Plano Baixo Fotos – capítulo 3

NOTAS SOBRE FOTOGRAFIA 

Xoxo, café com leite na garganta, Eramir caminhou para mais um dia de trabalho. A foto ia no bolso esquerdo da camisa, sua caixa, sob o braço direito. Farejando as calçadas a caminho da praça atrás daquele par de sapatos mal olhava para a frente e a cabeça pesava, maldormida, sobre o pescoço retrátil.

Alguns clientes habituais já o aguardavam em seu ponto: “Vamos, Êra, por que demorou tanto hoje? Temos hora, meu rapaz”, dizia um, com o indicador direito batendo no pulso esquerdo. Eramir só conseguiu se apressar. Retirou os itens da caixa e montou seu espaço, balbuciando desculpas e abanando o ar à sua volta.

Engraxou com fúria os sapatos dos que já o aguardavam, e, durante uma breve pausa, tirou do bolso a fotografia. Colocou-a diante dos olhos e foi afastando o papel, esticando os braços e girando o corpo para tentar identificar o borrão da imagem nas cores da praça. Podia ser ali, ali ou ali, mas era mesmo a Dom José Gaspar. Ele estava perto, podia sentir. Beijou sua joia e a guardou de volta no bolso.

Vieram mais clientes — essa hora antes do almoço era produtiva. O sol brilhava refletido no couro dos sapatos, mais brilhantes, quase espelhados depois dos serviços de Eramir. O homem suava em seu esforço contínuo, pares e pares, couro preto, couro marrom, couro marfim, escovinha, obrigada, próximo! E ao voltar o olhar com mais atenção para o par que acabara de sentar, viu: couro vermelho, ela veio, escutou o seu chamado. Estava sentada à sua frente, estendera-lhe os pés. Ele olhou e piscou para ter certeza de que eram eles e continuavam ali, altos, vermelhos. Calculou sem solução como faria para engraxar aqueles modelos femininos. Levantou os olhos e a cabeça em câmera lenta, tornozelos, canelas, joelhos e “paf”, tomou na cabeça uma jornalada do Macedo.

— Tá doente, meu bonito?

— Eu, hein, seu Macedo!

— Parece que nunca me viu! Tô aqui sentado há um tempão e você nem se mexeu, Eramir! Que que cê tem, homem?

— Nem vou te falar, viu, Macedô. Nem vou te falar.

— Pois então trabalhe… E se apresse, que tenho ainda que almoçar antes de voltar para o escritório!

 

Trabalhe, Eramir, engraxe. Que delírio… Como pude confundir esse pezão do Macedo… Com aqueles pezinhos lindos?

*

Encerrado o expediente da manhã, Êra juntou as coisas, atravessou o Viaduto do Chá, entrou na Rua Direita e foi em direção à Sé, atrás do Alaor. No caminho, teve algumas ideias para conseguir encontrar a sua Cinderela e queria a ajuda do amigo.

— Eramir, você tem ideia de quanto custa um detetive particular?

— Mas eu não tenho como ficar procurando, Ala!

— Primeiro: é uma fortuna. Segundo: ele não terá nada além dessa foto aí borrada como pista.

— …

— Ai, Êra, desculpa… Ficou bonita a foto.

— Eu sei que ela não ficou bonita, Ala. Mas é a foto mais linda do mundo pra mim.

— Mas, Êra, seja racional. Perceba as coisas, homem! Olhe friamente! Você não pode se apaixonar por cada foto que tira!

— Cada foto, não. É essa que eu amo.

— Você sempre vai amar alguma, e já te digo, Êra: se você ficar assim com todas as fotografias, vai ficar maluco! — Alaor para e apoia no balcão. — A fotografia é mesmo uma coisa muito ingrata, sabe? As maravilhas duram um segundo, e ficam presas, para sempre inacessíveis… Nunca voltam ao estado em que as capturamos.

— Nossa, Alaor.

— O quê?

— Que bonito.

— … Sabe, Êra… Eu mesmo já amei uma 3×4… Mas tive de superar. A foto era para um passaporte… Ela ia para o exterior… Nunca mais apareceu por aqui — Alaor abriu uma gavetinha atrás do balcão para ver o rosto da amada distante, acariciou-o e suspirou. — No fim a vida é que nem a fotografia, Êra…

— Um borrão sem sentido?

— Também. Mas também uma coleção de momentos congelados, que ficam, mesmo depois de irem embora…

— Tu tá poeta demais hoje, meu velho.

— Deve ser o calor — Alaor passa o lenço na testa.

— Vamos lá, meu amigo. Como podemos encontrar minha prenda? Me ajude!

— Você estava pensando em detetive, certo? Por que não fala com o Ostrinha? Ele tá sempre para lá e para cá, nunca está trabalhando…

— Hm… Você sabe que o Ostrinha é complicado.

— É complicado.

— Pensei também se a gente instalasse uma câmera ali no canteiro para filmar o movimento da praça o dia todo. Podemos camuflá-la no canteiro, entre as folhas, e filmar tudo. Depois, à noite, chegando na pensão eu posso assistir e…

— Eramir, meu caro, pense, uma vez na vida: aquela praça é um vuco-vuco… Não vai dar para ver todos os pés que passam ali. Além disso, essas câmeras de segurança só registram imagens em preto e branco. Como você vai saber quais sapatos são vermelhos?

— Aiiiii Alaoooor é verdaaaade…

— A gente pode, olha só, fazer um cartaz!

— Isso! Um cartaz com a foto!

— Sim. Espalhamos o cartaz em alguns postes, em alguns lugares na praça, com a foto e seu telefone. Se a dona realmente passa por lá, ela vai ver o cartaz e vai entrar em contato.

— Podemos colocar uma recompensa em dinheiro!

— Calma, Êra, isso pode causar danos à moça.

— Verdade. Que tal: ONDE ESTÁ A MINHA CINDERELA? — Eramir espalha as mãos no ar. Eleva e abre os braços, olhando, ora para a direita, ora para a esquerda.

— Há há há! Boa, mas ela pode ficar envergonhada, hein?

— ESSES SAPATOS SÃO SEUS? ESTOU AOS SEUS PÉS. ASSINADO, ERAMIR. E meu telefone. Que tal?

— Acho legal, mas fica meio babão, Êra… Mulher também gosta de um pouquinho de mistério… — Alaor esfrega uma mão na outra.

— Então como, Ala? Vai, quero ver, você que é poeta! — Eramir pulou do banco e saltitava em frente ao balcão.

— PROCURO A DONA DESSES SAPATOS PARA ME JUNTAR A SEUS PASSOS.

— Tá-dááááá! Na mosca, Alaor meu velho!

— E deixamos só o seu telefone. Sem o nome. Podemos começar assim e ver se alguém liga… Se não der certo, elaboramos outras frases. Com certeza sua princesa vai aparecer!

Eramir saltitava com mais intensidade e batia palminhas:

— Perfeito, Alaor! Perfeito: misterioso e sedutor.

— Como a sua fotografia.

 

 

Leave a Comment

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *