Plano Baixo Fotos – capítulo 2

NOITE EM CLARO

Mesmo tendo já visto tantos e tantos sapatos, tendo abraçado tantas canelas e apertado lá umas quantas panturrilhas em marcha pela praça, jamais vira antes aquele par. A fotografia estava borrada – a única certeza eram os saltos vermelhos. Era como se o mundo tivesse acelerado de repente, uma guinada, e os pés tivessem conseguido se manter intactos. Eramir tentou se lembrar de semanas atrás, do dia em que se dera folga e saíra para fotografar aquele primeiro filme, presente do Alaor — sua primeira caixinha, brinde que veio com a câmera. Noite adentro, ardendo em febre, tentou refazer seus passos mentalmente por aquele ambiente que conhecia tão bem. Caminhava ao redor de seu quarto, olhos ora abertos, ora fechados, tentando lembrar de onde estivera se já havia tido qualquer visão parecida.

“A câmera me atrapalhou de ver”, pensava, e logo corrigia-se, pois, não fosse a câmera, ele jamais teria capturado aquele passo misterioso em meio à multidão.

De casa na Amaral Gurgel saiu primeiro na direção do Arouche. Era bem cedo de manhã. Essa princesa jamais estaria no Arouche àquela hora. Ou estaria? O que estaria fazendo ali? Não estaria ali. Pegou a Vieira de Carvalho reto até a Praça da República. “Foi isso. Queria tirar foto da República. Fiquei lá um tempão. Encontrei o Vitrola. Mostrei a câmera. Ele achou da hora e pediu para eu tirar uma foto dele. Expliquei que não dava. Depois encontrei o Ostrinha e escondi a câmera. Complicado o Ostrinha” (ia lembrando, tropeçando e se atrapalhando ao pisar no escuro, os braços em movimento como se orientassem um trânsito imaginário). Saiu da Praça da República e foi até a Dom José Gaspar, a sua praça, porque queria vê-la de perto. “De lentes, de lentes na minha Dom José.” Gastou algumas poses por lá, pés das cadeiras na cachaçaria do Rancho, o caminho acimentado entre as árvores, o parapeito dos canteiros. A entrada da biblioteca.

“Só pode ter sido na Dom José. Mas onde, na Dom José? Que horas, na Dom José? Quando, na Dom José? Será que era mesmo a Dom José? Quem foi Dom José?” Eramir lembrou então que passou também pelo Municipal, Viaduto do Chá, Vale do Anhangabaú e Praça do Patriarca. Rua Direita. “Sé, para terminar lá no Alaor. Terminei no Alaor? O Alaor estava lá? Era dia útil? Aquele mundo de gente na rua? A loja estava aberta? O que fiz para merecer isso?”

Eramir suava e pensava, estapeava-se para lembrar. Rastejava mentalmente atrás do rastro daqueles passos vermelhos, de qualquer mínima pista de seu paradeiro.

*

Acordou sobre a sua poça de baba, no limiar da escada de entrada do Edifício Acapulco. Além da mancha escura e úmida no assoalho, viu o pé direito de Dona Guiomar batendo nervoso à frente de seu rosto. O som de cada batidinha reverberava, e Eramir sentia cada pontada em seu ouvido esquerdo.

— Eita, Êra. Que foi que houve, homem?

Subiu os olhos pelos tornozelos roliços de Dona Guiomar, por suas canelas trêmulas e cheias de varizes. Chegou aos joelhos enormes, semicobertos pelo vestido de viscose. Lá no alto, a cabeça redonda de Dona Guiomar.

— Se mexe, homem! Vou abrir a porta já! E o café está quase pronto. Que foi que aconteceu, hein, disgramado? — Ela dizia, agachando-se para tatear Eramir, tentando puxá-lo para cima. — Vaaaai, Eramiiiir. Levanta, meu!

— Já vou, Dona Guio.

— Olha aí, me babou tudo no chão!

— Pode deixar que eu limpo, Guio.

— Ah, eu limpo, eu limpo. Não me venha com eu limpo, eu limpo… Sai daqui, vai se arrumar, Êra. Você tá vindo com a baba e eu já volto com o rodo. Há-há-há.

*

O quarto estava uma zona. Fotografias espalhadas, os lençóis amarrotados num canto, objetos largados pelo chão. Os olhos inchados de Eramir olhavam perplexos aquela bagunça enquanto seu cérebro tentava se lembrar de como tudo aconteceu, de como fora parar, deitado, escada abaixo, na entrada do prédio. A fotografia. Procurou a fotografia dos sapatos vermelhos e não encontrou, levantou colchão, criado-mudo, mexeu em tudo, e nada.

Refez o caminho até a porta do prédio já escancarada para a rua. Assustou-se com a arrancada do ônibus na sua cara. Nem sinal dos tornozelos. O cheiro de café se alastrava nos corredores. Eramir resignou-se e caminhou até a cozinha.

Os dias no Acapulco começavam com o café de Dona Guiomar. A senhora, de seus sessenta e poucos anos, tocava a pensão desde o falecimento do esposo Roberto, o antigo zelador. Caminhava barulhenta cuidando de manter a ordem na área comum que integrava os seis aposentos, ao longo do imenso corredor, dois banheiros, cozinha e área de serviço — limpar os quartos dos seus meninos, como ela chamava os inquilinos, só se estivesse de muito bom humor. O que era raríssimo: “cada um com seu cada um”, dizia, abanando as mãos ao lado das orelhas, tsc, tsc.

Ficava feliz assistindo aos inquilinos durante as refeições, palitando os dentes e cheirando com vontade o ar do ambiente na hora de comer e no fim de cada dia, após a lida. Assim que o primeiro entrava na cozinha para tomar café, Guiomar se plantava ao lado da pia para receber um elogio. E dia a dia eles se repetiam, os elogios, os mesmos de ontem.

Naquela manhã Eramir chegou depois de todos.

— Me atrasei, velha Guio! — gritou, puxando a cadeira e fatiando com pressa o pão branco e murcho, “barriga de Guio”.

— Mas que foi que houve, foi?

— Não sei. Devo ter sonhado, isso sim.

— Sonhado que era um jacaré. Cê é doido, Êra.

Ele molhava o pão-barriga no café com leite açucarado e dava grandes mordidas.

— Você não viu uma fotografia por aí, não, Dona Guio? Ali no chão, quando levantei?

— Vi não… Perdeu?

— É… bobagem. Se encontrar, me avise — mordiscou um miolito.

O café da manhã foi interrompido por passos.

— Será que ouvi direito? Por acaso nosso meninão perdeu… ahm… Uma fo-to-gra-fia? — Quem entrava na cozinha era Joyce, filha mais nova de Dona Guio. Abanava a fotografia do anão no ar, pisando forte com sandálias de salto.

— Joyce, não comece não — baliu Dona Guio.

— É minha sim, Joyce. Pode me devolver, fazendo o obséquio?

— Vem pega-aaar — provocou a moça. Mão esquerda na cintura, esticou o braço direito lá para o teto. Era uma girafa, a Joyce.

— Afe, Joyce, como você é infantil.

— Liga não, Êra. Joyce tem idade mental de doze anos. Falo porque conheço a peça.

— Faz alguma coisa, Dona Guio! — Eramir pulava de um lado para o outro tentando alcançar o braço da moça.

— Faz o quê, meu filho? Cê é homem, já. Te vira!

— Me dá a minha foto, Joycê.

Joyce ria e trocava a foto de mão, lá no alto.

— Estou tentando entender aqui — recomeçou a moça, olhando a foto lá longe — por que é que você quer uma foto tão horrorosa. Essa ficou feia, hein, artista?! Não dá pra ver lhufas!

— Tá feia, tá feia sim, Joyce. Tá horrível essa foto. Me devolve, então. Me dá aqui essa coisa feia! — Eramir dava seus pulinhos e não conseguia sequer alcançar o cotovelo da moça.

— Eu acho que a gente tem que rasgar isso aqui! Ou… Oh! — Joyce pegou um isqueiro do bolso e arregalou os olhos para Eramir.

— Não! Não! Não! Me dá aqui, meu! — O homem se exaltava, a veia saltava-lhe no pescoço. A voz oscilava entre choro e raiva.

— Ai, Êra, você é muito engraçado mesmo. Toma, vai, pega aqui — cedeu, colocando a foto dentro do decote. — Agora é moleza — deu uma piscadela. — Pode pegar, vem.

Eramir esticou o bracinho, e, polegar e indicador, puxou rapidamente a foto. Abraçou aquele pedaço de papel. Amou aquele pedaço de papel. Os sapatos, tornozelos, panturrilhas, ainda estavam ali. Amassados, assustados, mas ali.

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