Réquiem para uma samambaia

Quando saí da casa dos meus pais, no começo do ano passado, quis encher meu apartamentinho alugado de plantas. Não poderia faltar a tradicional samambaia, pendurada num canto da sala. Saí às compras e voltei com a nova pet nos braços, num vaso não tão grande, que ocupou seu lugar em casa como um narrador onisciente.

A samambaia foi uma das primeiras coisas a ocupar o meu apartamento. Ela chegou ali antes do tapete, antes da mesa de jantar, da cama, da estante de livros. Era a primeira coisa que via ao entrar em casa e a última ao sair. Por meses a fio foi a minha única interlocutora, ouviu reclamações sem-fim sobre milhares de assuntos sem resmungar, me viu ficar muito feliz e chorar um tanto. Ficamos amigas ao ponto de eu não precisar mais dizer o que estava sentindo. Só olhava para ela. Ela sabia.

Minha samambaia teve alguns apelidos ao longo de nossa convivência. Apelidos carinhosamente jocosos devido a suas formas desengonçadas. Tinha dias que acordava como uma aranha, espicaçada; e bastava girar um pouquinho o vaso ou descê-lo ao chão para a rega que ela se acalmava. Certo dia, por sua horripilância, ganhou o apelido de Sra. Havisham (a véia macabra do Grandes Esperanças). Já foi também Demogorgon, numa época em que eu tinha certeza de que ela desceria do vaso e rastejaria até o quarto para me engolir.

Cresceu muito, trocou de vaso e passou para um suporte, onde ficou da minha altura, onde eu podia olhá-la nos olhos. O suporte ficava do lado de minha poltrona e lemos juntas Morte em Veneza, O livro do riso e do esquecimento, contos da Flannery, da Katherine Mansfield. Ela gostava de participar de minhas leituras e ficava sempre atenta às conversas daquela sala; às minhas costas durante o trabalho, várias vezes me salvou soprando algumas soluções de tradução. Ela nem imagina como me ajudava a relaxar enquanto eu passava longos minutos observando aquele pequeno ecossistema, regando e podando, após um dia de trabalho.

Em maio deste ano, a minha samambaia começou a ver o nosso apartamento esvaziar. Primeiro levaram a mesa. Depois a cama. A geladeira. Fogão. Então ela me viu encaixotando tudo, sem entender nada. Foi encaixotada também. Vim morar com meu namorado, por quem ela também se apaixonou, e formamos uma família: eu, ele, ela, a finada comigo-ninguém-pode, a persistente zamioculca, a espada de São Jorge e o Jorge Tadeu, meu antúrio. Tudo parece estar bem, mas há algum tempo a samambaia tem me preocupado. Não sei se é a idade, a estação do ano, se ela anda tristonha. É setembro e está pele e osso, a pobrezinha.

Recentemente, conseguimos salvá-la das cochonilhas. Foi uma luta árdua da qual ela saiu bastante debilitada. Suas folhas secas inundaram a minha varanda, onde ela passa os dias a observar uma profusão de prédios, cimento de toda cor do centro da cidade. Penso se ela tem saudade do apezinho. Se está gostando daqui. Se é só uma fase, questão de adaptação e se, em breve, ela estará monstruosa e verdejante novamente. Já pensei em fechá-la num saco de lixo preto, mas não tenho coragem. Por outro lado, não gosto de vê-la nessa secura, nessa magreza, ignorando os suplementos e a água costumeira. Penso que em breve irei acordar e não a verei mais por aqui. É possível que um dia, exausta, ela pule da sacada. Ou que voe, do décimo segundo andar, direto para o céu das samambaias.

Registro do dia em que ela acordou Sra. Ravisham

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