Casa

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Faz algum tempo que sinto um amor inexplicável pelas quintas-feiras. O dia está muito lindo e penso “mas minha nossa, por que hoje está tão lindo? Como pode um dia tão lindo?”, logo respondo “ora, ora, ora: é quinta-feira”. Sempre é. A pessoa que inventou o #tbt (nota mental: pesquisar) deve achar o mesmo.

Vinha descendo o ladeirão a caminho de casa, saindo do trabalho mais cedo que o normal, pensando no dia, agradecendo, cantando. Lembrei de como o dia começou, e esse – o como ele começou – é o tema deste texto, cuja intenção é indicar aos leitores um dos meus discos preferidos da vida.

Saí cedo de casa para trabalhar, mas não tão cedo a ponto de conseguir pegar o metrô naqueles minutos pré-rush. Em vez de dez para as oito, saí às oito, o que me fez viajar da Alto do Ipiranga à Consolação em pé e espremida, em vez de sentada, lendo. Tudo bem, eu tinha música, e como fazia tempo que não ouvia, escolhi no iPod o Casa, disco de 2002 em que o violoncelista Jacques Morelenbaum, a vocalista Paula Morelenbaum e o pianista Ryuichi Sakamoto se uniram para tocar Tom Jobim.

A primeira música começou, interrompida pela voz metálica do além que anunciou que, devido a falhas na estação Ana Rosa, os trens estavam operando com velocidade reduzida e maior tempo de parada entre as estações. Tentei ignorar a informação e apenas prestar atenção na música.

Deu certo. A melodia me levou há 14 anos atrás, quando ouvi o disco pela primeira vez e resolvi compra-lo. Foi num sábado, ali na Fnac Pinheiros, e eu estava com meu pai – nós costumávamos fazer esses passeios: passar tardes de sábado na Fnac ouvindo discos e lendo livros e revistas. No fim do passeio, um expresso, um pão de queijo, um presentinho. Lembro que Casa estava entre os dez discos mais vendidos da semana, e que eu tinha achado a capa linda (julgando o disco pela capa sim) a ponto de ir até uma estação de escuta para ouvir os 20 primeiros segundos de cada música. Sabia vagamente quem era quem daquele trio.

Lembro de ter achado o disco tão comovente que o escolhi como presente da vez. Até hoje, quando ouço, penso: “que disco lindo”. Na verdade penso isso sempre que escuto Tom Jobim.

O metrô estava mais infernal a cada estação, mas Casa me envolveu numa redoma que me acompanhou durante toda a quinta-feira. Depois da longa viagem subterrânea vieram os deveres, a vida normal à frente da trilha sonora. Um encontro dejá-vu, um reencontro tão doce que ainda não arranjei palavras, mas que me trouxe palavras que eu queria e precisava ouvir.

Agora preciso descansar mas não sei como, porque quero aproveitar ao máximo. Coloco Casa pra tocar mais uma vez, e de novo. Fui pesquisar a origem de #tbt, mas não achei nada de muito específico ou revelador. Desconfio que seja isso aí, algo implícito mesmo, uma aura inominável: as quintas-feiras carregam uma magiazinha. Desde que comecei a reparar nas minhas, elas são mágicas. Percebam. E preparem uma boa trilha sonora.

Um pensamento em “Casa”

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