Subject: escrever quando se precisa escrever

Desde a adolescência queria trabalhar com edição de texto: revisão e preparação, mais especificamente. Me formei em Letras sem sequer pensar em dar aulas ou em carreira acadêmica — queria mesmo os livros. Apesar de gostar muito de escrever (de amar escrever, de escrever ser a minha vida), me senti sempre mais à vontade lidando com a parte técnica da coisa: ortografia, pontuação, acentuação, estilística. Fiz alguns cursos de redação publicitária e roteiro, mas nunca aconteceu de trabalhar nessas áreas de criação.

Foi assim até muito recentemente, quando além de iniciar nas traduções, que envolvem muito trabalho criativo, comecei a trabalhar com roteiro. A experiência desafia e motiva, e ter de sentar para escrever sem ser por meu “lazer” — ou sobre algo que estava lendo e gostando, ou algum novo conto — logo apresentou seus obstáculos e suas travas (trevas!), e me peguei de repente preferindo lavar uma pia de louça, fazer uma faxina ou ir ao supermercado a sentar e criar um enredo.

No entanto, quando reunia todo o fio de disposição que me restava e sentava para começar a escrever, o trabalho fluía maravilhosamente, o resultado era satisfatório e, do imenso vácuo que acreditava ter na cabeça, saíam soluções interessantes e boas ideias. A questão primordial era sempre esta: começar.

Trabalhar com criação exige uma paciência e disciplina enormes. Mesmo quando me proponho apenas a escrever aqui para o blog, que é meu lugarzinho seguro (e que tento administrar sem pressão), faço o possível para desviar o foco da minha atenção e, ao me deparar com o documento em branco, com a barra de texto piscando, é comum levantar pelo menos umas dez vezes antes de começar o texto que está rondando a minha cabeça há — muito provavelmente — mais de uma semana (sim, é o caso deste aqui). “Preciso preparar um café”; “De repente bateu uma sede, vou buscar água”; “Oh, que vontade repentina de escovar os dentes”; “Uma olhadinha aqui nas notificações”…

Mas é diferente quando se tem prazos, se tem tarefas e precisa entregá-las. O mosquito da procrastinação ficar rondando a escrivaninha, mas é urgente focar e começar, focar e cumprir, focar e escrever. Num desses momentos, sem querer, desenvolvi uma técnica infalível que tem funcionado muito bem para mim, e divido aqui pois ela também pode funcionar para quem sofre com o momento de sentar e começar o primeiro parágrafo.

Vamos a ela.

Todo mundo tem na caixa de entrada aquele e-mail esperando uma resposta. Tenho com certa frequência esses looongos e-mails de amigos que moram longe ou de pessoas com quem converso para falar de criação, de livros, de novos textos (se você é/quer ser escritor, tenha essa rede. Imagine só: quando seus contos, poemas, romances forem muito lidos, um editor vai descobrir a sua “correspondência” e seus leitores vão adorar ver você ali, descontraído, contando ao seu amigo sobre a festa de seu sobrinho ou sobre como você teve a ideia daquele conto), e às vezes eles já estão há semanas ou meses aguardando resposta.

Pois é ali na caixa de entrada que tenho ido vasculhar quando preciso escrever para um trabalho — melhor que vasculhar a despensa. Escolho algum desses e-mails e o respondo calma e longamente. Tem funcionado como uma espécie de desbloqueio, como se tudo o que a mente precisasse fosse um empurrãozinho, um tipo especial de coragem para os dedos começarem a se movimentar e fazer girar as preguiçosas engrenagens do pensamento.

Com os e-mails acontece quase a mesma coisa que com os textos criativos: aquela preguiça inicial vai se empolgando e, quando você se dá conta, já escreveu até mais do que pretendia, lembrou outros casos que precisava contar, de outros detalhes de por que tal livro é tão especial… E chegou a uma resposta longa e articulada. Daí o caminho até começar a digitar em um novo documento em branco é muito mais simples e ensolarado — as ideias fluem mais, queremos escrever mais.

Se o mosquito procrastinador estiver rondando a sua escrivaninha e for muito difícil começar a digitar, leitores do Micro, tentem essa técnica e comecem com um texto desinteressado e sem relação direta com o que precisa ser escrito. Depois aquecer a cabeça e os dedos com a correspondência ficará muito mais fácil começar o que precisa, de fato, ser começado. Até chegar a hora de começar a pensar em uma nova técnica, porque a cabeça deixa de cair nessa.

 

3 Comentários

  1. Amei, Ju!!
    Tô há um mês sem escrever no blog, deu uma bloqueada aqui, como acontece de tempos em tempos. Curti muito sua ideia, vou tentar por em prática!

    beijossss

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