Porto amoroso

Redenção em março. Poa pré-outonal.
Redenção em março. Poa pré-outonal.

Andar por Porto Alegre com um gaúcho é passar por inúmeros lugares tradicionais. “Aqui, essa doceria é bem tradicional”, “esse sebo é famoso”, “essa livraria”, “foi aqui que…”.

“Tu já foi na lancheria do parque?”

Ouvi a pergunta de praticamente todos os colegas locais. Já! E já provei o sucão misto, servido na jarra. “Ah, bom, porque tu não pode dizer que esteve em Porto Alegre se não foi na Lancheria.”

Há tempos queria escrever sobre a cidade onde passei dois meses do meu 2016. Tentei, tentei e nada saía, e também não sabia muito o que dizer. Mas ontem, aqui na minha véia São Paulo, depois de gastar horas de locomoção, para lá e para cá, trem apertado e metrô lotado – e hoje, depois de precisar cancelar um compromisso em cima da hora porque o ônibus não passou, me dei conta do que me encantou em Poa. E resolvi registrar para não esquecer.

Na minha rotina diária porto-alegrense eu não costumava sair muito. Se tinha de fazer algo era coisa rápida – uma passadinha no Záffari do Shopping Total, um café ali na padariazita da Gonçalo, almoçar no vegano da Redenção, cinema na Casa de Cultura Mario Quintana, andar pelo centro, porque centros são os melhores passeios. E sempre era coisa rápida rápida mesmo. Dava para fazer quase tudo a pé, meia horinha de caminhada, no máximo, resolvia.

Fim de semana era para andar até cansar pelas ruas. Na companhia da guria mais querida, cheia de disposição e paciência (capaz!) era um sobe e desce lomba que só, com a térmica debaixo do braço, lojinhas lindas, alternativas e charmosas. Aí depois parávamos em algum lugar, qualquer lugar – Gasômetro, Redença (rsrs), Moinhos –, sentávamos e dá-lhe assunto até o céu mudar de cor.

Porto Alegre tem cores incríveis de céu. E gaúchos são ótimos proseadores.

Não éramos apenas nós duas andando sem rumo pelas ruas. Famílias inteiras com carrinhos de bebês, crianças e idosos começavam o sábado na feira da redenção. Saudades de cruzar a Osvaldo Aranha e dar 3 voltas externas do parque, um dos percursos que costumava fazer nas minhas corridas matinais. Saudades de passar domingo inteiro ali meio jogada, do brique, os véio hippie, rapazes estilosos fazendo versões de Bob Dylan. O trenzinho. Muita coisa para se ver na rua, muita gente na rua. Não sei se por ser verão, mas a impressão que tive é que as ruas são bastante convidativas – as pessoas realmente aproveitam. Dá vontade de sair, mesmo que seja só para dar uma banda.

Ontem à noite, numa espécie de banzo ao contrário, quis voltar a Porto Alegre – que muitas vezes devia se chamar Porto Amoroso, pois nunca vi tanto estêncil de amor – para viver uma rotina normal (que não inclua morar e cuidar de um centro de yoga) trabalhando, estudando, saindo um pouco mais, dando aulas e descobrindo a cada dia essa lindeza de cidade.

“A cidade de vocês é linda, vocês devem ter muito orgulho dela.”

Rindo, como quem diz “é óbvio”, minha amiga guria respondeu: “Nós temos”.

2 pensamentos em “Porto amoroso”

  1. Minha cidade e do Felipe, Ju…Que bom ver que você também pegou carinho por ela…Quando estivemos por lá, Felipe e eu, mostrei a ele os lugares (alguns) da infância. O Felipe observou um dia, quando descemos de uma lotação, depois de falarmos com o motorista: “As pessoas falam com a gente com uma voz melodiosa, cujo som tem a ver com o conteúdo do que dizem; e isso é o oposto da forma do paulistano falar…”. Eu entendi a que ele se referia.

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