Plano Baixo Fotos – capítulo 4

ARTISTA GALERISTA

Triiiiiim; triiiiiiiim!

— Ala! Alaaaaa! Estão me ligando! — Eramir cruzou o corredor da pensão até o quarto de Alaor como um foguete. Eram onze da noite, os cartazes haviam sido espalhados naquela manhã. Era a primeira ligação de um número desconhecido desde então.

— Pois atenda, homem! — Alaor estava já de pijama, o abajur iluminava seu corpo estendido, que Eramir via pela fresta.

— E se for alguém?!

— Eramir.

— E se for ela?!

— Atenda, homem!

— Não posso.

— Mas meu Deus, Eramir. Vai desistir agora? Olha aí… Parou de tocar. Se não quer atender, não atenda, mas me deixe dormir e pare de resmungo — Alaor virou de conchinha agarrando o lençol.

— Ala… Eu…

— Vá para o seu quarto, já. Se esse telefone tocar de novo, me faça o favor de atender. Se você não atender, sinto muito, meu velho, poderá morrer sem saber se era ela.

O anão não respondeu. Lamentou um “boa noite”, fechou a porta e voltou para o seu cubículo. Meia hora depois, já de pijaminha sob as cobertas, ouviu o toque novamente. Levantou e, imóvel, ficou encarando o aparelho em cima do criado-mudo. O mesmo número de antes. Vamos lá, Eramir.

— A… lô?

— Oi, boa noite, quem é que está falando? — A voz era de mulher.

— Quem quer falar?

— Bem… você não me conhece… Meu nome é Olívia Ehbert e sou artista visual. Quer dizer, não sei se você me não me conhece meeesmo… Estou sempre circulando por aqui, nas galerias e eventos do Centro e tal… Tenho um pequeno espaço colaborativo-coletivo. Não sei quem é você, mas passei com uns amigos por sua intervenção artística na Praça Dom José Gaspar há pouco e

— Os sapatos são seus, dona Olívia?

— Não… é que… Cara, sua arte é genial!

— Perdão? — Tremeu.

— Meu… A fotografia, saca? É sua mesmo? Foi uma ideia muito massa. A arte tem mesmo que sair das galerias e ganhar as ruas. Estamos sempre pensando em maneiras de ação, de tomar a cidade, ocupar os espaços, sabe? A sua ideia foi massa, genial, genial.

— Dona Olívia, não estou entendendo.

— A mistura de linguagens, essa coisa super anos 80 de anúncio, meio jornal de quinta categoria… A dicotomia público/privado, sapatos versus ruas, passos e procuras…

— Gostaria de saber se os sapatos são seus.

— E esse telefonema? também faz parte da obra? Legal, legal, a continuidade, a obra fora da obra; extrapolando a obra em si. Me conta, qual o objetivo final? Bem… qual é o seu nome? Você é daqui de São Paulo, mesmo? Já expôs onde?

— Meu nome é Eramir, sou daqui de São Paulo e não sei do que a senhora está falando.

— Acho que nunca conheci nenhum Eramir por aí… Você tem mais trabalhos? Estou procurando trabalhos desse tipo para expor lá no meu espaço. Você teria interesse?

— Tenho mais fotografias.

— Legal, eu gostaria de ver. Estou tomando um drink aqui com uns amigos e não cansamos de olhar e refletir sobre a sua intervenção. É mesmo genial.

— Obrigada, mas… Os sapatos são seus?

— Que sapatos?

— Os da foto.

— Claro que não.

— Bem, então não vejo por que conversarmos.

— Oi?

Click.

Tremendo de nervoso, ainda sob o impacto daquele primeiro toque, Eramir desligou o aparelho e deitou, sem entender o que disse a voz do outro lado.

*

Na manhã seguinte, chegando à Dom José, Eramir notou que seus cartazes não estavam mais nos pontos estratégicos escolhidos por ele e Alaor. Não estavam em lugar algum. Não viu nem sinal deles. Mordeu os lábios e estava a ponto de chorar, quando o primeiro cliente chegou, cumprimentou-o e sentou-se à sua frente para engraxar os sapatos.

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