Plano Baixo Fotos – capítulo 1

ERAMIR

Depois de caminhar com passinhos apressados por muitos quarteirões, tropeçando na caixa de engraxate presa sob o braço esquerdo – os objetos batendo ruidosamente ali dentro –, e de passar na lanchonete vizinha para engolir um salgado e um suco, Eramir chegou à porta do Edifício Acapulco, na Rua Amaral Gurgel, perto do metrô Marechal. Afobado e esbaforido, subiu os degraus debatendo-se nas paredes e apressou-se para o fim do corredor, onde, na penúltima porta, ficava o seu quartinho.

Chutou os sapatos pelo chão do cubículo e saltou sobre a cama com alívio, os pezinhos baloiçando, quase tocando o chão. Eramir trazia na mochila um tesouro: o envelope com as trinta e seis fotografias de seu primeiro filme. As primeiras fotos pelas ruas de São Paulo feitas com a câmera nova, reveladas, prontas: dele.

*

Eramir passou três meses economizando com diligência para comprar a câmera usada que vira no estúdio de Alaor, seu vizinho no Acapulco. Alaor tinha uma pequena loja na Praça da Sé, com uma sala nos fundos para atender transeuntes que precisavam de 3×4 para seus documentos. Ali, Eramir descobriu sua paixão tardia pela fotografia.

— Tem foto minha rodando o mundo, Êra! — Alaor costumava dizer, dando tapinhas nas costas de um maravilhado e invejoso Eramir. — É CNH, é passaporte, é RG…

Todas as manhãs, Eramir montava sua caixinha na Praça Dom José Gaspar para pegar os trabalhadores no horário de entrada. Passava as primeiras horas do dia a engraxar, engraxar e engraxar. Tinha certa fama por ali, uma clientela fiel, e a fila constante com grupos de espera à sua volta também atraía novos negócios. Quando o movimento acalmava, normalmente um pouco depois do almoço, saía da Dom José e corria para ajudar Alaor entregando panfletos da loja e conduzindo o povo até o balcão de vidro do amigo.

Foi nesse balcão que ficou frente a frente, olhos nos olhos, com a sua belezura.

— Chegou hoje de manhã. Fiz um rolo com um conhecido. Vamos ver se vende… É uma boa analógica — explicou Alaor com a voz de sempre.

— Eita que essa é porreta! Ala, vou comprar essa câmera aí, você não me venda ela a ninguém.

Sorrindo, Alaor e conduziu mais um cliente para o fundo da loja.

*

As mãozinhas cuidadosas de Eramir (mindinhos elevados) rasgaram o envelope com todo o cuidado e tiraram de dentro, como uma joia, o maço de fotografias. Uma a uma, o fotógrafo contemplava suas criações e observava impressionado seu próprio olhar sobre o centro de São Paulo.

Raízes que rompiam calçadas; objetos abandonados no meio-fio; a vasta fauna e flora dos canteiros; os passos decididos dos pombos; pneus de ônibus em close; cinzeiros abandonados; a profundidade das maçanetas; o silêncio dos bueiros; cinturas-para-baixo, pedestres degolados que aguardavam o sinal para atravessar — e tudo mais que pôde capturar do topo de sua estatura diminuta, de seu metro e trinta e seis, de sua cabeça de anão.

Colocando as imagens lado a lado no piso frio, admirava e analisava como um crítico, indicador no queixo, a sua primeira exposição. De repente, algo em uma das fotografias atraiu seus olhos. Dois pontos escarlates em destaque num canto direito. Debruçou-se e segurou a fotografia, identificando um par de altos saltos vermelhos sob torneadas panturrilhas, as pernas meio cruzadas como se acabassem de decidir o próximo passo. Não era possível enxergar os joelhos, cobertos por um tecido cor-de-rosa claro, e foi isso mesmo – a sugestão, o mistério – que sufocou Eramir por alguns segundos.

Correu o olhar ofegante entre as outras fotos para ver se havia capturado algo mais daqueles sapatos, daquelas pernas, daqueles joelhos – daquela criatura. Nada. Eramir pendurou a foto ao lado de sua cama e perdeu o sono.

 

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