Torturante rima com Ferrante

 

dias de abanEnquanto lia Dias de Abandono, da italiana Elena Ferrante, pensava o tempo todo em largar o livro, parar de lê-lo e deixá-lo num canto qualquer da cidade, com uma dedicatória: “A quem encontrou este livro: boa sorte”.

Mas insisti, em nome dos dois primeiros livros da tetralogia, A Amiga Genial e História do Novo Sobrenome, que amei, que não conseguia largar, que me fez continuar sentada no metrô mesmo chegando à estação, várias e várias vezes.

A situação emocional que vive Olga, a narradora, uma mulher abandonada de repente pelo marido, é o que nos faz querer desistir e abandoná-la também. É tão difícil acompanhar seu sofrimento, a perda do fio, a ausência da relação da personagem com a realidade, que o leitor fica aflito, buscando qualquer caminho narrativo que conduza a história.

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3 COISAS QUE PENSEI AO ASSISTIR JULIETA ***CONTÉM SPOILER***

PRECISA HAVER MORTE, PARA HAVER NASCIMENTO

O que fiquei pensando depois de assistir ao filme foi que nada aconteceu às personagens de maneira indolor. Tudo foi fruto de uma morte: precisou haver a morte, real ou simbólica, para que as situações se desenrolassem.

Não fosse a morte do suicida do trem, a relação entre Xoan e Julieta talvez não tivesse se iniciado; e se não fosse a morte da esposa de Xoan, talvez essa mesma relação não tivesse se consumado, com o nascimento de Antía.

Penso no que pode ter nascido com a morte de Xoan, fora a relação próxima e dependente de Antía e Julieta, mãe e filha, relação que precisou morrer para que Antía nascesse e fosse “em busca de si”.

E foi necessária essa morte simbólica, a partida de Antía, para que Julieta pudesse recuperar-se – renascer – da morte de Xoan.

Julieta finalmente conseguiu reconstruir a sua vida, aos trancos, mas a dor da ausência de Antía, guardada, veio à tona a partir do encontro casual entre Julieta e Bea, a amiga de infância da filha, levando Julieta mais uma vez ao abismo. A morte do filho de Antía foi o que possibilitou a reaproximação entre ela e a mãe, que buscava em vão a filha distante, sumida, morta.

Angústia é uma palavra adequada para definir o filme, que amplifica a dor de Julieta em sua busca. Ficamos, deste lado, apenas esperando a próxima tragédia acontecer, imersos na atmosfera dramática esquematizada pelo diretor.

Qual será a próxima morte, e o próximo nascimento? Então fiquei pensando se essa pode ser uma definição de melancolia, viver à espera de algo sem solução, para viver para remediar, e novamente esperar, num ciclo.

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Exs se reaproximam quando você se interessa por outra pessoa, diz estudo

Um grupo de cientistas da Universidade de Harvard concluiu nesta semana um estudo definitivo sobre a reaproximação de relacionamentos antigos (sim, o/a ex) na fase pós-luto. Você achava que era a Lei de Murphy, mas foi descoberto que existem substâncias químicas envolvidas naquele whatsapp misterioso, no telefonema pedindo um livro emprestado (ela nem gostava de ler!) ou naquele e-mail descompromissado – querendo apenas saber se está tudo bem.

Quem nunca viveu a seguinte situação: meses ou anos depois do fim de um relacionamento, você finalmente consegue começar a sair de casa, conhecer outras pessoas e até se interessa de fato por alguém. Tudo bem até aí, seu interesse está desperto, o interesse do novo alguém, idem, vocês começam a sair com mais frequência, o interesse cresce e…

O celular apita. E é o/a ex. A própria Fênix.

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Casa

casa

Faz algum tempo que sinto um amor inexplicável pelas quintas-feiras. O dia está muito lindo e penso “mas minha nossa, por que hoje está tão lindo? Como pode um dia tão lindo?”, logo respondo “ora, ora, ora: é quinta-feira”. Sempre é. A pessoa que inventou o #tbt (nota mental: pesquisar) deve achar o mesmo.

Vinha descendo o ladeirão a caminho de casa, saindo do trabalho mais cedo que o normal, pensando no dia, agradecendo, cantando. Lembrei de como o dia começou, e esse – o como ele começou – é o tema deste texto, cuja intenção é indicar aos leitores um dos meus discos preferidos da vida.

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A amiga do novo sobrenome

ferranteElena Ferrante me fez aprender a andar e subir escadas sem precisar olhar para o chão, porque eu não queria fechar e guardar o livro na bolsa, no caminho do metrô até em casa. Me fez sair mais cedo e chegar mais tarde, estendendo as viagens nos vagões. Mesmo em casa, me fez perder horas de sono porque, já deitada, preparada para dormir, era impossível fechar os olhos.

A leitura é recente e será inesquecível, Elena, nos conduz pelas ruas de Nápoles, Lenuccia e Lila como se fossem nós mesmos. Sento-me com as duas, entre as duas na escadaria e digo-lhes: “entendo”. Elas me olham e se olham entre si e desconfiam. Lila revira os olhos. Lenu aquiesce. Sinto seu toque na minha mão, Lenu sorri e olha à frente.

Elena Ferrante me fez desejar andar pela Itália, sua luz marrom na minha imaginação. Falar italiano – na tradução dá pra sentir o sotaque de quem veio de lá há gerações, o jeito de falar da minha avó, que é o jeito de falar da avó dela –, escrever um romance. Começar um romance e vivê-lo. Me fez desejar conhecer um romance. Correr por ruas de pedra, ou melhor andar, andar olhando para tudo pelas ruas de pedra e de braços dados, tempos atrás, andar cadenciado.

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Porto amoroso

Redenção em março. Poa pré-outonal.
Redenção em março. Poa pré-outonal.

Andar por Porto Alegre com um gaúcho é passar por inúmeros lugares tradicionais. “Aqui, essa doceria é bem tradicional”, “esse sebo é famoso”, “essa livraria”, “foi aqui que…”.

“Tu já foi na lancheria do parque?”

Ouvi a pergunta de praticamente todos os colegas locais. Já! E já provei o sucão misto, servido na jarra. “Ah, bom, porque tu não pode dizer que esteve em Porto Alegre se não foi na Lancheria.”

Há tempos queria escrever sobre a cidade onde passei dois meses do meu 2016. Tentei, tentei e nada saía, e também não sabia muito o que dizer. Mas ontem, aqui na minha véia São Paulo, depois de gastar horas de locomoção, para lá e para cá, trem apertado e metrô lotado – e hoje, depois de precisar cancelar um compromisso em cima da hora porque o ônibus não passou, me dei conta do que me encantou em Poa. E resolvi registrar para não esquecer.

Na minha rotina diária porto-alegrense eu não costumava sair muito. Se tinha de fazer algo era coisa rápida – uma passadinha no Záffari do Shopping Total, um café ali na padariazita da Gonçalo, almoçar no vegano da Redenção, cinema na Casa de Cultura Mario Quintana, andar pelo centro, porque centros são os melhores passeios. E sempre era coisa rápida rápida mesmo. Dava para fazer quase tudo a pé, meia horinha de caminhada, no máximo, resolvia.

Fim de semana era para andar até cansar pelas ruas. Na companhia da guria mais querida, cheia de disposição e paciência (capaz!) era um sobe e desce lomba que só, com a térmica debaixo do braço, lojinhas lindas, alternativas e charmosas. Aí depois parávamos em algum lugar, qualquer lugar – Gasômetro, Redença (rsrs), Moinhos –, sentávamos e dá-lhe assunto até o céu mudar de cor.

Porto Alegre tem cores incríveis de céu. E gaúchos são ótimos proseadores.

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Desafio número 1 para abrir mão do controle

Este é um desafio para você aprender, devagar, a abrir mão do controle. Para algumas pessoas isso é muito difícil, mas breves exercícios diários podem fazer que consigamos deixar de lado a necessidade de controlar tudo – essa necessidade que deixa a gente meio ansioso, que mexe com as nossas cabeças e nos deixa assim.

O exercício deve ser feito enquanto você estiver andando na rua, ou no parque. É melhor que não esteja com pressa. Se você estiver com pressa e mesmo assim conseguir fazer o exercício, parabéns, já é um avanço enooooorme – mas, se estiver com pressa e não conseguir fazer, tudo bem, não se aflija e não se cobre. É um passo muito largo. Melhor recomeçar outro dia, sem pressa desta vez. Porém, mesmo assim, é importante que você esteja indo a algum lugar, que tenha um objetivo, e não tenha saído de casa apenas para fazer o exercício.

O exercício consiste em entregar os seus passos a outra pessoa.

Sim, os seus passos.

A um desconhecido.

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Como estar perdido

“A culpa é sua, Thiago. Se você não tivesse caído, a gente não tinha se perdido!”

“A culpa é do meu patinete!”

“Thiago, agora nós estamos perdidos… Não, não, não, eu não lembro de termos passado por aqui! E agora, Thiago?”

“Não sei!”

Os dois irmãos, um de uns 8 anos, outro de uns 6, chegaram com seus patinetes em volta da nossa base, lá na Usp, em uma manhã de sábado. Muito assustado, o mais velho não parava de gritar com o menor.

“Se você não tivesse caído, a gente ainda ia estar junto com a Bel! Thiago, o que a gente vai fazer agora? Eu não sei onde a gente está! Perdidos, perdidos! Nós estamos perdidos!”

“Calma, a gente vai achar eles…”

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Laranja do céu

“É o senhor que está ouvindo Roberto, seu Vilson?”

“Sou eu, você gosta?”

Depois de um mês e meio ouvindo mantras, kirtans e bhajans, Roberto Carlos foi totalmente bem-vindo.

“Eu amo Roberto, seu Vilson!”

“Então eu vou aumentar. Eu gosto muito também, todo sábado eu escuto.”

As Curvas da estrada de Santos começou a tocar mais alta, e eu também aumentei a voz e comecei a cantar, concentradíssima, enquanto varria as folhas secas do pátio.

Seu Vilson mora na pensão que fica parede com parede de onde estou morando. Ele vende frutas nas ruas de Porto Alegre, já me deu um monte de laranja do céu e duas bananas. “Ei, vou te dar dois celulares, quer?”, e estendeu as bananas pra mim. Depois, sorrindo sem os dentes da frente, bateu a ponta do dedo indicador na bochecha, pedindo um beijo. Dei.

“Ô menina, bom dia!”, eu ouço toda vez que saio pra rua, e “bom dia pro senhor também, seu Vilson”.

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Quando um livro brilha os olhinhos

untitledMuitas vezes, quando você conhece um corredor ou conta a alguém que corre, os livros sobre o assunto viram tema. Você já leu aquele Do que eu falo quando falo de corrida?, do Murakami? E o novo do Drauzio Varella? 50 maratonas em 50 dias?

Eu nunca tinha lido nenhum livro sobre corrida. Nada pessoal, simplesmente porque não. Até que Nascido para correr chegou em casa via correios e telégrafos com direito até a dedicatória. Amei e li a dedicatória umas trinta vezes, depois deixei o livro meio de canto para ler quando as milhares de tarefas dessem uma trégua.

Até que eu tinha uma viagem a Florianópolis de ônibus e me pareceu uma ótima ideia levar o bichinho para me fazer companhia no trajeto – já que, em Floripa, ia correr a Meia Internacional e precisava ficar bem inspirada. Risos.

Logo que o semi-leito deixou o terminal Tietê abri o livro e não consegui mais fechar. Tirando algumas pausas para breves sonecas, não desgrudei do Christopher McDougall até a viagem acabar: a escrita é envolvente, os capítulos curtos, os temas bem amarrados, com pequenas narrativas alternando com dados científicos dentro de uma narrativa maior, de um desejo maior.

O norte-americano Christopher McDougall, jornalista e autor do livro, inicia sua saga em busca das causas e tratamentos para suas dores nos pés durante as corridas. Durante esse percurso, toma conhecimento dos tarahumaras, uma tribo que vive isolada na região de fronteira dos Estados Unidos com o México e de um misterioso “seguidor” da tribo, conhecido como Caballo Blanco, um norte-americano que meio que largou tudo para viver em cavernas nos desfiladeiros e se dedicar a correr, correr e correr tentando descobrir a essência tarahumara, representada por seus corredores incansáveis, vigorosos, longevos e… de sandálias.

A história dos tarahumaras é contada enquanto vemos Caballo tentando realizar seu sonho de organizar uma ultramaratona com os corredores mais velozes dos Estados Unidos. No meio disso tudo está um jornalista que aborda assuntos bem polêmicos como indústria dos calçados de corrida, organização de eventos, indústria farmacêutica e limites do corpo. O cenário é a região de Barrancas del Cobre, Chihuaua, México, de natureza selvagem e com desfiladeiros mais profundos do que o Grand Canyon.

Muitas vezes quis descer do ônibus e sair correndo – principalmente quando houve um acidente na estrada e ficamos 4 horas absolutamente parados –, de tão inspiradora que é a leitura. Óbvio que não saí e, no fim, acabei deixando até de correr a Meia (como contei aqui) para ir me divertir.

Alguns momentos chuvosos da viagem foram preenchidos pela leitura, que, por sua vez, foi abrindo espaço para outras reflexões. Será que eu estava realmente me divertindo com os treinos? Será que eu não estava levando tudo a sério demais (planilha, alimentação etc. etc.)? Será que isso já não estava se tornando uma obsesión? Por fim, tentei lembrar de alguma vez que eu correra SORRINDO nas últimas semanas de treinos.

Não digo das vezes em que sorri no final do treino, por ter mantido um pace que queria atingir, e nem dos sorrisos acompanhados de água de coco e descanso na grama do Ibira. Estava tentando lembrar de sorrisos durante os percursos, de correr com prazer. Pois é, tentei, tentei e não lembrei – os treinos de tiro, na esteira, estavam torturantes; os progressivos idem, no Ibirapuera, cenário de sempre, e os longos… bem, os longos eram o meu momento de glória, em que ia doida destemida por um percurso escolhido no google maps, na rua mesmo, e passeava pela cidade.

Sim, os longos. Quase sem pensar no cronômetro, o ventinho da manhã no rosto, a cidade num silêncio esquisito e envolvente. O ar livre, a temperatura.

Quem tiver a curiosidade de ler o Nascido, ou quem já leu, vai entender por que falei do sorriso. São algumas lindas passagens, de arrepiar mesmo. Separei uma para dar o gostinho, e porque fiquei fã demais dessa mulher Jenn Shelton:

Naquele outono, a revista UltraRunning divulgou uma foto. A imagem mostrava Jenn terminando uma prova de 48 quilômetros em algum fim de mundo da Virgínia. Não havia nada demais em seu desempenho (ficou em terceiro lugar), em seu visual (short preto básico, top esportivo preto básico), nem no resultado final (a iluminação era reduzida, com recorte simples). Jenn não aparecia ultrapassando um concorrente nos últimos instantes da prova, nem correndo no alto de uma montanha com algum modelo de tênis Nike chamativo, nem rumando para a glória com cara de quem transpira determinação. Na foto, ela aparecia correndo – apenas correndo e sorrindo.

Depois de terminar a leitura, no ônibus da volta a São Paulo, depois de ter desencanado de uma corrida à qual me dediquei bastante, revi os objetivos daqui para a frente. O projeto 10 km monstros, por hora, foi deixado de lado… O projeto da vez é correr sorrindo.

Bora?

😀