Os olhos de Rufus

Um dos aspectos que mais chamam a atenção em “Os aleijados entrarão primeiro” (The lame shall enter first), conto de Flannery O’Connor, são as descrições: precisas, afiadas. Em vários momentos de sua prosa a autora não poupa o leitor e lhe apresenta mesmo as palavras mais duras, se for preciso, para representar com exatidão o que ela quer dizer.

Em meio aos acontecimentos destaca-se a descrição e menção aos olhos dos personagens, dizendo mais que as palavras. Impressiona o modo como a autora conduz o jogo dos olhares entre o narrador onisciente (e o próprio leitor), a demonstração do ponto de vista de Sheppard, os objetos de cena (telescópio, microscópio) que invocam a visão, o ato de ver melhor, de explorar, de perscrutar.

Estas são algumas impressões que se impõem após a leitura, e a ideia que perdura é que não há como ser conivente com a tragédia que é a cegueira voluntária, ao mesmo tempo que a verdade brilha com vigor, como os (e nos) olhos de Rufus.

A história é dividida em duas partes. Na parte I, com duas cenas semelhantes, os personagens são apresentados a partir da ótica de Sheppard – o adulto, o pai. Ele vê Norton, seu filho, silencioso, “vagando na cozinha rodeada de armários, coletando ingredientes, de porta em porta, para o seu café-da-manhã”. Norton é apresentado ao leitor com uma descrição triste, melancólica, a partir da perspectiva negativa do pai, totalmente em desacordo com o comportamento que ele deseja para o menino. O olhar excessivamente crítico de Sheppard sobre seu filho o impede de vê-lo com olhos paternais. Seu conceito de bom e correto, ao qual obedece cegamente, lhe ofusca a visão para o sofrimento de Norton.

É através do balcão da cozinha que Sheppard observa Norton. A conversa desenvolvida entre os dois logo apresenta o dilema de Sheppard: ele considera Norton um menino egoísta, que nunca aprendeu a dividir e precisa aprendê-lo com urgência. Para introduzir o assunto Sheppard menciona Rufus Johnson, um menino que estava num beco, “com a mão enfiada numa lata de lixo, de onde tentava tirar o que comer”. Enquanto Norton comia seu quarto de bolo com pasta de amendoim e catchup, Sheppard fazia seu discurso sobre compartilhar e, em determinado momento, traz à tona a lembrança da mãe, morta há um ano. Fica claro então para nós, leitores, a origem do sofrimento e do alheamento do garoto, o fato responsável por seu olhar perdido e fala claudicante – sofrimento que o pai vê como puro egoísmo.

Nesta simples cena, que não dura mais de cinco páginas, fica exposto o tema do conto e seu espectro. Os olhos de Norton, pálidos, alheios, anunciam, em contrapartida, o par de olhos incisivos que estão porvir, e o conjunto de imagens apresentado pela autora para traçar o panorama daquela casa, daquela família (com um membro a menos), surpreende – a menção ao jardim onde costumavam ser realizadas as refeições matinais ou a fala de Norton a respeito do bolo de chocolate, no qual passa pasta de amendoim: “Está rançoso (…) Por isso é que eu tive de pôr alguma coisa”. Esta fala, aparentemente inocente, reflete o próprio pensamento do pai a respeito do menino – do comportamento “rançoso” do garoto, que precisa de novos estímulos – ou, ainda, prenuncia a chegada de alguém que traga vigor à casa rançosa, sem vida.

Esse alguém é Rufus Johnson, que, mesmo antes de aparecer, já causa extremo mal-estar em Norton. Enquanto seu pai manifesta pesar em relação ao comportamento do menino e anuncia-lhe a possível chegada de Rufus, lemos a angústia física de Norton, sua batalha interna expressa pela náusea. É impressionante, na cena, como a seleção de palavras trazem precisamente à memória a sensação física:

O garoto foi para trás, retrocedendo do balcão, e voltou bruscamente à frente, debruçado de boca aberta em seu prato. Sheppard gemeu de novo. Veio tudo goela afora, o bolo, a pasta de amendoim, o ketchup – em massa mole e adocicada. Norton, por cima, vomitava gosma, e veio mais, e ele continuou de boca aberta no prato, como se esperasse que agora viesse o seu coração.

A partir desta interação entre pai e filho nos é apresentado Rufus Johnson, o invasor autorizado, opositor de Sheppard, e logo depois da cena da cozinha começa a ser narrado o primeiro encontro entre os dois: o homem estava atrás de sua mesa na minúscula sala do reformatório em que era voluntário quando Rufus, mancando, entrou no gabinete. A descrição do garoto em comparação à descrição de Norton é completamente oposta. Rufus possui o olhar assertivo, de aço, que mira atentamente à frente. Logo fica clara a sua postura indiferente e quase de desprezo em relação à Sheppard, que por outro lado acredita, em sua ingenuidade egoísta, poder salvá-lo, explicando-lhe sobre a origem de seu mau-comportamento.

Também sabemos que Rufus tem um pé defeituoso, que manca e surge como uma manifestação física de sua deformação moral:

Recostando-se na cadeira, ele dobrou sobre o joelho um monstruoso pé torto, contido num sapatão preto, muito surrado, com uns dez centímetros de sola. O couro estava descolado num canto e a ponta de uma palmilha inútil esticava-se como a língua cinza que parte de uma cabeça cortada.

Sheppard, ao se deparar com o pé defeituoso, o identifica imediatamente como a causa da delinquência do garoto – uma compensação –, porém, o brilho desafiador nos olhos do rapaz dizia outra coisa, que Sheppard fez questão de ignorar, julgando-se mais inteligente. Sheppard não mediu esforços para fazer que Rufus aceitasse a sua ajuda, chegando ao ponto de dar-lhe a chave de sua casa, garantindo que seria bem-vindo e acolhido.

Esquematicamente apresentados, os personagens são colocados para atuar. Logo que lemos as descrições de Rufus e Norton a partir da perspectiva de Sheppard – e que nos fica claro que o pai não consegue olhar para o filho com a mesma compaixão que destina a um estranho – os dois entram em contato e, longe dos olhos do adulto, é possível que conheçamos a verdadeira face de cada um, apresentadas sempre em dicotomia, opostas, em relação de opressor e vítima: vemos Rufus correndo como um rato, ao passo que Norton fica imóvel como um sapo; e, um pouco mais adiante, o “corvo ensopado e furioso”, Rufus, ouve o desesperado “guincho de camundongo” de Norton.

A cena do encontro dos dois é impressionante e escancara a violência, frieza e a maldade inata de Rufus. Sem a intermediação de Sheppard ele expressa claramente a sua personalidade, e nós, leitores, já não temos qualquer dúvida em relação ao comportamento do adolescente. Fica estabelecido, então, outro paradoxo: para Sheppard, na sociedade, a vítima é Rufus – jovem de família disfuncional, marginal e pobre –, porém, dentro de sua casa, a vítima – fatal – será seu próprio filho.

Na parte II todos os personagens são lançados à arena. Flannery descreve cenas domésticas de interação em que vemos Rufus dominar Sheppard completamente, enquanto Sheppard segue cega e firmemente em seu propósito de salvá-lo, buscando sempre algo externo que satisfaça o garoto – o telescópio, o microscópio, o novo sapato ortopédico – e o renda ao seu próprio projeto.

O olhar de Sheppard se revela um filtro cada vez mais nocivo, e a tensão do conto cresce a cada parágrafo, que expressam prenúncios da tragédia final. Como na cena em que estão os três no sótão observando através do telescópio, ao iniciar-se um diálogo sobre céu e inferno. Norton fica assustado com as descrições de Rufus. Seus “olhos ocos”, ou “olhos pálidos que se endureceram” contrapõem-se aos olhos faiscantes do adolescente, e Sheppard tenta, desajeitado, inconvincente, intermediar o diálogo sobre inferno, a Bíblia, Jesus – o que, para ele, é uma muleta, um “biombo” atrás do qual Rufus se esconde; e por outro lado, para o jovem, é seu guia. Sheppard é um cético, entusiasta da ciência, como podemos ver em sua repulsa pela religião e empolgação com o tema dos homens do espaço; ao passo que Rufus Johnson apresenta a crença inabalável na religião.

Uma das falas de Rufus anuncia o final trágico do conto, e a partir dela é criada, através da memória da mãe, a primeira identificação entre os dois meninos. Questionado por Norton sobre onde a mãe está, Rufus responde: “Em algum lugar do céu (…) mas você tem de morrer para poder ir pra lá. Não se pode ir de nave espacial”. Mais uma contraposição marcada entre ciência e religião.

Nos dias seguintes, Norton se afasta da história para passar seu tempo no telescópio, e, assim como o narrador deixa o menino de lado para se concentrar em Rufus e na interação entre ele e Sheppard, Sheppard também o faz, e a presença do delinquente, que sabia o poder que exercia sobre ele, com uma “coleira invisível”, começa a se revelar um enorme problema. Cego, Sheppard resiste, chegando mesmo a negligenciar o próprio filho que quer avisá-lo de algo. Os olhos de Rufus controlam Sheppard com seu “brilho de triunfo”, com a sua malícia e repulsa, e a convivência entre os dois garotos faz com que o narrador nos apresente um novo olhar de Norton, com o “lampejo de agitação” e o “incontido prazer” de quem descobriu o caminho para a salvação.

*

É difícil escrever sobre a Flannery e sobre este conto. Parece que não têm fim a genialidade e a riqueza de informações que podemos absorver de suas palavras. É interessante ler, reler, reler e reler, e a cada vez podemos destacar um aspecto novo. Nas primeiras leituras, por exemplo, não estava clara para mim a divisão esquemática entre a apresentação dos personagens, na parte I, e sua interação, na parte II; e assim como temos essas duas partes, vemos o confronto de duas verdades, num jogo que nos é apresentado em sua crueza: Sheppard tem a sua verdade, da qual não abre mão e sequer consegue assumir para si mesmo, diante dos sinais explícitos de Rufus, que pode estar equivocado. Ele é apresentado como escravo dessa verdade – de que pode salvar uma pessoa – enquanto que o alvo dessa verdade tem a capacidade de enxergá-la como pura presunção. Quando essa verdade se revela uma grande mentira, Sheppard é dominado pelo horror, em uma descrição angustiada que muda até mesmo o ritmo da narrativa: frases curtas e vertiginosas enquanto ele se senta, paralisado, imóvel, tomado de uma súbita compaixão pelo filho que partira ao encontro da mãe.

Rufus Johnson, ao contrário, deixa explícita a sua verdade absoluta que não se altera com as circunstâncias, como a de Sheppard. A verdade do adolescente é expressa, se não com palavras, através de suas ações (comendo as folhas da Bíblia, por exemplo) e de seus olhares, interpretados pelo julgamento torto de Sheppard.

O leitor, diante desses personagens, não consegue, por si, “julgar” ninguém, apesar de ver a verdade escancarada – e este deve ser o enorme trunfo do conto. O desconforto nos domina linha a linha tanto pela descrição implacável das pessoas, fatos e situações como pela dificuldade em – sendo muito simplória aqui – escolher um lado.

Ficamos paralisados observando a tragédia anunciada das vidas retratadas, numa posição extremamente desconfortável de testemunha que, observando o panorama, só pode prever o pior.

Relacionando o tema do conto com as ideologias dominantes nos dias de hoje (o conto foi publicado em 1965) podemos imaginá-lo como uma profecia, uma inauguração do que é o politicamente correto. É assustadora a semelhança do discurso de Sheppard com o que ouvimos constantemente em todos os meios de comunicação e educação. Flannery capta o discurso social e o insere no ambiente da casa, na célula, e, ao lermos o desenvolver dos fatos, ampliados como se enxergássemos através de um microscópio, não conseguimos enxergar esse tipo de discurso/de filtro da realidade com nenhum otimismo.

A leitura de “Os aleijados entrarão primeiro” (título que retoma uma passagem bíblica e é proferido por Rufus num momento de manifestação extrema de sua fé) é urgente e assustadora pois revela o filtro nocivo, o perigo que a cegueira voluntária e presunçosa pode representar para, além de uma casa, toda uma sociedade.

Flannery e os pavões.

Para quem não conhece o conto, aqui: Flannery O’Connor_OS ALEIJADOS ENTRARÃO PRIMEIRO

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *