Plano Baixo Fotos – capítulo 5

O RESGATE

— Como assim, desligou?

— Desliguei, Ala. A mulher falando de obra de arte genial, de passos e ruas, uma doida. Não era a minha princesa.

— Mas essa história de exposição era verdade?

— E eu lá sei! Exposição, Alaor? Exposição? Olhe para mim! Sou apenas um aspirante: tenho ao todo 36 fotografias reveladas de um filme que ganhei de presente. Obrigado mais uma vez, aliás.

— Mas isso pode ser interessante, Êra, pense bem. Se você virasse um artista famoso, seria mais fácil encontrar a dona dos sapatos. E conquistar coração dela de uma vez! Nenhuma mulher resiste a um artista famoso.

— Alaor, é verdade! Como fui burro, burro, burro! Preciso ser um artista famoso.

— E, imagine só, você seria um fotógrafo famoso. Modelos, sets, ensaios para revistas. É a crista da onda, meu querido! O estrelato! He-he — dois tapinhas no ombro.

— Mas e os cartazes desaparecidos? Será que foi a doida?

— Pode ser. Ela provavelmente fez isso para fazer você ir atrás. Ou por pura maldade, depois do seu papelão. Por que não tenta ligar para o número?

— E falar o quê, Ala? O que eu falo?

— Pergunte se ela está com os seus cartazes, ora.

— E se ela estiver?

— Se ela estiver, você pede de volta.

— Alaor, é isso! Você é genial.

*

— Alôa?

— Doutora Olívia?

— Oi, é a Olívia. Quem é?

— Eramir. Aquele dos cartazes. Você me telefonou ontem.

— Ah, sim! O fotógrafo. A que devo a honra do seu contato?

— Dona Olívia, a senhora me permite-me.

— Senhorita.

— A senhorita me permite fazer uma pergunta?

— Claro, Eramir. Ah, sim. Estou com seus cartazes. Nos apropriamos de todos os que estavam na praça para expor no meu espaço. Tivemos essa ideia ontem: uma exposição acidental com fragmentos das ruas. Seus cartazes serão a atração principal. Como você assina? Eramir de quê?

— Bom, dona Olívia, primeiro espero que a senhorita saiba que aqueles cartazes eram de verdade, não eram arte.

— Eles são arte, Eramir. A mais pura arte. A arte ingênua, a arte despretensiosa, a arte ideal… Arte-arte, sabe? Sinto muito, nos apropriamos da sua arte. Você sabe… Quando coloca algo na rua, quando o mostra ao público, ele deixa de ser seu. Mas você pode vir visitar meu espaço, se quiser. Chama Centrífuga, e fica atrás da Praça da República. Hoje à noite teremos a abertura da exposição. Eu adoraria conhecer você e te apresentar para um pessoal. Quem sabe conversarmos sobre uma possível individual? Apareça!

— Dona Olívia, eu só quero meus cartazes de volta.

— Você os terá, Eramir! E terá muito mais, acredite.

*

— Joyce, não vamos passar vergonha, ok? Não fale alto e não beba demais.

— Ai, Eramir. Deixa eu me divertir. Você me chamou para uma festa, não foi?

— Sim, mas não sei como essas festas funcionam.

— Êra, festa é festa! Não banque o velhaco.

— Tudo bem. Mas lembre-se do que combinamos. Enquanto eu converso com a doida, você pega os cartazes. Não esqueça.

— Ahaaaaammm.

— Ah, e não vai dançar.

— Afe, chatão.

— Estou bonito? — perguntou, interrompendo a caminhada com um pequeno salto e fazendo pose.

Joyce agachou e arrumou a gola da camisa de Eramir, passando as mãos sobre seu peito e suas costas para desamassar pequenas rugas e espantar pelinhos. O fotógrafo tinha se preparado apressadamente para aquela mesma noite: escolheu roupa boa, comprou flores para oferecer a Olívia e chamou a Joyce para ter com quem falar. Joyce o preocupava um pouco, mas estava lá de bobeira na pensão, podia causar uma impressão boa e aceitou o convite na hora. Era esperta, sempre sabia o que fazer. E estava muito bonita.

O plano imediato era recuperar seus cartazes e colá-los de volta na Dom José amanhã, simplesmente. O objetivo final era encontrar a dona dos sapatos vermelhos. Ele faria o que fosse preciso.

— Gente, que lugar é esse? Tem certeza que é aqui, Êra? Isso é um pulgueiro!

— Não começa, Joyce. Vem, vamos entrar.

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