, paz, a conquista de si mesmo: são movimentos opostos fixados na mesma forma de registro, e sua alternância dá força e sustento à narrativa.

Durante a leitura constantemente me perguntei por que Os invernos da ilha chegou à minha – para usar um termo de Florian – engrenagem. A escolha consciente foi a vontade de ler um autor vivo, um autor novo, depois de uma série de narradores enterrados. Mas sem muito esforço de analisar o contexto por aqui sei que esse recolhimento inóspito veio me acompanhar num inverno pessoalmente esquisito. É começo da primavera, agora, de fazer o que precisa ser feito com o que ruiu, de saber o que sobrou e o que surgiu da ruína.

É em ruínas que se encerram os invernos da ilha Florian e com a destruição vem a disposição de finalmente voltar ao passado – vem também aquela frase do Fitzgerald, “boats against the current, borne back ceaselessly into the past” –, a resignação e a coragem de voltar a si mesmo, a tudo o que era antes de estar ali.

Não devemos temer a ilha, mas reconhecê-la, empreender uma expedição por seus espaços, suas cavernas e rios, observar cada detalhe (são muitos, muitos) insistentemente até que nos incomodem ou até que nos convençamos de sua existência e seu peso. Por vezes é isso o que acontece na leitura de Invernos, na observação repetitiva do narrador Florian do que rodeia em sua tentativa de crer na narrativa paralela que extrapolou o tempo. Como escrevi anteriormente: andamos desacostumados com a busca de tesouros, com a possibilidade de sua existência, e é preciso que o narrador conduza, retome e decifre.

Terminei a leitura uma semana antes do fim do inverno e fiquei com o cenário espetacular na cabeça, com os milagres e narrativas que compõem o romance reverberando pelas paredes da minha ilha. Inquieta, biruta no vento da costa, escrevi para o autor (das vantagens de ler um vivo) para perguntar algumas coisas sobre a composição e ouvi uma resposta interessante: Rodrigo quis construir um “livro de morar”, e logo no início, no mapa, nos sinaliza a topografia que estamos adentrando. Sua pesquisa extensa sobre o clima, fauna e flora transporta e alimenta a imaginação – curioso pensar como a imaginação voa tanto, voa mais, quando mais elementos concretos temos à nossa disposição.

O mesmo acontece no diário de Van Noort: a partir de uma história real o autor recriou a sua com cenas impressionantes, revelando o personagem através de uma oscilação de tons; ora brutal, ora generoso; para que nos fosse possível o envolvimento com o homem “integral”, o que somos, o que é seu personagem Florian.

Na apresentação do livro o editor Carlos Andreazza o destaca como um romance de aventura – e, fato, é. Porém cá comigo, talvez mais inclinada às aventuras do espírito, foi a busca de Florian que mais me atraiu: as cenas em que ele lembra da infância, sua vida até chegar ali e as razões, sua escavação tormentosa pela ilha interior. Não há dúvida de que as duas aventuras se complementam: cavernas, terremotos, tempestades e cheias, animais e seres estranhos da floresta intocada – tudo isso também habita a nossa mente de alguma maneira, ou nos constitui.

Saindo desse inverno e desse livro, observando com Florian as ruínas de fora, ficou nas ruínas daqui a disposição para observar e perscrutá-las, para ver onde há vegetação nascente, onde é árido, onde pedra. Ficou também a disposição de zelar pela imaginação, de buscar em cada referência citada ao longo do romance o seu componente humano, sua viagem, o ímpeto pela expedição em busca de tesouros, ou milagres.

 

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