A flecha

Quando tive certeza de que você não voltaria, percebi que era a hora de retirar a flecha – anos atrás cravei uma flecha em meu tronco, na altura do umbigo, um pouco acima, do lado direito, e dei a ela o seu nome. Cravei-a exatamente no ponto que mais doía, tremia e formigava sempre que eu pensava que poderíamos nos perder para sempre. Acreditei que a dor da flecha na carne me faria esquecer a dor da sua ausência. E lentamente, e lentamente, os olhos fechados, mordendo os lábios e pressionando num movimento de rotação, escavei o buraco, fibra a fibra.

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Os olhos de Rufus

Um dos aspectos que mais chamam a atenção em “Os aleijados entrarão primeiro” (The lame shall enter first), conto de Flannery O’Connor, são as descrições: precisas, afiadas. Em vários momentos de sua prosa a autora não poupa o leitor e lhe apresenta mesmo as palavras mais duras, se for preciso, para representar com exatidão o que ela quer dizer.

Em meio aos acontecimentos destaca-se a descrição e menção aos olhos dos personagens, dizendo mais que as palavras. Impressiona o modo como a autora conduz o jogo dos olhares entre o narrador onisciente (e o próprio leitor), a demonstração do ponto de vista de Sheppard, os objetos de cena (telescópio, microscópio) que invocam a visão, o ato de ver melhor, de explorar, de perscrutar.

Estas são algumas impressões que se impõem após a leitura, e a ideia que perdura é que não há como ser conivente com a tragédia que é a cegueira voluntária, ao mesmo tempo que a verdade brilha com vigor, como os (e nos) olhos de Rufus.

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As sensações físicas de Twin Peaks

Queria muito escrever um texto refletindo sobre como Twin Peaks marcou a história do cinema e da televisão. Ou relacionando os personagens a arquétipos de acordo com a sua atuação e caracterização ao longo da trama. Adoraria, também, saber de curiosidades dos bastidores, e atentar os leitores para detalhes de cena que passariam batido.

Mas não sou capaz, porque, além de não ser peakmaniac – sabendo datas e fatos e nomes dos atores e de todos os personagens de cor –, Twin Peaks me impressiona mais por cenas isoladas do que pela construção geral da trama.

Lembro de quando assisti à série pela primeira vez. Já gostava dos filmes do Lynch, e um amigo me emprestou os dvds da primeira e segunda temporadas. Assistia praticamente um episódio por dia, e fui sugada pela atmosfera: lembro bem da sensação (essa é a palavra) de andar na rua e encontrar em cada um que passava por mim algo estranho e peculiar, de tirar frases de contexto e acreditar que poderiam ser códigos cifrados, de ficar com medo de olhar no espelho, no meio da noite, ao levantar a contragosto para fazer xixi.

Nesta terceira temporada anda acontecendo o mesmo. Ainda que não seja possível assistir a um episódio por dia, tenho evitado assistir outras coisas para ficar só aguardando o próximo Twin. Já tenho meus personagens amados e os que me dão nos nervos, um milhão de hipóteses do que vai acontecer e tenho certeza que ontem vi a agente Tammy Preston na rua. Logo quando assisti ao oitavo episódio caí numa depressão leve, da qual estou saindo graças à esperança cega na recuperação de Dougie Jones e à doçura persistente de Hawk.

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A tradução prematura

Há algum tempo comecei a traduzir um conto do Edgar Alan Poe para as minhas aulas de inglês. Inicialmente seriam só alguns parágrafos, mas me empolguei – estava adorando o resultado e quis me aventurar a traduzi-lo inteiro. Tento recorrer a outras traduções o mínimo possível, e pretendo fazer uma leitura comparada entre traduções depois, quando tiver finalizado (o que provavelmente vai demorar, sou lenta e dispersa).

Nas últimas aulas, lendo a tradução em voz alta, fiquei muito contente com o resultado e quis compartilhar alguns desses trechos com os leitores daqui.

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Faintly falling – observações sobre “Os mortos”, de James Joyce

“Os mortos”, conto de James Joyce que faz parte do Dublinenses, nos conduz por um percurso excitante, alegre e cheio de expectativas que termina em um tom soturno de melancolia e escuridão. É bastante interessante observar os elementos selecionados pelo autor para atingir esse objetivo e entender, nesse contexto, a morte, inescapável, como o oposto do amor.

Os primeiros parágrafos constroem uma atmosfera animada: um baile repleto de convidados, organizado pelas irmãs Morkan – Julia, Kate e Mary Jane. Lá fora faz muito frio, é época de Natal e neva como há muito não nevava em toda a Irlanda, mas dentro do salão a luz é acolhedora, e as conversas, calorosas. Os personagens vão sendo apresentados conforme chegam ao evento e a partir de sua interação com as anfitriãs, e é assim que conhecemos Gabriel, figura que tomará logo o lugar de destaque e mediação do conto. Percebemos lentamente, a cada ação ou fala de Gabriel, seu temperamento carinhoso e solícito e sua postura cordial perante as tias, como homem instruído e acadêmico – o preferido delas. Gabriel é filho de Ellen, uma irmã das três, já falecida, e aí está uma das primeiras menções da morte no conto.

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Dica Microclima de bem-viver

Francesco Petrarca – santo padroeiro dos sonetistas.

Sabemos – e se tem alguma coisa com que todos concordemos é – que não está fácil. Como se já não bastasse a zona da “vida pública” temos nossas questões pessoais, aquelas que nos tiram o sono e as únicas que têm o poder de dominar todos os espaços do nosso pensamento, até os mais escondidos espaços.Nas mais improváveis sinapses – tcharam – lá está aquela insistente questão pessoal, uma lombadinha, um buraco.

Semana passada foi assim sem muita paz (porque, se posso dizer que tenho um dom, é o de fazer pequenas questões se tornarem monstros indomáveis). Estava diante de questões aparentemente sem solução, dessas que dependem de outras pessoas e não há muita coisa que possamos fazer.

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Igatu-Paranapiacaba

Horas de estrada depois e mais de caminhada chegamos a Igatu. Entre as montanhas a cidade é mais vazia do que parece ao longe, cada canto um ninho escrostado na montanha e suas paredes, subidas, fazem o silêncio das pedras. Casario. ​Era ainda começo mas parecia fim da tarde, e pensamos que era melhor nos mantermos unidos. Diminuímos a velocidade dos passos espontaneamente, em coro, para observar tudo e encontrar o que buscávamos no fim do labirinto.

Entre os blocos de pedra dos muros, olhos invisíveis perguntavam-se o que fazíamos ali àquela hora; talvez perguntassem quem éramos, se pudessem. Algo observava, observamos. Só era possível fazer silêncio, em silêncio permanecíamos: era imposto e voluntário, nossas mãos se esbarravam suavemente enquanto apertavam-se cada uma em si.

A neblina parecia suave ao longe, estávamos no meio dela e de seu peso.

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Desvios de percurso – Verão

 

Em dezembro do ano passado havia decidido fazer uma lista mês a mês com as leituras para este ano de 2017. Organizei a lista pensando não apenas nos autores que queria ler, mas também em uma ordem lógica, em que a leitura de um romance favorecesse a leitura do livro de ensaios que viria em seguida, que dialogaria organicamente com um novo romance ou o diário do autor do mês.

Havia, na lista inicial – já vejam que a lista foi desobedecida –, grandes exemplares da literatura mundial, clássicos para reler prestando atenção nisto e anotando aquilo, ou para fazer uma leitura comparada com outro clássico.

Comecei janeiro animadíssima. Numa mão, Madame Bovary; na outra, A Orgia Perpétua, do Mario Vargas Llosa – livro em que o autor faz uma leitura e análise do clássico de Flaubert com um toque pessoal que nos aproxima e encanta logo na introdução, enquanto ele explica sua relação com Emma Bovary, seu primeiro contato e as diversas maneiras como se reaproximou da obra e de seus personagens emblemáticos.

Vargas Llosa é tão atraente em sua introdução que parei nestas duas páginas – e no primeiro capítulo – por duas semanas, lendo, relendo, grifando, copiando. Ao mesmo tempo, seguia com Madame Bovary achando muito enfadonha a apresentação de Charles, logo no início. Passei me arrastando e, ao mesmo tempo, fazendo um grande esforço para me manter atenta (nas páginas que gostaria de pular) e não perder nenhum traço de genialidade.

Dia sim, levava Flaubert na bolsa, dia não, era a vez de Vargas Llosa.

Mas janeiro passava, a leitura seguia lenta e fazia aquele calor insuportável que impede a gente de prestar atenção em uma mesma coisa por 15 minutos seguidos. Involuntariamente me afastei de Flaubert e Vargas Llosa, procurando algum sentido para esta vidinha, em que não era possível, para mim, contemplar um clássico da maneira como ele merece (sintam o drama).

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Forte poroso

Sei que pude entender o que era Salvador quando desavisada, turista, decidi sair do Mercado Modelo para caminhar até o Solar do Unhão, pois – Você precisa ver o pôr do sol daquele lugar, disseram.

Também disseram para não fazer esse trajeto a pé, “de jeito nenhum”. E mesmo sendo cautelosa em todas as horas, naquela hora decidi fazer o contrário.

Não lembro quantos passos havia avançado. Estava concentrada em olhar à frente e prever a distância, o quanto ainda faltava do caminho, e olhar em volta. Por algum motivo parei e minha cabeça girou para a esquerda, distraidamente, ou era mesmo a força de uma mão enorme, um polegar/indicador invisíveis segurando o que existe entre as minhas orelhas, para que eu visse.

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“What we talk about when we talk about love”, Raymond Carver

Adoro diálogos. Mesmo os mais vagos. Ou principalmente eles, capazes de mostrar, além das próprias palavras, as características e reações dos personagens. Gosto de imaginar os percursos da interação e o que fez cada palavra ser dita de determinada maneira, em determinada ordem, e não em outra.

Foi isso o que me atraiu imediatamente na escrita de Hemingway, nos filmes do Eric Rohmer, em David Lynch, Woody Allen e numa porção de séries. E também no conto “What we talk about when we talk about love”, de Raymond Carver, autor que não conhecia e leitura ­(e releitura) constante das últimas semanas, que vim recomendar.

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